Dom Salvador, de volta

Pianista por trás do samba-jazz e do início da black soul no Brasil fala da concepção da Abolição, banda mítica dos anos 70

Fotos: Pérola Mathias

No Brasil para shows que celebram os seus 80 anos, o pianista Dom Salvador, radicado em Nova York, é uma das principais atrações do Sesc Jazz deste ano — risonho, animado e modesto quanto a suas grandes contribuições para a música brasileira. Primeiro, em 1965, participou do seminal Rio 65 trio, com Edison Machado na bateria e Sérgio Barrozo no baixo. O grupo foi responsável por cunhar a ideia do samba-jazz, uma vertente jazzística abrasileirada que tem músicas lendárias como Meu Fraco É Café Forte, além de versões com quebras e improvisos de Aruanda, Desafinado e Manhã de Carnaval, por exemplo.

Depois, Salvador ainda gravaria um disco solo (Dom Salvador, de 1969) e lideraria a Abolição, que lançou um único disco em 1971, Som, Sangue e Raça. Com este grupo, foi um dos primeiros a trazer para o país uma tendência muito forte nos Estados Unidos, vinda do soul e do funk, de unir música e luta antirracista. O álbum, hoje lendário, é um dos indispensáveis da música negra brasileira e precursor do movimento Black Rio, que só tomaria forma em meados dos anos 70 (Oberdan Magalhães era um dos músicos da banda, além do baterista Luiz Carlos e do trompetista José Carlos Barroso, conhecido como Barrosinho).

Mas em 73 Dom Salvador foi morar em Nova York — e desde 77 se estabeleceu como pianista principal do River Café, restaurante chique à sombra da Brooklyn Bridge. Só voltou a se apresentar no Brasil em 2003 e tem aparecido, desde então, com mais frequência no país. Nesta sexta-feira (24), além de apresentar-se no Sesc Piracicaba (e no sábado e domingo, no Sesc Pompeia), chega às plataformas digitais um disco gravado no Carnegie Hall em 2015, quando Dom Salvador reencontrou o antigo colega de Rio 65 Sérgio Barrozo e o baterista Duduka da Fonseca para uma celebração de 50 anos do disco. Conversamos com o músico um dia após a sua chegada ao Brasil.

Como vão ser os shows do Sesc Jazz?
É com o sexteto, que é o grupo que eu apresento lá [nos Estados Unidos]. Mas eu não trouxe todos os músicos com quem toco, o Jorginho Neto [trombone] e Daniel D’Alcantara [trompete] são os dois que moram aqui. E o saxofonista tenorista, o Rodrigo Ursaia, está morando aqui agora. Mas ele morou muito tempo nos Estados Unidos. E o Sérgio [Barrozo] é original do Rio 65 Trio. Fora isso tem o baterista original do sexteto, o Mauricio Zottarelli.

Como é sua parceria com o Sérgio Barrozo, o senhor manteve contato com ele desde o Rio 65?
Todas as vezes que eu venho tocar aqui me apresento com o Sérgio, gravamos um disco em 2007, com Duduka da Fonseca na bateria, saiu pela Biscoito Fino, naquele mesmo estilo do Rio 65 trio. Só que era o Duduka da Fonseca [e não o Edison Machado, baterista original do Rio 65 que morreu em 1990].

E o senhor continua tocando lá no River Café, em Nova York?
Sim, já é o meu segundo lar.

Já faz quanto, mais de 40 anos?
41 anos. Comecei lá em 77.

Como é a experiência de fazer um set por tanto tempo?
É bom porque é um trabalho bem flexível, posso sair para fazer as coisas que eu quero. E sempre tem substitutos à altura, responsáveis. São os mesmos por muitos anos, também.

E como o público reage?
Eles pedem todo tipo de música, é bom pra mim porque é uma escola. Não é um lugar que as pessoas vão lá exatamente para ouvir música, faz parte do ambiente. O que eu faço lá é um trabalho de ambiente, background.

Quem dera todo background fosse assim.
Tem pessoas que realmente gostam da música e pedem. Tem muita gente que vai sabendo que eu vou estar lá, telefonam antes para saber se eu vou estar lá naquela noite.

Lendo um texto do New York Times da época do reencontro do Rio 65 [em 2015] no Carnegie Hall, o crítico Ben Ratliff fala que ele via no Rio 65 uma influência do jazz de Nova York, da costa leste, contra a bossa nova mais conhecida, que teria mais influência do jazz da costa oeste. O senhor concorda?
Realmente foi isso mesmo, a bossa nova teve muita influência do jazz da west coast, especialmente. O que eu fiz — e alguns outros grupos também — foi uma coisa paralela, instrumental. Porque geralmente para a bossa nova a coisa é mais baseada no violão, e o piano só fazendo aqueles detalhes. Mas o músico mesmo quer improvisar, soltar a mão. Então nós começamos a desenvolver um outro caminho, paralelo à bossa nova, e passou a ser o chamado samba jazz.

Mas vocês realmente ouviam mais os músicos de jazz da costa leste? De onde veio essa influência?
Ah sim, claro. Eu ouço jazz desde garoto, e tinha minhas preferências na época. Fui sentindo influência, na época [que foi para os Estados Unidos] eu vi o Miles Davis, Red Garland.

O senhor conheceu o Miles?
Eu estive com ele uma vez na vida, antes daquele período que ele se retirou. Foi o último show que ele fez antes de se retirar por um tempo.

O senhor também conheceu o Monk, né?
Eu estive com Theoulonious Monk em 67, fui tocar em Minneapolis e tive a chance de encontrá-lo. Ele era muito introvertido, quase não falava, mas consegui trocar umas palavrinhas, fiquei muito emocionado. Era um dos meus heróis.

Queria falar um pouco sobre o Abolição. Vi o senhor falando que houve uma decepção na época com o grupo, naquela época de muitas drogas, começo dos anos 70… E também, lendo sobre o Festival da Canção de 70, que foi o primeiro a trazer à tona essa influência do soul e do funk, a história do que aconteceu com Toni Tornado depois da BR 3 e Érlon Chaves com o Eu Também Quero Mocotó foi de uma perseguição, né…
O regime militar estava de olho em todos nós. Mas a ideia foi do produtor, tinha muita influência dos Estados Unidos, nós usamos roupas extravagantes, africanas, entramos descalços, minha banda entrou de bata, aquela coisa toda. Isso ouriçou um pouco. Mas a intenção nossa era de aproveitar o marketing, essa foi a ideia. Mas foi uma época muito legal para a gente, porque foi um movimento. De repente, a coisa virou. Quando eu saí do Brasil em 73 e a coisa ficou mais forte, já acompanhando melhor o que rolava nos Estados Unidos. Mas pena que a Abolição durou pouco. Praticamente dois anos e meio.

Dom Salvador e a Abolição no Festival Internacional da Canção de 1970

Por que durou tão pouco?
Porque era difícil manter um grupo tão grande, eram nove — oito mais a minha mulher, Mariá, cantando. Era todo mundo muito jovem, nós estávamos começando a ganhar dinheiro, a gente não estava preparado para isso. Começou a desorganização, aquela coisa que a maioria dos jovens estavam fazendo… e eu nunca me envolvi em nada. Eu sofria muito, marcava ensaio e chegavam atrasados. Nós estávamos fazendo uma peça de Broadway no Teatro Ginástico, no Rio, e todos os dias eu ficava apavorado se eles iam chegar a tempo. Aí eu falei: “Não vou poder ficar nesse desespero, daqui a pouco vou ter um AVC”.

E como o senhor pensou a banda?
Eram bons músicos, o grupo realmente era incrível. Eu tive sorte de escolher pessoas assim. Geralmente era o pessoal da Zona Norte. A maioria da bossa nova era o pessoal da zona sul, da classe média. E eu comecei a pesquisar músicos que tocavam em gafieira, e essa ideia de formar esse grupo praticamente partiu do baterista do Tamba Trio, o Hélcio Milito, que era produtor da CBS. E ele saiu do Tamba e foi para os Estados Unidos, ficou um tempo lá. E foi ele que veio com essa ideia, trouxe os discos, contou do que estava acontecendo lá, mostrou James Brown, Sly & The Family Stone. Ele me chamou um dia lá no escritório e disse que achava que eu era um dos caras que poderiam fazer uma coisa assim. Mas claro que eu jamais iria fazer um tipo de trabalho copiando totalmente os americanos. Eu falei que poderia trabalhar assim mas fazendo uma mistura das coisas que nós temos, tanta riqueza de música e ritmo. Aí eu misturei tudo: baião com funk, chorinho… O grupo era bem eclético mesmo. Pena que nós gravamos um disco só e não tinha nem praticamente formado o grupo completo mesmo. Eu estava preparando para fazer um segundo álbum, que esperava que ia até ser melhor.

O senhor já tinha as músicas para esse segundo álbum?
A gente já estava começando, nós tocávamos na casa chamada Number One no Rio, que era a mais badalada na época. Fazíamos 5 dias por semana lá, então íamos desenvolvendo coisas. Era bem solto, bem criativo. Muita coisa a gente não colocava nem no papel, cada um ia dando uma sugestão e ia…

Se fala muito nessa bossa nova da zona sul, mas tem muitas bossas que aconteciam com essa influência do samba, da música negra mais forte.
É, aí começaram a chamar de samba soul, usando outros termos.

E os discos são caríssimos.
É difícil de encontrar, né? A CBS, quando fazia alguma reedição, fazia só uns 500 LPs. Muita gente não conseguia comprar.

E os fonogramas ainda são deles?
Tudo deles. Não posso fazer nada, tenho que ficar quietinho. Já saiu pirata na Inglaterra com a capa até mais bonita. Nem eu tenho! Eu vi porque quando toquei no SESC há uns anos, acho que em 2007, veio um bocado de gente com o LP da Abolição e eu: “Que capa é essa?” (risos). Era pirata. E melhor a capa, qualidade e tudo. Nem eu tenho (risos).

Fizeram isso com o Tim Maia Racional, também.
Não dá para controlar. Hoje em dia mudou tudo. Está para sair agora o disco que eu fiz com o Rio 65 Trio lá no Carnegie Hall, gravado ao vivo, pela Universal. Vamos ver. Marcaram para o dia 24 de agosto.

O senhor passou muito tempo sem vir para o Brasil e desde 2003 tem vindo com mais frequência. Como é voltar?
Ah, é bom né. Matar a saudade. Mas você sabe — a música instrumental é bem restrita de público, principalmente com essa situação da música no Brasil, com essas coisas que estão acontecendo aí, estão esquecendo… Eu agradeço muito ao Sesc que continua mesmo a fazer de tudo para apoiar a música instrumental. Me disseram até que os ingressos já estão todos vendidos, né… Eu me lembro de 2003, a primeira vez que toquei no Brasil desde que eu saí, foi uma coisa incrível. O que tinha de gente, não tinha mais ingresso, foi um negócio muito bacana. E um público jovem fazendo uma pesquisa musical, tomara que continuem fazendo isso. O pessoal da geração passada está indo embora, tem que passar de pai pra filho…

Sua família também está toda em Nova York?
Sim, minha mulher e meus dois filhos. Ainda não tenho netos. Meu filho tocava trombone no colégio, minha filha estudou um pouco de flauta, mas foram pra outro ramo. Ele é formado em psicologia e minha filha é socióloga.

Shows

Dom Salvador Sexteto
Sesc Piracicaba — 24/8, 20h. R$ 15 a R$ 50
Sesc Pompeia — 25/8, 21h. 26/8, 18h. R$ 18 a R$ 60

Like what you read? Give Paula Carvalho a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.