“Charge a favor não é charge, é cartilha”

Na série de entrevistas com grandes cartunistas brasileiros, Nani fala das velhas e novas censuras com Rafael Spaca

Por Rafael Spaca

Você é considerado um dos maiores nomes do humor nacional. Quando criança você já tinha essa inclinação para o desenho?

Um dia, aos 13 anos, vendo uma revista de cartuns chamada Vamos Rir, eu disse para mim mesmo: “Isso eu sei fazer”. No mesmo dia fiz meu primeiro cartum. Era um pirata com ganchos nas mãos dizendo para o outro:“Conheço esta região como a palma da minha mão.” Não parei mais de fazer cartuns.

Chegou a fazer algum curso para aprimorar sua técnica ou foi fazendo até ficar bom?

Curso não. Eu desenhava todos os dias. Lia as revistas de humor para pegar os temas. Chegava a criar 40 cartuns por dia. Achava que ser cartunista seria uma boa profissão, já que tinha tanta gente desenhando nas revistas e jornais.

Suas influências eram Millôr, Carlos Estevão e Henfil. Millôr e Henfil nós conhecemos, mas quem era Carlos Estevão e por que ele te influenciou?

Eu morava em Esmeraldas nos anos 1960, era o jornaleiro da cidade, vendia nas ruas revistas e jornais de que meu pai era representante. Na revista O Cruzeiro eu via Millôr, Péricles, Appe e Carlos Estevão. Quando vi no Pif Paf um desenho em lápis cera do Millôr, eu, nos meus 13 anos pensei: “Que legal! A revista também publica desenho de criança!“ Muitos anos depois contei isso ao Millôr e mostrei o desenho — parecia mesmo desenho de criança. Mas eu curtia o Carlos Estevão, pelo seu humor direto e popular.

Um dos primeiros cartuns

Qual a importância do Henfil na sua vida?

As legendas dos cartuns que eu lia nas revistas tipo Vamos Rir eram num português muito correto, e o Henfil, que publicava na revista Alterosa e no Diário de Minas, escrevia o texto de seus desenhos em mineirês, numa linguagem que me deixou fascinado. “Ah, posso escrever como a gente fala!” E o desenho dele parecia com os que eu fazia, um pouco mal acabados. O Henfil, no Rio de Janeiro, recebia o O Diário Católico, jornal de Belo Horizonte onde eu comecei a publicar em 1971. Foi ele que começou a publicar meus desenhos no Pasquim, que ele pegava no jornal.

Só aos vinte anos você publicou seu primeiro desenho n’O Diário Católico. Nesse hiato o que você fez? Pensou em desistir ou foi tentando aperfeiçoar seu traço?

Chegando em Belo Horizonte em 1979, a minha meta era ser chargista. Trabalhava no Banco Agrimisa e fui aceito pel’O Diário, que era o terceiro jornal de Minas Gerais. Era vendido, tinha assinatura, etc. O editor, Afonso Raso, além de publicar a charge editorial — que era como se chamava antigamente — , me dava uma página inteira aos domingos onde eu publicava cartuns. Quer coisa melhor que isso para um cartunista que está começando?

Que temática trabalhava no O Diário Católico?

Era época da ditadura, mas eu tratava de todos os assuntos. Lembro que fiz charge com o General Médici, uma coisa que era quase proibida, mas falei sobre a estreia do filme Love Story, problemas da cidade e do estado e, mesmo sendo um jornal católico, publiquei um cartum de presépio: os Reis Magos, José e Maria vendo televisão e deixando o Menino Jesus sozinho.

Já era sarrista ou era mais crítico?

Eu fiquei lá até os 22 anos. Tinha vindo do interior, mas a luta contra a ditadura politizava todo mundo. Eu sempre soube que o humor é crítico. Eu sempre tentei ser crítico e engraçado. O Freud diz que “o humor não se resigna, desafia”.

Daí você foi para O Pasquim. A mudança foi da água para o vinho?

A turma do Pasquim era formada por nomes nomes consagrados na imprensa, eu era da geração que estava chegando e ficou sendo conhecida como a “geração Pasquim”: .. Eu, Reinaldo, Claudio Paiva, Hubert, Demo, Laerte, Nilson, Lor, Angeli, e muitos outros. Nós éramos os pós-medalhões.

Henfil pediu para você grudar no Jaguar e aprender tudo com ele. O que aprendeu com Jaguar?

Foi no meu segundo dia no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1973, que o Henfil me disse “procurei o Henfil que me disse: “Cole no Jaguar.”. Eu ia para o Pasquim todos os dias e ficava lá, enchendo o saco dele. Tomamos muitos porres juntos.

Acredita que se tivessem feito algo melhor que O Pasquim já teriam esquecido essa turma toda? Se sim, por que até hoje não fizeram nada melhor?

Difícil esquecer o talento daquela turma. Mas eu acho, de modo geral, que antes da Internet, havia os detentores do humor que eram os chargistas (Ziraldo, Fortuna, Jaguar, Claudius e Millôr), os redatores de humor (Stanislaw Ponte Preta, Leon Eliachar) e os comediantes de programas humorísticos (Chico Anysio, Jô Soares, Os Trapalhões e a turma de autores que veio do rádio, como Max Nunes e Roberto Silveira). Os engraçados do país eram umas 20 pessoas. Os meios de comunicação pré-Internet veiculavam e o Brasil ria daqueles profissionais. As piadas circulavam menos. No interior só tinha piada nova quando um caixeiro viajante chegava por lá. Hoje todas as piadas estão nos sites da Internet. Faz humor quem é humorista e quem não é. Na Internet tem de tudo para todos os gostos. Mas ideologicamente não tem um humor que seja o denominador comum, hoje um novo jornal seria taxado de “coxinha” ou “mortadela”, ou “de raiz” ou “Nutela” ou outros rótulos. Na época do Pasquim a ideologia comum era combater a ditadura, a política era “tirar a sola do sapato do pescoço do povo”. O jornal fornecia, além do humor debochado, cultura, informação, entrevistas de quem tinha o que dizer e que os jornalões não publicavam (por medo e por causa da censura). O Pasquim dava coragem para que as pessoas lutassem contra os militares no poder. O opressor era visível, hoje existe a opressão que não é fardada, mas todo mundo se contenta em ficar se “achando” no Face e no Twitter.

Millôr era o mais genial de todos?

Millôr era genial como poucos. Sua obra vai perdurar como a dos antigos filósofos.

Havia muita vaidade em O Pasquim ou eram todos bons amigos?

Amigos como irmãos são, por isso brigavam de vez em quando, como os irmãos brigam. Lembro de uma coisa bacana. Em 1973, Ziraldo convocou todos da redação, chamou a cozinheira, o porteiro, o pessoal da contabilidade para uma sala e anunciou: “Vocês vão testemunhar o dia que Nani conheceu Millôr Fernandes”. E fui apresentado ao Millôr. Acho que o que unia a turma do Pasquim era a “inveja branca” que todos tinham pelo trabalho do outro.

O Pasquim tinha um humor de guerrilha. Você procura manter essa verve até hoje ou com o passar do tempo a tendência é ficar mais conformado?

Tem aquela música do Sérgio Ricardo “Se entrega, Corisco. Eu não me entrego não”. Penso um pouco assim. Fico enojado, mas não me entrego. Um dos primeiros redatores da revista Punch escreveu: “O humorista não só põe em relevo o ridículo das coisas, mas também evoca a piedade, a ternura e a compaixão em favor dos que sofrem. O humorista é uma espécie de pregador laico”.

Charge vetada na época da censura

Enfrentar a censura é o que de pior já te aconteceu?

Pior que enfrentar a censura oficial é enfrentar a censura do politicamente correto.

Ziraldo, Jaguar, Paulo Francis, Fortuna, Flávio Rangel, Luís Carlos Maciel foram presos. Como você conseguiu escapar do xadrez?

Eu não estava no Rio de Janeiro na época da prisão. Foi antes de 1973. Mas quem viveu na época sabe que o terror pairava. O Ziraldo dava o telefone de advogados para nossos parentes para caso de alguma coisa acontecer com a gente.

Por que dizem que para ser cartunista ou chargista,a pessoa tem que ser ou bem humorada ou mal humorada? Não existe meio-termo nestas profissões?

Tenho uma frase que é bem piegas: “O humorista entende tanto de tristeza que faz humor por eliminação”. O Millôr diz que “O humor compreende também o mau humor. O mau humor é que não compreende nada”.

O humorista tem que ser plural, debulhar todos os assuntos?

Tudo que é humano dá humor. Eu faço humor infantil, adulto, humor negro, o diabo. Tem coisa cabeluda que não publico mais porque dá rolo.

Você desenhou também para o Jornal dos Sports, quais suas recordações daquele período?

Ia pouco à redação e frequentava pouco os estádios. Fazia as charges baseada no que lia nos jornais ou ouvia no rádio. Não existia a facilidade hoje de ver no Google. Cismava com os nomes, por exemplo: cheguei a desenhar um cara velho e o cara era novo, um de cabelo longo e o jogador era careca. Vacilos risíveis.

Hoje, com as redes sociais, com a patrulha, está mais difícil atirar em todas as direções?

A charge é sempre um alerta para o político. Cantei muita pedra adivinhando o que acabou acontecendo. Tenho dois livros com charges de presidentes: Se Arrependimento Matasse (editora Veloc) sobre o governo de Fernando Henrique Cardoso. Teve uma charge que saiu neste livro, mas que foi publicada no jornal A Tribuna da Imprensa, que deu rolo. Era a dona Ruth fazendo o Imposto de Renda. Ela pergunta pra FHC: “Você fez alguma doação?” FHC responde: “Ora, Ruth, eu doei a Vale”. Saiu nota em jornais que FHC ficou incomodado. Também fiz um livro sobre o primeiro governo Lula: Foi Mal (editora Zit). Muita coisa que está acontecendo hoje, as minhas charges já sinalizavam que iam acontecer. Continuo fazendo a mesma coisa. Um chargista faz charge e charges sempre são contra. Charge a favor não é charge, é cartilha.

Você foi roteirista dos programas Chico City, Escolinha do Professor Raymundo, Sai de Baixo, Zorra Total, entre outros. Muitos cartunistas foram redatores de programas na televisão. Por que a tevê chama tanto vocês?

Meu sonho de criança era escrever para Chico Anysio. Escrevia nos cadernos do colegial esquetes para os personagens dele. Realizei o sonho e trabalhei com o grande Chico durante 20 anos.

Chico Anysio foi o maior humorista televisivo com quem já trabalhou? Como era a sua relação com ele?

O Chico gostava de humor político. É só assistir aos programas antigos dele, fiz muito texto político para o Jornal do Lobo. O Chico imitava o Paulo Francis com o maior brilhantismo. Seus personagens vinham do povão. O Chico Anysio tinha uma antena que poucos artistas têm. Ao me ver, gritava: “Ernani das Esmeraldas!” Foi uma honra trabalhar com ele, e ele faz falta.

E na MAD, como foi? O ambiente lá era mais anárquico que o do Pasquim?

Com Ota tudo é anárquico. O cartunista Ota era o editor. Uma vez ele deixou passar um desenho meu: era sobre expressões do futebol. Dois jogadores agarrados um ao outro e a legenda: Cruzando na área. Poderia dar um problema com a censura. Houve o grito de “Parem as máquinas!”. A máquina já tinha rodado milhares de revistas e a editora iria amargar um prejuízo. Eu fui banido da revista. Mas o mercado de trabalho era ruim, a grana curta, então usei um testa de ferro. O cartunista Guidacci desenhava as páginas que eu bolava e a gente rachava a grana. Enganamos o Ota.

Você trabalhou em muitos lugares históricos, como já conversamos. Isso é mais sorte ou competência?

Eu dizia: Minhas commodities são o humor em desenhos e textos, e enquanto precisarem deste produto no mercado, compram na minha mão.

Como surgiu a ideia da tirinha de jornal Vereda Tropical, distribuída em várias publicações?

O cartunista Nilson, de Belo Horizonte, tinha uma série muito bacana chamada Pindorama. Eu quis fazer uma tira sobre a mesma temática, que eram os índios. Como mineiro, tinha a lenda dos bandeirantes que estiveram pelos lados da minha cidade, então criei o Fernandias e os dois índios: Turuna e Veizim. Vereda Tropical vem da música. Como aconteceu com quase todos os desenhistas de tiras, comecei com o nome, deixei os personagens pra lá e a tira continuou tratando de todos os assuntos. Atualmente é publicada no jornal Estado de Minas.

Aquela sua charge, da Dilma encostada num poste, quase como garota de programa, causou fúria no Partido dos Trabalhadores, que ameaçou te processar. Isso de fato aconteceu?

Publiquei no meu blog, o Josias de Souza republicou. Logo viralizou. A charge, como eu disse, era um alerta. Ela estava esperando sair um programa do PMDB para anexar ao dela. Foi um erro abraçar o PMDB, a história provou isso.

Rui Falcão, dirigente do partido, disse à época: “charge canalha merece repúdio geral. Humor e crítica nada têm a ver com ofensa moral”. O que acha da análise dele?

Chargista trabalha com metáforas, símbolos e associações de ideias. A metáfora que usei era uma garota de programa esperando por um programa, o do PMDB. Não estava chamando a candidata disso ou daquilo. Isso se chama sátira, e a sátira existe para ironizar os poderosos, desde que o mundo é mundo. Foi antes da eleição, ânimos acirrados e eu recebi 16 mil e-mails com ameaças. Fiquei preocupado. Mas é essa coisa da Internet, que dá voz a tantos imbecis.

Você já desenhou o Fernando Henrique com peitos, Antonio Carlos Magalhães com o vestido de Tiazinha, o Lula pelado, com uma lingerie. Em alguns desses casos você teve problema?

Quase a totalidade dos políticos não reclamam. O Millôr tem uma frase que diz: “O humorista não atira para matar”.

Como analisa o momento político que estamos vivendo, com Java-Jato, crise econômica, presidente Michel Temer, Lula acuado, etc?

O Temer e sua turma trouxeram o pântano, e o pior é que o pântano não vai dar pra todos. O governo Temer é um governo que diz: “Como eu vou governar com o povo na frente? Tira essa gente daí!”

Qual a função principal de um cartunista ou chargista quando vive um momento como esse que estamos vivendo?

Tem gente demais explicando, mas se você quiser que eu desenhe, eu desenho. E vou continuar desenhando.

Acredita que um desenho pode conscientizar uma pessoa?

Fico feliz quando alguém vê um desenho meu e diz: “era isso que eu estava pensando!”

É um dos momentos mais “ricos” em matéria-prima para o seu trabalho até hoje?

Acho que é o mais nojento.

Quem eram mais medíocres, a classe política da ditadura ou essa?

O governo militar a gente sabia que ia cair, mas essa gente enquistada como craca no casco de um navio? Não sei se vou ter vida suficiente pra vê-los fora.

Existe algum tema proibido nos seus desenhos?

Hoje, quando publico, eu mesmo me censuro para que não me encham o saco. Já fui mais corajoso e já tive mais saco.

Acha que um atentado como ocorreu ao Charles Hebdo pode acontecer aqui no Brasil, com cartunistas tão críticos, como você?

Na época da ditadura jogaram uma bomba no Pasquim (não explodiu por causa de um problema no gatilho) e também queimaram bancas que vendiam os tabloides de oposição… Pode ser que estejamos vivendo em tempos curupiras, caminhando para trás. Quem vai saber?

As pessoas estão mais mal humoradas ou não estão mais entendendo o sentido da charge?

Este é o problema da ignorância, algumas pessoas não sabem ler, se leem não entendem. Não riem, então te esculhambam.

O politicamente correto está contaminando toda a cultura?

O politicamente correto é a censura que não ousa dizer o nome.

É possível ser totalmente isento?

Sou do HUMORISMO: o ismo que ri por último.

Depois de tudo o que fez e continua fazendo, o que ainda resta fazer? Tem alguma ambição?

Fazer piadinhas de vovô para a minha primeira neta que vai nascer este ano.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.