Charles Cosac vai ao paraíso

Exposição ‘Arta Sacra’ exibe obras do século XVII ao XXI na Biblioteca Mário de Andrade

Fotografia da série “Semana Santa”, de Guy Veloso

Um homem barbudo com cabelos longos, enrolado num manto vermelho, está coberto apenas em suas partes íntimas. À direita e à esquerda do corpo seminu, duas sereias aladas sorriem na direção dele. Logo abaixo, outro homem semelhante, este solitário e ensanguentado, é representado em madeira policromada.

Estas duas representações de Jesus Cristo são as primeiras figuras com as quais vai se deparar quem entrar a partir de amanhã na sala oval da Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. Ao lado esquerdo da porta, um São Benedito embalando um bebê branco e sorridente recepciona o visitante, que tem diante de si uma amostra do barroco e do rococó luso-brasileiro.

Para abrigar santos, Cristos, Josés e Marias do século XVII ao XIX, a sala teve de ser adaptada. Janelas foram cobertas com cimento e um sistema especial de refrigeração foi instalado. Uma iluminação concebida por Antonio Carlos Mingrone completa os cuidados com as antiguidades.

“Acho que desde que nasci eu sempre quis fazer uma exposição de arte sacra e nunca tive a oportunidade”, diz o ex-editor Charles Cosac, à frente da biblioteca desde o início do ano, quando João Dória assumiu a prefeitura. A viabilidade desta mostra foi possível graças a um “acordo de confiança” com o colecionador Itamar Musse, que dirige um antiquário na Bahia e a quem pertence as obras da sala oval.

O termo “acordo de confiança”, usado pelo ex-editor, é o mesmo que deu título à primeira exposição do ano na Mário — com curadoria de Jacapo Crivelli, exibia arte conceitual — e significa que colecionadores cedem as obras e arcam com parte dos custos de exposição.

Arcanjos tocheiros do século XVIII (Fotos: Maycon Lima)

Sem polêmica

Obras dos séculos XX e XXI — também cedidas por colecionadores ou diretamente por artistas — completam a exposição com exemplos de como a arte contemporânea brasileira levou adiante a tradição pictórica cristã.

Para Charles Cosac, que assina a curadoria da seção, a escolha foi “dogmática” e “respeitosa” (adjetivos seus). Atendo-se à fé cristã, a ideia de sagrado observada na mostra ignora outras confissões comuns no Brasil ou mesmo o sincretismo. “Eu pensei em uma coisa do tamanho da biblioteca e dentro das nossas possibilidades”, explica Cosac. Uma noção mais aberta, segundo ele, ampliaria o leque de artistas incontornáveis — como Mestre Didi — em uma exposição já incompleta (o ex-editor cita as ausências de Guignard e Adriana Varejão, por exemplo).

Evitar a polêmica, segundo Charles Cosac, também foi um dos objetivos da curadoria. Entre as peças históricas, preferiu não entrar “na seara de atribuições, fomentando sonhos vãos e o ávido mercado de arte”, como escreve no texto de apresentação do catálogo. “São santos lindos, maravilhosos e bastardos — totalmente bastardos, mas deslumbrantes”, diz, referindo-se às obras sem autoria da coleção de Itamar Musse.

Já entre as obras contemporâneas, o cuidado foi o de evitar polêmicas religiosas. “Nenhuma obra foi escolhida —acho que fui cauteloso neste sentido — para causar polêmica ou satirizar o sacro-cristão, sobretudo porque além de gostar de arte sacra eu também sou praticante”.

“Sudário”, de Daniel Senise e “O Êxtase de Santa Teresa”, da série “Pictures of Chocolate”, de Vik Muniz

Moedas, chocolate e santos

Apesar de confiante em seus cuidados e na sua fé, as obras contemporâneas expostas no saguão e em uma segunda sala trabalham com liberdade o imaginário cristão. Seja no Sudário abstrato de Daniel Senise ou na “monotipia à maneira de Rorschach” Memento Mori, de José Rufino, as peças tendem a fugir do convencional.

Algumas são provocativas, como Trinta dinheiros — Judas, tela de Siron Franco em que diversas moedas fazem o contorno de uma mão. Outras são bem-humoradas, como a Santa Teresa de chocolate de Vik Muniz, feita a partir de uma escultura de Gian Lorenzo Bernini.

Há ainda as que usam a literalidade a seu favor, como nas assemblages de Farnese de Andrade, em que oratórios de madeira, bonecos de plástico e vidros compõem uma “colagem de tempos”, na expressão do crítico Rodrigo Naves.

“Não te vejo com a pupila, mas com o branco dos olhos”, de Arthur Omar

Em outros casos, é a posição das obras e o diálogo entre elas que suscitam comentários que ultrapassam a seara propriamente religiosa. Um sujeito exasperado surpreendido pelas lentes de Arthur Omar em Não te vejo com a pupila, mas com o branco dos olhos traz a mesma expressão que o rosto de uma escultura de Jesus Cristo fotografada por Mario Cravo Neto, exposta na parede vizinha. O diálogo é estético, ao aproximar conteúdos de fotografias distintas, mas também político, ao salientar a dimensão humana de uma figura sagrada ao mesmo tempo em que alça aos céus um afeto mundano.

Nas fotos de Guy Veloso, por sua vez, figuras humanas sem contorno definido aparecem em manifestações populares de fé, como o Círio de Nazaré e a Semana Santa.

Balanço

Arte Sacra: XVII — XXI encerra as atividades de 2017 na área de artes visuais da biblioteca, que nos últimos meses abrigou uma exposição de arte conceitual com curadoria de Jacopo Visconti, uma individual de Siron Franco e uma mostra de objetos pessoais de Leonilson.

Charles Cosac faz um balanço positivo de seu primeiro ano à frente da Mário de Andrade — ano que não passou sem desconfiança (desde sua indicação) e críticas, como ao corte do funcionamento 24 horas da biblioteca.

“Ante às dificuldades e o período de transição, acho que foi muito frutífero”, avalia. “Foi um ano em que a gente conseguiu, a duras penas, ter uma grade cultural diária e tudo o que foi feito era o que poderia ter sido feito”.

Para 2018, já estão previstas três exposições. O ano abre com uma individual de Luiz Paulo Baravelli (com apoio da Galeria Marcelo Guarnieri), segue com uma seleção do modernismo brasileiro (com a Galeria Almeida e Dale) e encerra com obras de Farnese de Andrade (da coleção de Gottfried Stützer).


Arte Sacra: XVII — XXI

Abertura: amanhã (10), a partir das 19h. Visitação: todos os dias da semana, das 8h às 19h. Até 10/12. Grátis.

Biblioteca Mário de Andrade: Rua da Consolação, 94 — Centro — São Paulo.

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