Diretor do premiado "Las Acacias" estreia novo longa

Mais do que um filme com uma protagonista mulher, "Invisible" é narrado a partir do ponto de vista de Ely — uma menina do bairro argentino de La Boca que vive uma vida em silêncio

Cena de "Invisible"

Uma menina de classe média-baixa no bairro de La Boca, em Buenos Aires, vive uma vida pouco animada: vai à escola, mas não se interessa; trabalha num pet shop e tem um caso sem emoção com o filho do dono do estabelecimento; quando chega em casa, encontra sua mãe prostrada numa depressão. Até que um dia descobre que está grávida.

Esse é o enredo de Invisible, segundo filme do argentino Pablo Giorgelli que estreia nesta quinta-feira nos cinemas. O que importa — e isso como o próprio diretor contou à Bravo! — não é só o factual, mas também a forma como se conta. Giorgelli diz que preferiu fazer um filme seco, direto, sem efeitos ou truques. Não há sequer música.

Para escrever o roteiro, Giorgelli contou com a ajuda de Maria Laura Gargarella. "O desafio foi contar essa história a partir do ponto de vista de uma menina, adolescente, e me colocar no lugar dela, com todos os problemas que isso envolve", explica. Por isso, diferentemente do seu primeiro e aclamado filme, Las Acacias — vencedor do Caméra D'Or em Cannes —, a câmera é fria, sem compaixão, quase como se tentasse esconder que há um diretor. Enquanto no primeiro longa há vários truques de fotografia e edição para que o caminhoneiro Ruben possa se relacionar com a bebê a quem dá carona, em Invisible a vida de Ely é narrada com silêncio, a partir de sua solidão.

Vivida com autenticidade pela atriz Mora Arenillas, Ely gera uma empatia não por ser uma personagem espirituosa ou viva, mas por representar talvez uma boa parte de jovens adolescentes: ela passa despercebida. Ao contrário dos (poucos) bonitões do ensino médio, ela não é popular, não tem muitos amigos e prefere não chamar atenção. É bonita, mas isso se esconde num rosto que sempre olha pra baixo.

O diretor Pablo Giorgelli. Foto: Celeste Mandrut

O processo de produção de Invisible durou mais de 4 anos e foi, diz o diretor, mais intuitivo do que racional. Alguns elementos da vida de Ely são o da de Giorgelli: a classe baixa, a residência no bairro de La Boca, a falta de perspectivas para o futuro entre os seus amigos. Mas não é um filme autobiográfico.

A ideia era também mostrar como o contexto político e socioeconômico incidia na vida cotidiana das pessoas. A própria situação da mãe de Ely reflete isso: "Nos nossos países [Brasil e Argentina], onde o capitalismo se põe cada vez mais duro e a desigualdade e a falta de oportunidades crescem, há uma série de pessoas que se apartam, que se deprimem, que não podem sair de casa — e se cria uma espécie de ilha como a que Ely e sua mãe vivem."

De fato, as características dessas condições estão presentes na televisão sempre ligada, na comida fast food que se come. Invisible trata com delicadeza, mas firme, de uma vida que apenas se vive. Ely mal sorri; mal fala; não tem assunto com os homens com quem se relaciona; mal conversa com a mãe e não tem o menor interesse nos estudos. A chance que lhe aparece vem do grande dilema entre ter ou não um filho aos 17 anos, sem estrutura familiar e sem apoio do pai da criança.

No habitual idioma freudiano dos argentinos, Giorgelli diz: “Ely tem uma reação vital contra a pulsão de morte e de abandono de sua mãe”. Não é mesmo um enredo com grandes acontecimentos — mas um simples e honesto esboço de uma geração. E Giorgelli a retrata com alguma esperança, diga-se.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.