Devendra na Bravo!

Em 2006 fui convidado pela revista para fazer o perfil de Devendra Banhart, publicado na edição de setembro daquele ano. Encontrei o texto no baú

Por Guilherme Werneck

No dia 7/9, Devendra Banhart começa por Recife a sua nova turnê pelo Brasil, trazido pelo Popload. A turnê passa ainda por Salvador (8/9), São Paulo (12/9) e Curitiba (13/9).

A gente queria entrevistá-lo, mas não está fácil. Mexendo nas minhas coisas, encontrei o texto que fiz para a Bravo! em setembro de 2006, um pouco antes do seu primeiro show no Brasil. Mal sabia eu naquela época que ele iria voltar muitas vezes, ficar muito amigo de Rodrigo Amarante, tocar com o ídolo Caetano Veloso. E mal sabia eu também que, 10 anos depois dessa única colaboração para a Bravo! dos tempos da Abril, eu iria acabar editando a revista.

Então vamos voltar a 2006, olha o texto original:

Um americano que nasceu no Texas em 1981, foi batizado com um nome indiano por influência de um guru amigo de seus pais, passou a infância e o começo da adolescência na Venezuela para depois regressar aos Estados Unidos via Califórnia, é a face mais visível de um movimento que tira do estado de dormência o gene hippie que começou a hibernar no fim dos anos 60, nos Estados Unidos.

Se a flor no cabelo que simbolizava o ideal de paz, amor, liberdade começou a ser pisoteada em Altamont, em 1968, no famoso episódio em que os Hells Angels tranformaram um show dos Rolling Stones numa das tragédias mais documentadas do rock, ela foi cuspida de vez quando o movimento punk cravou sua estaca niilista na cultura pop.

Foi só no começo dos anos 2000, depois que o hipismo voltou a ser socialmente aceitável na década de 90 pelas mãos da cultura da raves, com sua apologia do amor químico, instantâneo e plural, que o gene hippie foi ativado numa nova leva de músicos.

Distantes das batidas hipnóticas da “geração E”, esses novos músicos protagonizaram uma volta à canção, a letras bem estruturadas e ao cultivo de uma psicodelia que colocava lado a lado a tradição do folk (a música folclórica norte-americana), das canções de ninar, do paganismo, do amor idealizado e da ironia tão prezada nos círculos literários.

Uma enormidade de bandas começou a surgir em diferentes pontos dos Estados Unidos, constituindo uma cena de múltiplos interesses, que passou a ser denominada de “new-folk”, “freak-folk”, “free-folk”e até “avant-folk”. Entre essas bandas, há desde devotos fiéis do folk-rock à la Bob Dylan, até coletivos que partem da tradição do folk para buscar novas sonoridades dentro da canção ou mesmo para extrapolar seus limites em longas improvisações, lançadas prolificamente em uma série de CD-Rs, vendidos em shows ou pela internet.

Os pontos geográficos mais visíveis desse ressurgimento do folk com uma veia psicodélica foram, num primeiro momento, San Francisco, na Califórnia, e, logo depois, o Brooklin, em Nova York. E Devendra Banhart, o garoto que passou sua infância na Venezuela, é uma figura crucial no cultivo das sementes de folk dos dois lados do Atlântico.

Como toda boa história musical, a de Devendra Banhart começou no bairro de Castro, em San Francisco, num quarto com dois amigos gays, um violão, uma secretária eletrônica e um gravador de quarto canais baleado. Devendra gravou o seu primeiro disco, Oh Me Oh My…The Way The Day Goses By The Sun Is Setting Dogs Are Dreaming Lovesongs of the Christmas Spirit usando o gravador e a secretária eletrônica. Ainda não tinha 21 anos.

Um CD-R com essas gravações caiu nas mãos do dono do selo Young God Records, Michael Gira, da mítica banda Swans. Em 2002, Gira decidiu lançar o disco como ele estava porque, segundo ele, nunca tinha ouvido nada como aquilo na época. “A voz de Devendra soava como se tivesse sido gravada 70 anos antes. Essas canções poderiam estar perdidas no sótão de alguém, deixadas lá desde os anos 30.”

Antes de passar pelas mãos de Gira, Devendra já tinha tido a bênção de um dos ícones de sua adolescência. A cantora de folk-rock ingles Vashti Bunyan incentivou o garoto que morava em squats e se apresentava entre San Francisco e Los Angeles a gravar suas músicas.

Show no Texas em 2004

Depois de assinar com o Young God, Devendra mudou-se para Nova York. Em 2004, Gira, respeitando a aversão de Devendra por estúdios de gravação, levou-o para a fronteira do Alabama com a Georgia para gravar seu disco seguinte na casa de Lynn Bridges. Devendra levou 57 canções. Em dez dias, foram gravadas 32 faixas. Com as gravações prontas, o cantor voltou para Nova York e adicionou overdubs com participações de mais músicos. “Basicamente eu cantarolava a melodia e tocavam como eu imaginei. Depois eu pedia que eles pirassem. Na maioria das vezes, usei as partes que tinha imaginado, mas em algumas músicas acabei deixando a piração”, declarou em 2004 à revista inglesa The Wire. Entre esses músicos estava Vashti Bunnyan, que não gravava desde os anos 60, fez um belo dueto na música Rejoicing in Hands.

As gravações no Alabama renderam dois discos siameses, Rejoincing in Hands e Niño Rojo, ambos lançados em 2004. No melhor estilo hippie, Devendra diz que os dois discos são odes ao sol, de uma perspective pagã. Um representa a mãe sol e o segundo, o filho. O sol da manhã e o sol da tarde, dois pontos de um mesmo ciclo.

Em Niño Rojo também aparecem mais as músicas gravadas em espanhol, efeito colateral de sua infância na Venezuela e que ganharia ainda mais força em seu disco mais recente, Cripple Crow, do ano passado.

Devendra foi para Caracas aos 3 anos e só voltou aos Estados Unidos aos 13. Embora parte de sua família ainda more na Venezuela, em diversas entrevistas ele declarou que não voltaria jamais ao país. “É um país perigoso. Quando você tem tanta pobreza e tanta corrupção, não há lugar para a cultura. Por isso não há música boa original por lá, não há um filme decente, uma pintura indígena”, disse ao site Face Culture, em 2004.

Não só o conservadorismo da sociedade venezuelana afasta Devendra do país em que morou. A política também lhe causa repulsa. Para ele Hugo Chávez é “o pior, um explorador do povo”, mas a direita venezuelana também é atacada: “Carlos Andrés Perez [antecessor de Chávez] casou com a irmã para não misturar seu sangue. Esse tipo de mentalidade é inaceitável”.

Em paralelo ao lançamento de Rejoicing in Hands e Niño Rojo, Devendra ainda gravou com um velho parceiro de San Francisco, Andy Cabic, na banda Vetiver. E ainda tinha projetos que nunca viram a luz do dia, um deles inspirado em Domingo, o disco de Caetano Veloso com Gal Costa.

Andy Cabic, Joanna Newsom e Devendra Banhart: “Amour Fou”

Há alguns anos, Devendra aponta Caetano como o seu cantor favorito. E, mesmo admitindo que sua música tem por inspiração Bob Dylan e o folk-rock inglês da virada dos anos 60 para os 70, de bandas como Fairport Convention e Incredible String Band, o tropicalismo é a sua maior inspiração. Recentemente ele tocou em Londres com Os Mutantes e regravou London, London, de Caetano, numa parceria com a brasileira Cibelle, radicada na cidade. “O tropicalismo, com sua visão antropofágica perante o mundo, é eterno”, disse em entrevista recente à revista on-line Pitchfork.

Devendra com Beck e Caetano

A inspiração de Caetano também está por trás de Cripple Crow, o disco mais ambicioso gravado por ele até agora, produzido pelo próprio Devendra com Noah Georgeson, Thom Monaghan e Andy Cabic. A música de Cripple Crow é mais aberta a outras influências, como o reggae e o tropicalismo. E, dessa vez, Devendra troca seu violão intimista por uma banda gigantesca, batizada de The Hairy Fairies.

O som mais encorpado e os Hairy Fairies estarão no seu próximo disco, que começa a ser gravado em setembro. A maior parte do CD será registrada na Califórnia, mas terminadas as gravações nos EUA, ele vem ao Rio para gravar algumas faixas com o produtor Arto Lindsey, seu elo mais próximo com a música brasileira, e, logo depois, toca no Tim Festival, em São Paulo.

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