Cicatrizes e dor alheia

Reportagem definitiva de Daniela Arbex comove ao revelar detalhes inéditos da tragédia na boate Kiss

Foto: Marizilda Cruppe

“Para quem perdeu um pedaço de si na Kiss, todo dia é 27. É como se o tempo tivesse congelado em janeiro de 2013, em um último aceno, na lembrança das últimas palavras trocadas com os entes queridos que se foram, de frases que soarão sempre como uma despedida velada. Retomar uma história brutalmente interrompida sem os personagens principais exige uma reinvenção de si mesmo. Muitos pais que reconheceram os filhos mortos no chão frio do Centro Desportivo Municipal perderam a capacidade de trabalho, passaram a fazer uso contínuo de remédios ou de álcool e a sofrer de doenças mentais. Cinco faleceram, posteriormente, com problemas de saúde. Casais se separaram depois que um dos dois desencontrou-se de si mesmo. Algumas mães ausentaram-se voluntariamente da vida. E, mesmo tendo outros filhos, não foram capazes de se dedicar a eles de imediato. É como se a presença de um remetesse à ausência do outro, é como se elas não enxergassem mais nenhum”.

O trecho acima faz parte do livro Todo Dia a Mesma Noite, de Daniela Arbex, que acaba de ser lançado e reconstrói a tragédia da boate Kiss na cidade de Santa Maria, cinco anos atrás. Em formato de reportagem definitiva, a premiada autora passou centenas de horas colhendo depoimentos de sobreviventes, testemunhas, familiares dos falecidos, membros do resgate e da área de saúde. Com uma capacidade fora do comum de prender a atenção do leitor, a jornalista não poupa nenhum detalhe. Não há sutileza. Ao contrário: se por um lado, não dá vontade de parar a leitura até acabar, por outro, é impossível ler de uma vez só. Não é algo fácil de digerir. Requer fôlego, nervos de aço, uma pausa pro café, pra não ser devorado pela angústia que os fatos e personagens provocam.

A capitã da brigada que ficou chocada ao ouvir durante a madrugada — e sem permissão para atender — os celulares das vítimas empilhadas no chão. Todos os aparelhos tocando de uma vez, vários toques diferentes, tendo em comum apenas os nomes que apareciam nas chamadas: “mãe”, “vó”, “casa”, “pai”, “mana”. Uma sinfonia da tragédia, quase tão insuportável quanto a cena que ela presenciava.

O médico que, no caos do hospital (“em estado de guerra”), precisou ser forte ao saber que o filho estava entre as vítimas, e deixou o lado profissional falar mais alto do que o lado paterno para socorrer tanto o filho quanto as outras centenas de pessoas à sua frente.

Os pais que não conseguiam encontrar seus filhos — e o pior, toda a burocracia enfrentada ao identificá-los, desde a localização dos corpos, até o funeral numa região sem estrutura para tantos enterros.

A dor que essas pessoas passaram é tão bem descrita por Daniela que o leitor tem a sensação de voltar no tempo até aquele fatídico dia que fez 242 vítimas. Ao tomar conhecimento de detalhes nunca revelados antes, não dá pra segurar o sentimento de luto compartilhado que volta com tudo.

“Se a recordação de uma tragédia é dolorosa, imagine carregá-la dentro de si. As mães de Santa Maria sabem perfeitamente o que é isso. Aliás, só elas conseguem dimensionar a devastação causada pelo esquecimento do som da risada de um filho”. A vontade que bate ao percorrer as páginas do livro é de ir até lá abraçar forte aquelas mães, acalentar suas famílias — e pensar nas nossas. Faz refletir sobre todas as vezes que, antes de sair, a gente quer dizer algo a quem está sempre conosco, mas não diz. Nunca se sabe quando vamos voltar vivos pra casa. E, por não pensar nessa possibilidade, muitas vezes deixamos de dizer um último “eu te amo”. Por causa do nosso orgulho, a morte deixa as pessoas sem saberem o quanto são importantes.

Além de investigar minuciosamente o caos na madrugada da tragédia, Daniela revela o que aconteceu e como vivem hoje em dia os sobreviventes — não apenas os que escaparam com vida do incêndio, mas também os familiares, cuja ferida não vai cicatrizar nunca. “Para as vítimas indiretas do incêndio na Kiss, resistir não é uma escolha, mas um imperativo de sobrevivência. Resistir ao cansaço da espera por alguém que não voltará, ao silêncio imposto pela ausência, à dor que teima em ficar, por mais que se queira livrar-se dela. Resistir não só à perda, mas ao esquecimento, que busca sepultar os erros que contribuíram para que o dia 27 de janeiro de 2013 não terminasse para mais de duzentas pessoas”.

Como disse o jornalista Marcelo Canellas no prefácio, o livro de Daniela Arbex é um grande inventário de afetos. É uma recusa ao esquecimento. Um imenso esforço coletivo para fazer da memória um instrumento de conforto e de respeito à dor alheia.

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Todo Dia a Mesma Noite, de Daniela Arbex. Intrínseca, 248 págs. R$ 39,90.

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