Crítica:“Casa de Bonecas — Parte 2”

Espetáculo dirigido por Regina Galdino, estrelado por Marília Gabriela, fica até dezembro no Tucarena, em São Paulo

Marília Gabriela. Foto: João Caldas Filho

João Luiz Vieira*

Há 27 séculos, a dramaturgia que nos é oferecida se enquadra, sob meu ponto de vista quase irresponsável, em quatro categorias de eficácia: perene, datada, urgente e restrita. As restritas servem como anedota de um período e são as preferidas em temporada de fastio para assuntos das profundezas. O escapismo como antídoto para a dor. As perenes, mesmo escritas em períodos ou culturas distintas, mantém a envergadura por, muitas das vezes, tratarem de relacionamentos humanos (nem sempre entre eles), tema indissolúvel, sempre em processo de reflexão e inflexão.

As datadas têm vida útil reduzida, muito porque trazem um recorte temporal específico, seja ele político ou sexual, de costumes ou quebra de paradigmas restritos a uma fração de anos. As urgentes nem sempre são contemporâneas, como o adjetivo sugere, porque há autores que conseguiram/conseguem estabelecer um diálogo duradouro, e isso independentemente do ano em que a peça foi/é escrita.

Um desses dramaturgos de escrita perene, que conseguiu agregar o urgente à sua obra, é o norueguês Henrik Ibsen (1828–1906), tratado como “pai do drama realista moderno”. Autor de Hedda Gabler (1890) e Peer Gynt (1867), tem em Casa de Bonecas sua peça mais icônica, escrita entre 1878 e 1879, que teve sua primeira edição, de 8.000 exemplares, esgotada em menos de um mês.

Escrita em três atos, Casa de Bonecas gerou muita polêmica na Europa porque a peça mexeu com as estruturas da sociedade da segunda metade do século XIX. Ibsen criou uma protagonista, Nora, que se rebela com o status quo no qual é mantida e suprimida. Ela quebra o padrão no qual foi obrigada a se inserir ao abandonar marido e filhos. Queria construir sua história como um ser uno.

O continente não acreditou em tamanha provocação. Houve censuras violentas lançadas à personagem principal: como uma esposa larga sua família? Lembre-se: Europa, século XIX. A polêmica foi tanta que Ibsen reescreveu seu final, como um plano B, caso houvesse impedimento de encenações pelas nações europeias. Desta feita, Nora aceita permanecer casada. E infeliz.

Marília Gabriela e Eliana Guttmann. Foto: João Caldas Filho

Houve grande repercussão entre as feministas de então. Para relembrar, a luta pelo voto feminino era o primeiro passo a ser alcançado no horizonte pós-Revolução Industrial. As sufragistas, assim conhecidas justamente por terem iniciado um movimento no Reino Unido a favor da concessão do direito de voto às mulheres, amaram Nora. Foi um país da Oceania, porém, que saiu à frente na conquista hoje lógica, ao menos aqui: Nova Zelândia. Mesmo assim 14 anos depois de Casa de Bonecas. No Brasil, somente há 90 anos.

A dramaturgia de Ibsen, feliz ou infelizmente, é perene porque há quase 150 anos as mulheres ainda buscam representatividade social e suas rachaduras nos projetos de família convencional continuam a paralisar diante de preconceito, punição e até em morte. Não por acaso, em ano eleitoral, o Brasil tem candidatos a presidente ou vice da República que acreditam só haver um modelo de estrutura familiar, propõem rever consolidações de direitos do século XX, muitas vezes justificando as propostas em nome de Deus ou de conceitos abandonados na Idade Média.

Chegamos então, à Casa de Bonecas — Parte 2, peça escrita em 2017 pelo dramaturgo norte-americano Lucas Hnath, autor também de Hillary and Clinton (2016). A intenção aqui é renovar a luz sobre Nora de Ibsen, sob a temperatura do século XXI. Nessa nova proposta de troca com o leitor/plateia, Hnath retoma a personagem, 15 anos depois de ela sair de casa e de jamais ter tido contato com a família. “Vilã” para familiares, Nora se tornou escritora famosa e, por um detalhe burocrático, descobriu que Torvald, seu ex-marido, ainda não havia assinado o divórcio.

Luciano Chirolli e Marília Gabriela. Foto: João Caldas Filho

Nora decide, então, voltar para a casa que deixou no passado para obter esse documento e, enquanto ele não chega, levantar a poeira escondida sob o tapete, e deixar nítidos os ressentimentos, expostos com virulência. A ideia é genial porque mostra que Nora nunca nos deixou no século e meio em que foi criada por Ibsen. Há muitas delas aqui por perto, talvez dentro de sua casa. Uma mulher, afinal, que só precisa do direito de ser livre, mas, para isso, pode ser vista como, no mínimo, ingrata. Tema, portanto, urgente, porque #elenão.

Nora é vivida com precisão cirúrgica nos gestos e nas inflexões de voz por Marília Gabriela, em sua 7ª atuação no teatro. Em cena por todos os 100 minutos de espetáculo, Marília e Nora em certos momentos se confundem. A jornalista e atriz é uma figura pública que sempre se reinventou, publicamente, sem pedir muita licença, há pelo menos quatro décadas. Nora fez o mesmo, só que nas páginas de um livro. O desempenho é cuidadoso porque evita que a personalidade da atriz se sobreponha a da personagem.

Clarissa Kiste e Marília Gabriela. Foto: João Caldas Filho

Mérito também da diretora, que obteve interpretações superlativas de Luciano Chirolli (Torvald, papel difícil porque frágil como homem e como ser persuasivo), Clarissa Kiste (a caçula de Nora, que sonha justamente em manter as regras abandonadas pela mãe) e Eliana Guttmann, em desempenho irretocável, oscilando entre o afeto, condescêndia e a ira, ao fazer de ouvidos moucos sua própria história. As oscilações de Eliana, inclusive nos silêncios, servem de aula para jovens atores.

A direção de arte, assinada pelo caçula de Marília Gabriela, Teodoro Cochrane, encaixam-se à perfeição ao clima gélido e tenso que a narrativa promove: poucos e escuros móveis, nada de flores ou vida, apenas água, roupas que aprisionam as personagens. Como se a casa daqueles indivíduos tivesse morrido sem o calor de Nora. O clima é de claustrofobia, tendo galhos de árvores (buscando o céu, a liberdade) fingindo-se de raízes (presas ao chão, mantendo tudo como está) no palco em que os atores pisam. Tudo muito apropriado a um país que engole um grito louco para ganhar vida, mas ainda se mantém parado no ar.

Serviço:

Casa de Bonecas — Parte 2

Texto: Lucas Hnath

Tradução: Marcos Daud

Direção: Regina Galdino

Elenco: Marília Gabriela, Luciano Chirolli, Eliana Guttmann e Clarissa Kiste

Direção de Arte: Teodoro Cochrane

Trilha sonora: George Freire e Daniel Grajew

Iluminação: Domingos Quintiliano

Assistente de Direção e Pesquisa: Gerson Steves

Assistente de Cenografia: Isis Gomes e Mariana Pitta

Assistente de Figurinos: Thereza Macedo

Assistentes de produção de figurino: Calu Barbosa e Vini Martini

Marcenaria: Fernando Brettas

Confecção de Figurino: Judite de Lima

Corsets: Madame SherCorsets

Alfaiataria: Domingos De Lello

Confecção de Perucas: Feliciano San Roman

Visagismo: Ulisses Cruz

Coaching: Ligia Pereira

Camareiro: Jô Nascimento

Operador de Luz: Newton Saiki

Operador de Som: Kleber Marques

Direção de Palco: Ângelo Macedo

Mídias Sociais: 7Company Studio

Programação Visual: Denise Bacelar

Assistente de Produção: Yndiara Cury

Produção Executiva: Paulo Ferrer

Direção de Produção e Administração: Fernanda Signorini

Produtoras associadas: Marília Gabriela e Fernanda Signorini

Local: TUCARENA — Teatro da PUC-SP (Rua Monte Alegre, 1024 — Perdizes — São Paulo — SP/Entrada pela rua Bartira — Perdizes, SP)

Temporada: Sextas, 21h, Sábados, 20h, Domingos, 18h — até 2 de dezembro de 2018

Duração:100 minutos

Classificação: 14 anos

Ingressos: R$ 80,00 (sextas, sábados e domingos), R$ 40,00(estudantes e maiores de 60 anos), R$ 20,00 (estudantes, professores e funcionários da PUC sob comprovação — número de ingressos limitado a 10% da lotação do teatro). Acesso para pessoas com deficiência.

Reservas: 11 3258 6345 / 3255 0994

*João Luiz Vieira é jornalista, dramaturgo, roteirista e educador sexual, tendo sido de crítico teatral do Jornal do Commercio, do Recife, entre 1992 e 1998. Ele tem dois livros lançados como coordenador de texto: “Sexo com Todas as Letras” (e-galáxia, fora de catálogo) e “Kama Sutra Brasileiro” (Editora Planeta, 176 páginas), é sócio proprietário do sitepaupraqualquerobra.com.br e do canal sexo_sem_medo, no YouTube.