Caixa Cultural recebe exposição sobre populações negras da Amazônia

A Bravo! conversou com Marcela Bonfim, economista que se descobriu fotógrafa em Porto Velho: “Acredito que a Amazônia e eu estamos aprendendo, juntas, a ser negras”

Menino da beira. Comunidade de Nazaré, 2015. Fotos: Marcela Bonfim

Abre neste sábado (7), na Caixa Cultural em São Paulo, a exposição (Re)Conhecendo a Amazônia Negra, da fotógrafa Marcela Bonfim. Economista, ela chegou a Rondônia em 2010 para estudar e tentar encontrar um emprego, e lá acabou se deparando com um mundo até então inimaginado: "Acredito que a Amazônia e eu estamos aprendendo, juntas, a ser negras", diz Bonfim.

A fotografia, ela diz, veio como muro de proteção e uma muleta: a ajudou a conhecer culturas de quilombolas e terreiros, até que pudesse estreitar a relação com Porto Velho e com os seus personagens e se sentir parte da cidade. No dia 10 de novembro, haverá um bate-papo com Marcela Bonfim e o lançamento do catálogo da exposição. Ela conversou com a Bravo! por e-mail. Veja o papo.

Madona Negra. Porto Velho, 2015

Como surgiu a ideia de fotografar a Amazônia negra? Como você chegou até essas pessoas?

Costumo dizer que surgiu do nada. Diferente de sugerir o acaso, o nada tem mais sentido pra mim, porque o primeiro passo foi dado despretensiosamente. Sem nada na cabeça. Me lembro apenas da necessidade de se preencher um vazio, que me incomodou por meses, até a iniciativa de comprar uma câmera. Eu era recém-chegada a Porto Velho. Confesso que não era um lugar que eu almejava estar, viver. Na verdade, infelizmente, para o ‘resto’ do Brasil, Rondônia é como se fosse outro país. Isso quando existe. Eu, pelo menos, sequer pensava na existência de Rondônia. E foi a maior surpresa que a vida me apresentou até o momento!

Quando cheguei naquele 8 de Fevereiro de 2010, chegava junto na bagagem muita frustração e insatisfação, mas também a possibilidade de um recomeço. Foi nessa cena que vivi por meses, num profundo nada, inclusive de quem não sabe onde está, e, principalmente, quem é. Isso eu só percebi a partir da compra da minha primeira Caiuru, no terceiro mês (uma bike tipo Barra Forte), quando finalmente me propus a conhecer a cidade.

A princípio, as primeiras pessoas que chegaram até mim faziam praticamente a mesma pergunta. Eu era nova em Porto Velho, e nas muitas voltas pelas ruas eu sempre era abordada, com: “Você é barbadiana?” Ou “Você é uma Johnson?” Ou “Você é uma Shockness?” Isso me encafifava ao mesmo tempo em que me fazia bem. Parecia ser uma coisa boa; querendo ou não era uma abertura que a cidade me concedia…

Mas foi num samba de sábado que acontecia no Mercado Cultural de Porto Velho, em 2012, que comecei a desenhar um novo percurso na minha empreitada; dali que o nada começou a ganhar um corpo diferente. No final da última música, ao cumprimentar os músicos, para minha grata surpresa, conhecia Jesuá Johnson (Bubu) e Norman Johnson (Junior), meus ‘parentes’! — foi como ‘brincamos’ quando contei a eles sobre as pessoas na rua. Assim, iniciei meu primeiro contato com parte da história negra da Amazônia. Conheci os barbadianos!

Banho de Jorge. Quilombo de Vila Bela, MT.

Você é formada em economia, foi morar em Rondônia e acabou descobrindo a fotografia. Como foi esse processo?

Cheguei em Rondônia com o único objetivo de buscar o primeiro emprego. Em SP, vivi essa busca que resultou em muitas frustrações… Lá, meus planos eram basicamente 1) terminar a universidade, 2) conseguir um bom emprego e 3) viver e consumir como todo mundo, não é? Essa era a redoma doce que eu acreditava e reproduzia. A tal ‘meritocracia’. Chegar em Rondônia me fez repensar tudo isso na marra. Até mesmo porque os planos paulistanos não tinham mais nada a ver com a nova realidade. Porto Velho não tinha aqueles prédios que eu sonhava trabalhar, aquelas minhas ambições, aquela famigerada urgência… Naquele momento eu só pensava em ser aceita, ter uma nova tribo.

Nesse contexto, o tempo foi meu principal guru. E era muito tempo… Não sabia lidar com tantas horas disponíveis, confesso. Pra quem saia de Guarulhos ainda de madrugada pra chegar na PUC às 7h15, e voltar às 23h todos os dias; tirar uma sesta às 12h30, em casa, depois do almoço, era muita coisa! Essa mentalidade me levava a crer que as pessoas daqui estavam perdendo tempo. Por muito tempo essa foi uma das maiores dificuldades de estar aqui (em Porto Velho). O caminho foi desacelerar, inclusive a mente.

E foi exatamente na medida em que eu me sintonizava com o tempo da cidade (em 2013), que as muitas estórias negras começaram a aparecer pra mim, gratuitamente. Entrei numa verdadeira saga de estórias de rua, da cidade, das famílias, personagens, até chegar o dia de conhecer um terreiro. Esse dia mudou bastante o rumo das coisas. Inclusive, meus pensamentos… Tudo bem que, enquanto acontecia as saídas dos Orixás, eu não tirava a câmera do rosto. Naquele dia a câmera serviu como uma espécie de muro de proteção. Tinha medo, receio, preconceito… Sintomas de uma branquitude enfiada pela guela. Depois, ela se transformou numa ‘muleta’ porque foi por conta dela (da câmera) que eu cheguei até lá (no terreiro). Desde esse dia, aprendi duas coisas, a primeira, a perceber a eficiência do cristianismo na criação e manutenção de estigmas, quase trinta anos pra eu me libertar desse preconceito. A outra, que no final das contas, o preconceito que eu tinha era contra eu mesma. Uma conclusão bem triste, não?

Nesse processo eu descobria a fotografia, que assumia um papel de bússola, a cada apuração das imagens; onde eu sempre me perguntava: pra onde é que eu estava indo, e depois de um tempo, até mesmo quem eu era, afinal?

Geração Johnson. Jesuá Johnson. Porto Velho, 2016

Você diz que esse (re)conhecimento também é o seu próprio, como mulher negra. Como a fotografia te ajuda a se (re)conhecer melhor?

Todo esse percurso me ajudou. A fotografia foi a materialização de tudo isso. Em SP, por mais sinais que eu tivesse recebido em relação a minha própria cor, parece que não foi o suficiente pra que eu me reconhecesse como de fato sou. E olha que não faltaram espelhos. O que faltou foi o olhar… Minha atenção por muitos anos se deu pro lado de fora de mim. Não acreditava no que eu era por dentro. Minha perspectiva era sempre o outro. E o outro era sempre branco. As minhas principais referências eram brancas. Daí a descrença em mim, no negro, na cor. A ponto de encarar, desde criança, a transformação do cabelo crespo em alisado, adesão de um deus branco e o papel da colega de classe mais legal da turma pra ser aceita.

Todas essas (des)configurações se deram na infância e se arrastaram até o período da faculdade. A busca pelo primeiro emprego foi um indicador do problema. Mas outros problemas já vinham de muito tempo atrás como, por exemplo, a busca pela afetividade, e as frequentes barreiras que ainda envolvem o assunto, que vão desde os privilégios da estética branca, até os estigmas do corpo negro enraizados pela história. Não fui diferente de nenhum negro com um pouco mais de acesso aos meios de comunicação, nesse processo, embranqueci e endureci.

Tudo isso foi sendo ressignificado a partir dessa nova oportunidade enxergar a vida. E os momentos em que ocorriam essas reflexões com maior intensidade se davam nas apurações das imagens. Como eles são lindos! — foram minhas primeiras reações. A cada imagem, uma busca por uma semelhança comigo ou com alguém da família. Desde o cabelo, até o pé, perceber a beleza na estética do negro me custou um percurso de cerca de trinta anos. Sem contar o afeto familiar que a maioria dos fotografados despertou em mim. Afetos que a gente acaba abrindo mão até mesmo por conta da descrença no afeto, mas que trouxeram uma forma mais suave de me perceber.

Resistência Wajuru. Comunidade indígena de Porto Rolim.

Com certeza tematizar a Amazônia negra é bem menos comum do que a indígena — tanto exposição tem esses verbos, (re)conhecendo. Qual a importância de falar disso também, para você?

De fato é muito incomum pensar numa Amazônia Negra. Eu jamais pensei nisso. No meu imaginário, ainda em SP, a Amazônia era o fetiche natural das revistas e da TV. A distância entre mim e a Amazônia era do tamanho da minha própria ignorância em relação à minha própria história. O que deixou o local mais hostil quando cheguei. Essa falta de compreensão de si mesma leva a isso. Meu início em Rondônia foi muito violento, tanto comigo, quanto com a terra.

Mas isso ficou mais estabelecido quando descobri no meio desse verde com muita fumaça, uma negritude invisibilizada com o tempo, pela história. Foi essencial. A partir desse ponto, já em 2014, pela primeira vez, me sentia parte desse chão. (Re)conhecer uma Amazônia Negra, fez de mim uma aprendiz de mim mesma. Foi um processo simultâneo. Acredito que a Amazônia e eu, estamos aprendendo, juntas, a ser negras. E isso é um processo lento, que acontece com outras pessoas negras, em vários lugares do Brasil. A maioria dos negros brasileiros precisam aprender a ser negros no percurso de suas vidas.

A (dês)educação que o negro sofre desde criança nas escolas faz destes vítimas de um pensamento branqueador reproduzidos por nós mesmos, fruto de conteúdos acessados nos livros escolares, na televisão e na internet, no consumo, na inserção e convivência social e na própria narrativa histórica — que precisa dar voz a outra versão que reconheça de fato às contribuições dos inúmeros povos negros psentes no Brasil. Essa é a importância. O movimento, o (re)conhecimento dessa natureza chamada negritude.

Além dos próprios quilombolas e seus descendentes, imagino que haja também uma forte presença negra de imigrantes. Conseguiu acessar esse grupo também?

A Amazônia como um todo é rica de processos (i)migratórios negros. São fluxos que registram períodos importantes, inclusive em Rondônia. Desde a construção do Forte Príncipe da Beira, situado na região do Vale do Guaporé, até hoje, com a chegada dos haitianos, Rondônia amplia suas estatísticas negras.

Falar na Amazônia Negra é resgatar também o movimento reflexivo desses fluxos (i)migratórios. O ciclo da borracha, do ouro, a construção da Madeira Mamoré, a implantação das usinas, todos esses processos socioeconômicos envolveram os braços do trabalhador negro das mais diferentes regiões brasileiras — com destaque pras regiões do próprio Norte e Nordeste. Desde 1750, vivemos essa ocupação negra em Rondônia. A princípio, com os deslocamentos dos negros ainda escravizados da região de Vila Bela, para o Vale do Guaporé, ainda Mato Grosso naquele período. Esse processo ainda precisa ser mais aprofundado pela academia. É um pedaço importante da história que envolve a existência de Tereza de Benguela e de um contigente de populações negras e, no meio destas, os quilombolas, ainda não reconhecidos pelo tempo, pela história e pelas políticas públicas.

Falar do fluxo imigratório haitiano é bastante delicado. Em um pouco menos de cinco anos me dei conta dessa presença em Porto Velho; a partir de uma experiência vivenciada na rua, na procura por um novo endereço, fui surpreendida com hostilidade pela janela do proprietário do imóvel como a resposta: não alugo pra haitiano. Esse recorte me fez sentir um tiquinho o que esse novo fluxo vem enfrentando nessa nova oportunidade chamada Brasil. Pela história, nada diferente dos barbadianos, no período da Madeira Mamoré. São grupos que além da cor, tiveram como barreira a língua, os costumes e fragilidade de ser fruto de uma diáspora.

O acesso a esse universo haitiano é bastante cauteloso. Fiz algumas imagens de rua. E também em outros locais. Eles estão presentes no projeto. Mas ainda falta intimidade. Confesso que é uma atmosfera que ainda pretendo vivenciar com mais calma. Existe muita expectativa. Existe muita dor. Existe muita insegurança. É como se eu tivesse olhando num espelho difícil de encarar. Preciso de um pouco mais de chão pra definitivamente pisar com mais consistência nesse universo novo que se apresenta em Porto Velho em diversas cores de tecido e cabelos, estilos e palavras em francês. Estou falando de pessoas que têm condições para ocuparem postos de trabalho melhores do que são induzidos à cor de sua pele — que por estarem em situação de emergência são submetidas a situações de abusos e subserviência constantemente. Preciso me sentir à altura pra abordar essas histórias e não cometer distorções ou mesmo vislumbramentos nesse novo capítulo da Amazônia Negra.

Dona Duda. Vila Bela, 2017

Pelas fotos vejo que você tem uma preocupação em mostrar os corpos, rostos, feições, além de mesclar coloridas e PB. Como decide a cor, a técnica e o enfoque? Fotografa com que câmera?

Quem decide são as estórias. Demora um tempo pra eu perceber o que precisa ser registrado. E como precisa ser registrado. Por exemplo, muitas vezes identifico no fotografado a baixa autoestima como fator determinante da sua personalidade. Infelizmente, com mais frequência nas populações tradicionais. E é tão forte que se cria uma resistência a princípio. O diálogo travado nessas situações são verdadeiras oportunidades de resgate da dignidade tanto deles, quanto minha. É um exercício que, muitas vezes, a desistência da materialização da imagem, se torna um ato de respeito ao fotografado.

Minhas idas às comunidades me permitiram curar algumas feridas causadas pela baixo autoestima. Hoje, prossigo com o trabalho numa espécie de propagação e manutenção dessa autoestima. Esse é um ponto. Existem muitos outros pontos culturais que observo antes de fotografar com a câmera, como a solidão dessa negritude, as tradições, as narrativas, religiosidade, integridade, seus espaços, corpo, nutrição, lazer, talento, amor ou a ausência deste.

Fotografo dentro de uma perspectiva amadora, como viajante, buscadora. Chego sem avisar. E saio avisando que um dia volto com as imagens, numa espécie de compromisso. Sem autorizações prévias, no ‘fio de barba’ mesmo. Geralmente caminho só. Às vezes levo comigo amigos abertos a conhecerem um pouco sobre o que é ser negro. Dentro dessa perspectiva amadora tem os equipamentos. Considero meu kit suficiente: duas câmeras e duas lentes básicas versáteis — que vão de 24 mim a 300 mm.

Atualmente, cerca de 70% das imagens da exposição em circulação foram capturadas por uma Cânon T3i. No portfólio geral, esse número aumenta pra mais de 80%. Ano passado decidi filmar a Festa do Divino Espírito Santo do Vale do Guaporé, daí investi numa Sonny 7 Alfa, o que me possibilitou realizar seções noturnas com mais segurança. No entanto, não escondo a preferência pela primeira, ela tem o som do click que me ajuda no ritmo da imagem, e já tem o formato da minha mão, acho que isso se chama intimidade…

Exposição (Re)Conhecendo a Amazônia Negra — Marcela Bonfim
Local:
CAIXA Cultural São Paulo— Praça da Sé, 111 — Centro — São Paulo — SP — próxima à estação Sé do Metrô)
Abertura: 7 de outubro, sábado, às 11h.
Visitação: de 7 de outubro a 17 de dezembro (terça-feira a domingo)
Horário: 9h às 19h

Lançamento do catálogo e bate-papo com a fotógrafa Marcela Bonfim
Data:
11 de novembro, sábado, às 11h.

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