De espaços, desconstruções e abstrações

Ricardo Carioba investiga o poder escultórico dos beats com a fita K7 /// /////, que sai pelo selo COISAS QUE MATAM

O processo de criação da embalagem do K7 /// ////

Partindo das artes visuais, nos anos 1990, Ricardo Carioba foi pouco a pouco incorporando a música em suas instalações e vídeo. Agora, 20 anos depois de iniciar sua pesquisa com sons, ele lança um trabalho solo com a fita K7 /// ////, que será lançada amanhã, no Madre Superiora, o rooftop do Leviatã, no centro de São Paulo, às 20h30.

As nove faixas da fita nos levam por uma viagem espacial. Construídas como nas esculturas, partem de um processo de subtração e contorno, em vez da tentadora adição de camadas sobre camadas de som. Juntas, elas trabalham em dois sentidos. Um, extremamente atual, é a materialização de uma ideia de como os sons, de forma física, podem constituir uma arquitetura particular, criando "espaços dentro do espaço", como disse Carioba numa conversa que tivemos nos estágios finais de produção.

A segunda é a criação de uma narrativa pós-genero, em que o centro é a liberdade de se produzir sozinho, deixando que o caos e a imprevisibilidade sejam os condutores de uma viagem pessoal, de uma estética que parte da intersecção entre a cultura da música eletrônica percussiva quanto da composição clássica contemporânea, buscando confrontar seus lugares-comuns.

Como aperitivo do disco que sai amanhã, a Bravo! lança com exclusividade a faixa Prossegue.

/// //// sai pelo COISAS QUE MATAM, selo criado em 2017 por Stefanie Egedy, Muep Etmo e Simon Fernandes, os três integrantes da DAHAUS, um coletivo de artistas e produtores musicais de São Paulo. O primeiro lançamento do selo foi um o registro de uma banda criada pelos três para o FINDeARTE, na qual Muep tocava piano, Stefanie tocava Subwoofer e Simon os sintetizadores, explorando o universo dos som acústico, analógico e digital.

Com Muep muito envolvido em seus trabalhos com Mirella Brandi, Simon e Stefanie tomaram a frente do selo. "Vamos fazer dois anos em junho, temos seis lançamentos, e a ideia não era fazer só lançamentos sonoros, mas soltar trabalhos. A gente já em contato com a Flora Leite, o Ícaro Lira que vão lançar trabalhos que envolvem ou não sons, mas saindo pelo COISAS QUE MATAM", conta Stefanie.

O lado artesanal de /// ////

/// //// é pensado para ser uma fita. Enquanto estávamos conversando sobre o lançamento, Carioba ainda estava decidindo como passar a experiência da sonoridade do K7 para o digital, pensando a embalagem da fita e até o nome. "Fiz os títulos e achava que estava muito literal, daí tirei as consoantes do título que escrevi, e ficou iai euio", diz Carioba, que dias depois alterou o título para o insondável /// ////. Buscar as palavras originais é uma tarefa para quem gosta de quebra-cabeças. É também uma analogia com como Carioba entende a música. "Você cria um barulho, vai limpando, criando silêncios dentro desse som e vai organizando o ritmo e abstrações do espaço. Meu som é um reflexo dessa sonoridade que é literal, que está cheia de imagens, e aí eu vou tentando limpar e tirar as figuras."

Carioba ordenou as músicas para serem ouvidas na fita, em sequência, pensando em lado A e lado B. "E ela tem muito a ver com meus processos de produção, que une tanto composição como uma sedimentação dos processos de geração dos sons, que podem ser recentes ou re-trabalhos de sons que eu já tinha produzido há algum tempo", explica.

A base para a composição da fita foram os live sets que Carioba apresentou durante o último ano na festa Desfigurad, que acontece no Morfeus Club, em São Paulo, e que tem como parceiros Juliana Fontin, Thiagamajicks (Vinícius Duarte) e Sávio de Queiroz, que toca com o Teto Preto. "Fui recuperando e produzindo diversas apresentações com moods, formas de produzir e de tocar diferentes. Às vezes com bastante synth, muitas gravações de processos da mesa com pedais, MPC, bateria e coisas que eu produzi no Logic. Quando eu fui tocar, transpus essas camadas para a MPC e fazendo novas finalizações desses samples. Às vezes longos, com drones, que podem ter sido feito há muito tempo, às vezes novos, feitos no sintetizador, jogados na MPC e sequenciados", diz.

Tudo num jogo entre a criação de estruturas e a quebra delas. "Faço live sets que são muito estruturados, principalmente quando eu uso o Logic, que é uma coisa muito objetiva, com os tempos marcados, as camadas e tal, mas às vezes eu acho que quando eu vou para a MPC é mais solto. E tem o cristalizar do som, porque tem uma coisa dessa fita que são o trabalho das gravações e sobreposições", completa.

/// ///// também traduz uma volta do espaço de criação solitária, como que abrindo um novo ciclo no pensamento artístico de Carioba, que incia sua pesquisa com sons ainda nos anos 90, quando se dedicava com exclusividade às artes visuais. "Meu interessa pela música começou pensando nas instalações de vídeo, a partir da fotografia, que foi ficando cada vez mais abstrata, trabalhando só frequências e ondas de cor. Em determinado momento, passei a investigar os efeitos óticos da fotografia, a ir para o espaço e veio esse interesse pelo som, para dar continuidade à construção dessas ondas no espaço", conta sobre o inicio de sua pesquisa, que passa por um mergulho no IDM (Inteligent Dance Music). "Fiquei muito interessado pela materialidade do som, pela característica escultórica das peças, sonoras e rítmicas, com desejo de criar um som que é próprio dele, que não soa como um instrumento, como uma coisa pronta."

O primeiro projeto estritamente sonoro veio com o MÜVI, parceria com o artista sonoro Muep Etmo, que incia na virada dos anos 1990 para os 2000. Äs parcerias foram muito importantes porque me colocaram na música. "O interessante com o Muep é que, como era uma parceria, e os dois sempre com dificuldade de tocar juntos a situação era muito caótica, e a gente se debruçava sobre isso. Usava justamente como processos para desconstruir a música clássica contemporânea, para desconstruir o beat, a eletrônica. As nossas estranhezas, as nossas dificuldades e nossas tosquices a gente colocava ali e trabalhava em cima", diz.

Com o fim do MÜVI, em 2011 Carioba formou com os também artistas Dora Longo Bahia, Bruno Palazzo e Mauricio Ianês a banda Cão, um projeto entre o rock mais aberto e a performance, que nesta semana encerrou suas atividades. "Com o Cão foi um processo muito diferente, porque tem um formato de banda, se assemelha a uma coisa mais definida da composição ou em sincronia com outro. Aprendi a tocar junto, a ouvir, olhar no olho, saber, sentir, ajudar. Isso foi incrível.", diz. "A gente é muito estruturado em todas as partes, sabe onde quer chegar. É um exercício de buscar a perfeição daquela ideia. Por mais que a ideia possa não ser tão boa, seguimos na busca daquela ideia."

E agora, no projeto solo, Carioba diz que volta a "ter essa liberdade de composição e erro e caos". "Eu tenho essa experiência de estruturar a música. Uma coisa muito significativa na música é a estrutura, para onde ela vai, a narrativa. Não que toda música seja isso, mas é uma coisa que volta. Então a fita tem isso também, essa vontade de estabelecer uma narrativa."

Serviço:

Lançamento do K7 /// ////

Dia 1º de junho (sábado)

às 20h30

no Madre Superiora