Chichico Alkmim: o que a terra não come

Fotos: Chichico Alkmim

Diamantina é imã de boa arte. Seja entre nascidos lá ou apaixonados e agregados, a cidade que tem entre seus ilustres Chica da Silva, Aires da Mata Machado e Juscelino Kubitschek desenvolveu tradições que orbitam sobretudo entre a música e a fotografia. Numa, o legado de bandas de choro, seresteiros e da música negra (os “vinssungos”, entoados por escravos e, posteriormente, por seus descendentes na região) foram dar em João Gilberto — que passou alguns meses na cidade para aperfeiçoar a batida do seu violão bossa-novista num banheiro, diz-se que embalado pela mística diamantinense — ; no Canto dos Escravos, de Clementina de Jesus, Doca e Geraldo Filme e, mais recentemente, no disco Anganga, afro-noise de Cadu Tenório com cantos de Juçara Marçal baseados também em vissungos. Já na fotografia, o mestre do século 20 é Chichico Alkimim. Ele é que ensinou o que sabia a Assis Horta, conhecido por tornar os retratos mais democráticos ao fotografar trabalhadores registrados na CLT nos anos 1930. Contemporaneamente, um dos grandes nomes da fotografia é Eustáquio Neves, que embora seja natural da cidade mineira de Juatuba, reside em Diamantina.

Pouco conhecido dentre o “mainstream” fotográfico, Chichico Alkmim (1886–1978) vem tendo o seu acervo celebrado por seus netos desde a publicação em 2005 de O olhar eterno de Chichico Alkmim, primeiro livro com suas imagens. Há um ano, o acervo de Chichico chegou ao Instituto Moreira Salles e será agora exposto na mostra Chichico Alkmim, fotógrafo, que abre neste sábado (13) no Rio de Janeiro com mais de 200 imagens feitas por ele.

A exposição ambiciona — ao menos no que depender de seu curador, Eucanaã Ferraz — inserir Chichico no rol dos grandes fotógrafos do país. Seus retratos, boa parte feitos em estúdio, faziam parte da vida da cidade. Chichico era o grande fotógrafo de Diamantina, a quem as famílias recorriam para fazer álbuns, registrar velórios, casamentos, batizados, festas. Naquele início de século, com a atividade fotográfica ainda exótica, os retratos pareciam mais emular pinturas: os rostos ficavam sérios, impassíveis, para não correr o risco de sairem desfocados. Além disso, Chichico optava na maioria das vezes por imagens de corpo todo, mostrando as roupas dos seus fotografados.

“Chichico dá continuidade à tradição de fotógrafos do século 19, trabalhando com uma certa linguagem bastante tradicional, com fundos pintados. Mas ao mesmo tempo ele tem uma colaboração muito pessoal. Ele tem um olhar muito delicado, a maneira com que ele aborda os seus fotografados é uma coisa interessante. É muito claro nas fotos dele o quanto os fotografados se deixam ver, estão muito expostos, são muito reais. Eles têm uma presença física, psíquica, emotiva muito flagrante”, explica Eucanaã.

Na exposição, a ideia é mostrar a produção de Chichico cronologicamente, já que a composição da obra do fotógrafo foi se tornando mais complexa com o tempo, com retratos em ambientes externos, em bares e ladeiras da cidade, e em cenários mais amplos. Isso sem deixar de destacar a relação fotografados-câmera, com olhares vivazes.

Não é coincidência que a exposição seja inaugurada no dia em que se comemora 129 anos da assinatura da Lei Áurea. Diamantina era uma das cidades mineiras com o maior número de negros e isso fica evidente dentre os retratados por Chichico. Famílias, crianças e casais negros contratavam o fotógrafo para suas poses e se vê uma postura diferente dos negros retratados até então: “Se fotografou muito no século 19. Foram muito fotografados os escravos. Mas eram uma curiosidade. Eles eram curiosidades. ‘Vejam como eles são, vejam como eles se vestem, vejam como eles são diferentes de nós’. Aquilo gerava uma apreciação pelo lado exótico. Nas fotos de Chichico não. Eles são pessoas como qualquer outra pessoa. Eles não são exemplares raciais, eles são aquelas pessoas que estão lá. Simplesmente. Eles são o que são”, afirma o curador.

Em vez de serem tratados como um grupo homogêneo, os ex-escravos ou descendentes de escravos passam nas fotos de Chichico a se individualizarem, buscarem diferenciação social—na cidade do garimpo, muitos conseguiram certa riqueza com a descoberta de diamantes ou trabalho no exército. “Não há um traço de submissão, de desânimo, de acanhamento. Ao contrário. Eles se põem diante da câmera com muita coragem, muito vigor”, diz Eucanaã.

No sábado (13), dia da inauguração da mostra, será lançado um catálogo das fotos de Chichico organizado por Eucanaã, com textos dele, de Pedro Karp Vasquez, Dayse Lúcide Silva Santos e Marcos Lobato Martins, a venda a R$ 114,50. O filme Terra Deu, Terra Come, de Rodrigo Siqueira, também será exibido. O documentário se passa no quilombo Quartel do Indaiá, em Diamantina, região onde Chichico Alkmim passou sua infância e juventude. O personagem principal é Pedro de Alexina, um dos poucos moradores da região que ainda sabe os vissungos entoados quando alguém da comunidade morria. O longa, que venceu a competição do festival É Tudo Verdade em 2010, faz todo o sentido para abrir a exposição: há uma relação fundamental entre a preservação da memória de Diamantina e seus arredores — “um microcosmos do Brasil, com uma modernização acanhada, um capitalismo primário, e no entanto sem avanços em termos de cidadania”, lembra Eucanaã — e as fotos de Chichico. “Terra deu, terra come” é uma frase de Pedro que se refere ao garimpo: ele e muitos trabalhadores da região tiveram a sorte de achar algumas “canjicas” de diamantes. Centenas de quilates. Pouquíssimo se pôde aproveitar antes que a terra “comesse” seus louros. Que não seja assim com os registros impecáveis de Chichico. Em outro dos ditados do mineirês: “O que é do homem o bicho não come”.

Serviço
Chichico Alkmim, fotógrafo
Visitação: de 13 de maio, às 18h, a 1º de outubro de 2017
De terça a domingo, das 11h às 20h​
Entrada franca — Classificação livre

Terra Deu, Terra Come: exibição às 16h do sábado (13) — Grátis