Castelo está resfriado

Por Carlos Castelo

Gay Talese escreveu uma das melhores reportagens que já li. Chama-se Sinatra está resfriado. Nela, através apenas de depoimentos de terceiros, monta um perfil completíssimo do Old Blue Eyes. Inclusive de quando ele está péssimo por causa de uma gripe — o que faz Frank mudar para o modo agressivo.

Hoje estou prostrado. Diferentemente do Sinatra, a gripe não me deixa agressivo, me bota cretino. Viro um zumbi em slow motion nos estados gripais mais fortes, demorando o dobro de tempo para realizar tarefas simples, como escrever esta crônica, por exemplo.

Se tenho um órgão de choque, esse é o nariz. É sempre nele que acontecem os piores cataclismos. Quando era adolescente, ele sangrava. E o fato só acontecia quando eu estava em sala de aula. Lá ia eu de lenço rubro nas mãos para o WC. Logo teve início o bullying: apesar de me chamar Carlos, me apelidaram de Chico.

Mais tarde fui diagnosticado como alérgico. Não posso tomar contato até hoje com roupas guardadas, mofo, pêlo de gato que logo sobrevém o festival de espirros. Há pouco tempo descobri que sou proprietário de um desvio de septo. Talvez tenha de operar. Mas vou pegar uma segunda opinião, já que não se trata de desvio de sexo, o que talvez pedisse uma intervenção cirúrgica mais iminente.

A clássica recomendação médica de boa alimentação, muito líquido e descanso acabou me fazendo recordar de uma gripe de décadas atrás. Sim, a constipação também é uma espécie de madeleine de Proust recheada de vírus mutantes por todos os lados.

Foi na primeira vez que visitei a Big Apple. Estava de babá da minha irmã caçula, que à época tinha 13 anos. De Nova York fomos a Washington e dali à previsível Disney World. Uma viagem arquitetada pelos meus pais para mostrar que nós dois estávamos aptos a enfrentar o mundão e seus caprichos.

Naquelas de entrar em loja com ar condicionado a zero grau e sair para rua nos 28–30 logo me bateu o defluxo. O pior é que acabei passando-o para a mana, que caiu de cama. Preocupado (eu não devia ter nem 20 anos), liguei para meu pai. Em sua tradicional fleuma, me sugeriu que procurasse um médico.

Lembrei-lhe que uma consulta novaiorquina era do preço de um consultório médico em São Paulo. Mas ele obviamente estava mais interessado na saúde da filha. Que, para mim, à época, era apenas uma chata, exagerada e mimimizenta.

Tentei dar o golpe do tempo ao tempo para poder gastar a grana do parecer médico em elepês e livros. Mas a maninha, muito sagaz, prometeu revelar a papai que eu fumava escondido, caso não chamasse logo o “doctor.”

Não houve acordo. Contactei a recepção e, meia hora depois, adentrava solene em nosso quarto de Mid-Manhattan o M.D. Joseph Salomon.

Era um judeu corpulento, de terno cinza claro, muito parecido com Isaac Bashevis Singer.

Apesar de ter estudado inglês em boa parte da vida, me embananei naquele momento. Como disse antes, fico cretino quando sofro de influenza.

Doc Salomon quis saber o que acontecera com minha irmã. Deu-me um branco na hora, não conseguia relatar que a menina constipara. Ansioso, comecei a andar em torno do quarto tentando achar le mot juste pra explicar o quadro.

– Está tudo bem com o senhor? — indagou o médico.

Respondi:

– Oh, I’m ok.

E emendei, confuso:

– She’s just atchiming, you know?

Doc Salomon fez uma cara de espanto:

– I beg your pardon — atchiming? — perguntou.

Foi mal. É claro que o meu neologismo para espirrar só teria efeito numa conversa com James Joyce, não com um profissional de saúde novaiorquino. Então, para me explicar melhor, comecei a arremedar espirros de vários tipos com a boca. Fazia aquilo, simulava que estava tirando catarro das ventas com um lenço imaginário e complementava aos berros:

– Like this, you know? Atchiming, understand?

Depois que imitei uns oito tipos de esternutação, o médico deu um tapinha na própria testa e atestou:

– God! You mean, she’s sneezing…

E, como todos os clínicos do mundo, receitou a ela boa alimentação, muito líquido e descanso. Não sem antes passar um recibo de 500 lincolns pelos serviços prestados.

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