Encontros de câmara

3º Festival Sesc de Música de Câmara promove colaboração entre conjuntos e solistas, trocas internacionais e diversidade de repertório

The Tallis Scholars (Foto: Nick Rutter)

É claro que sempre se pôde criar sons sem ninguém por perto. E que, desde a invenção de meios para gravá-los e reproduzi-los, é possível escutar sozinho. Mas a música só se realiza no encontro, mediado ou não, entre artista e público. Além disso, algumas das composições mais memoráveis são fruto da parceria entre autores — isso para não mencionar o diálogo com os pares, contemporâneos e pregressos.

É neste aspecto colaborativo que aposta a terceira edição do Festival Sesc de Música de Câmara, que leva, a partir de hoje (22), um total de 34 concertos a unidades do Sesc na capital (Bom Retiro, Campo Limpo e Consolação) e no interior (Jundiaí, São Carlos, Sorocaba e Rio Preto) de São Paulo. O cardápio musical é variado: serve de música antiga, representada pelos Tallis Scholars, e experimentos de Edgard Varèse no século 20, interpretados pelo Duo Contexto e convidados, a obras recém-criadas por compositores brasileiros.

“A música de câmara é a forma mais acabada de colaboração em música”, defende Claudia Toni, curadora do festival. “Ela pressupõe entendimento, parceria, união de propósitos, mas sobretudo alegria e vontade de fazer algo junto com outro(s).” Neste espírito, a programação inclui colaboração entre grupos e solistas, encontros internacionais e diversidade geracional de repertório. “Penso que o importante”, diz Toni, “é oferecer ao público escutas diferenciadas, muito diversas, permitindo que o leque de opções se abra e que, ao contrário da música oferecida pelos meios de comunicação de massa, nossos ouvintes tenham oportunidades completamente novas.”

Quatuor Zaïde

Quartetos expandidos

Formado há 10 anos por jovens instrumentistas, o Quatuor Zaïde apresenta, além de peças para quarteto de cordas escritas por Claude Debussy e Igor Stravinsky, o Quinteto para Clarinete e Cordas em Lá Maior, de Wolfgang Amadeus Mozart. As francesas serão acompanhadas por Ovanir Buosi, clarinetista da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

Reunido também desde 2008, quando eram estudantes da Juilliard School, em Nova York, o Tesla Quartet é um conjunto em ascensão. O primeiro disco do quarteto — lançado em setembro deste ano com obras de Joseph Haydn, Maurice Ravel e Stravinsky — recebeu cinco estrelas e o selo de “Chamber Choice” da BBC Music Magazine.

No eclético repertório que apresentam em São Paulo, há espaço para a música contemporânea do canadense Marcus Goddard, para um quarteto de Heitor Villa-Lobos (nº 17) e para o romantismo de Robert Schumann, cujo Quinteto para Piano e Quarteto de Cordas será interpretado com Ricardo Castro. O pianista baiano, por sua vez, recebe os americanos em Salvador para um encontro com os Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia, o Neojiba, iniciativa que dirige desde 2007.

Tesla Quartet

Liturgia de câmara

Grande destaque do festival, o conjunto vocal inglês The Tallis Scholars expande, no programa que traz ao Brasil, o repertório pelo qual se tornou conhecido. Referência na interpretação de música sacra do Renascimento desde 1973, o grupo apresenta, além de obras do século 14 compostas por nomes como Thomas Tallis e Giovanni Pierluigi da Palestrina, peças do século 20 — entre elas, Magnificat, de Arvo Pärt, e The Lamb, de John Tavener. Os concertos serão regidos pelo veterano Peter Phillips, fundador do conjunto.

Claudia Toni chama a atenção para o fato de que, na época em que foram criadas, as peças que formam a especialidade dos Tallis Scholars não foram concebidas como música de câmara (termo que sequer existia), mas criadas para a liturgia de igrejas católicas e anglicanas. “Com o passar do tempo e o início da prática de ouvirmos música em salas de concerto”, explica Toni, “conjuntos com reduzido número de intérpretes — como é o caso do Tallis — passaram a ver seus programas integrados em salas de música de câmara, mais apropriadas para ouvirmos esse tipo de repertório do que as grandes salas sinfônicas.”

The Tallis Scholars

Sopro de estreias

O festival conta com duas estreias nacionais, ambas encomendadas pela curadoria do festival , para quem “é preciso ampliar o repertório contemporâneo brasileiro e fazer da encomenda um hábito”. O Berlin Counterpoint, sexteto de sopros e piano com músicos de diversos países e baseado na Alemanha, interpreta Allegro Scorrevole, de Leonardo Martinelli. Antes da apresentação no Sesc Bom Retiro, no dia 1º de dezembro, o compositor participa de um bate-papo com o grupo, que também toca peças de Paul Juon, Francis Poulenc e Mozart.

A jovem compositora sul-mato-grossense Michelle Agnes Magalhães, radicada em Paris para uma residência artística no Instituto de Pesquisa e Coordenação em Música/Acústica (IRCAM), terá o seu The Grand Can(y)on estreado pelo Sopro Transcendente, conjunto reunido pelo fagotista Fábio Cury com instrumentistas do Grupo de Pesquisa de Música da Renascença e Contemporânea e do Aura Ensemble, que também interpretarão obras de Johann Sebastian Bach e Villa-Lobos, entre outros.

Berlin Counterpoint

A Bravo! pediu aos compositores que apresentassem, em um pequeno texto, as suas criações mais recentes. Leia a seguir o que eles escreveram.

Leonardo Martinelli sobre Allegro Scorrevole:

Composta especialmente para o grupo Berlin Counterpoint, por ocasião de sua participação neste Festival Sesc de Música de Câmara, a criação da peça Allegro scorrevole encontrou já em seus primeiros passos um desafio: a formação instrumental do grupo — isto é, flauta, oboé, clarinete, trompa, fagote e piano — é praticamente única, e por isso conta com um repertório bastante enxuto se comparado às formações mais tradicionais. Se por um lado não havia muitas peças com a quais pudesse dialogar, pelo outro me foi revelado um campo fértil cheio de novas possibilidades sonoras a serem exploradas. O título em italiano é também a indicação de tempo da peça, e se refere ao fluxo rápido e fluente de elementos musicais que caracterizam essa partitura. Além disso, na música de concerto moderna, a indicação Allegro scorrevole tem sido utilizada como um tipo de affetto, uma expressividade musical imbuída de uma carga de tensão toda peculiar. Nesta peça essa tensão é explorada de maneiras diferentes e simultâneas, tais como seu frenético acompanhamento rítmico, as intervenções de pesados acordes tocados pelo piano e o modo com o qual vários solos instrumentais são desenvolvidos um após o outro, partindo dos sons graves e profundos do fagote e gradualmente atingindo notas bastantes agudas e sibilantes na flauta.

Michelle Agnes Magalhães sobre The Grand Can(y)on:

The Grand Can(y)on pode ser definido como uma canção na qual melodia e letra foram separados, uma metáfora para a separação entre a música vocal e a música instrumental enquanto gêneros distintos. A obra foi escrita para grupo de sopros e um dispositivo que utiliza celulares para criar formas de interação entre som e movimento. Dessa maneira o movimento dos músicos aciona sons vocais pré-gravados (sílabas, palavras, frases) que se misturam à respirações e sonoridades dos instrumentos de sopro. O final da obra revela um fragmento da aria Lagrime Mie de Barbara Strozzi, cantora e compositora, filha do poeta Giulio Strozzi, uma das poucas compositoras do século XVII a publicar suas obras. Essa citação é feita de forma instrumental, pela dulciana (instrumento antecessor do fagote) acompanhada pela viola da gamba. Ela surge em meio a uma nuvem de sussurros, que emergem dos celulares controlados pelo movimento dos músicos. Essas vozes sussurram partes do texto original, traduções livres em várias línguas do texto de Strozzi. A obra utiliza o aplicativo web CoMo (https://como.ircam.fr/) desenvolvido por Benjamin Matuszewski, Joseph Larralde, Jean-Philippe Lambert, Jules Françoise, Norbert Schnell e Frédéric Bevilacqua (ISMM, IRCAM), sendo fruto de um trabalho de colaboração com a mesma equipe.

Festival Sesc de Música de Câmara. De 22/11 a 2/12, em unidades do Sesc na capital e no interior de São Paulo. Confira a programação completa. No dia 26/11, o Centro de Formação e Pesquisa do Sesc abriga um dia de debates gratuitos entre músicos e pesquisadores. Inscrições no site.