Crítica: em discos de estreia de Luana Carvalho, menos (samba) é mais (poesia)

Foto: Tati Domais/Facebook

A responsabilidade era grande: filha de Beth Carvalho em banda com grandes instrumentistas — Domenico Lancellotti, Pedro Sá — regrava nomes como Dona Ivone Lara, Pedro Luís e Quinteto Violado na sua estreia. Por outro lado, Luana Carvalho nasceu e foi criada bem próxima aos círculos do samba, entre a zona sul e o subúrbio do Rio de Janeiro, e, claro, conviveu com boa parte dos bambas dentro de casa — o que a deixa muito mais próxima desse mundo do que a maioria de nós, mortais.

Mas não começou daí: Luana é atriz, poeta e também criou a Casa Cais (de intercâmbio de poesia entre Brasil e Portugal). Recentemente, o seu poema Todos os dias me sujo de coisas eternas foi selecionado por Adriana Calcanhotto para a coletânea É agora como nunca — antologia incompleta da poesia contemporânea brasileira, que reúne 41 poetas nascidos entre 1970 e 1990. Branco e Sul, seus discos gêmeos de estreia lançados no início deste ano, são também continuação do trabalho com as palavras: o primeiro tem, além de regravações, algumas músicas mais antigas de sua autoria. Já Sul reúne composições mais recentes, feitas enquanto se resolviam as burocracias de Branco, e é todo autoral. Os dois são produzidos por Moreno Veloso.

Pedro Sá, Domenico Lancellotti, Davi Moraes, Alberto Continentino, além do próprio Moreno, estão entre os músicos que tocaram nas gravações. Vindos da escola +2 (projeto de Domenico, Moreno e Kassin) — grupo que influenciou muito na introjeção de uma sonoridade mais sintética na MPB — eles, juntos ou separados, têm participado de discos-chave da produção independente de música brasileira, como o Tropix, de Céu, Vermelho e Azul, de Nina Becker, Do Amor (da banda homônima), sem contar a participação essencial em discos recentes de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa.

Além das escolhas pouco óbvias de regravações — Paloma Negra ficou conhecida na voz da mexicana Chavela Vargas; Palavra Acesa é composta por Fernando Millizola e foi gravada pela primeira vez com o Quinteto Violado; Força da Imaginação é um samba potente de Caetano Veloso e Dona Ivone Lara, mas pouco relembrado — Luana também canta músicas inéditas feitas por André Dahmer e Domenico (Ar Para Jantar), Pedro Luís (Luz do Âmbar e Indivídua). O disco tem, no geral, um ar mais pop do que Sul, especialmente pelas suas Garupa (com guitarra em wah-wah e percussão) e Oxum Minha Mãe (um ijexá).

Sul se complementa a Branco com a poesia em primeiro plano. Corte, por exemplo, parte do duplo sentido da palavra que dá título à música: “Cortei o seu combate / o meu coração / seu corpo a corte / nosso cortejo vai com a tarde / nosso cortejo já vai tarde / que horas eu perdi o porte / que parte concedi pro abate”. Pau Brasil é uma sátira de nossos atuais protestos “Tá bonito ver a gente à frente / É do mundo que se reinvente / Vão bater mas não faz mal / É tanta casa de pau-brasil / Contestar a falta de ar / Vem trajar a fantasia / Vem pra rua arruaçar o dia, vagabundear, vem”. Abertura e término do disco, respectivamente, Avesso da Alegria e Cabrocha de Mangueira trazem um tema clássico do samba, o carnaval.

O encontro com Moreno Veloso talvez tenha custado a Luana o afastamento em relação aos sambas tradicionais, como nas suas primeiras participações em shows (em homenagens a Ataulfo Alves e à própria mãe, Beth Carvalho). Mas, em compensação, ganhou em autenticidade. Sua voz aparece com mais personalidade com a troca da tríade pandeiro-cavaquinho-tamborim para efeitos eletrônicos e guitarras e baterias sincopadas. Sem excessos, o canto de Luana une poesia e arranjos. Cool, fresco, promissor.

Capas de “Sul” e “Branco”

Show — lançamento “Sul” e “Branco” no Rio de Janeiro
Casa de Cultura Laura Alvim (Av. Vieira Souto, 176 — Ipanema)—Terça-feira, 11/4, 21h. R$ 20 a R$ 40

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