Entre isso e aquilo

Crítica: Ava Rocha trança experiências pessoais, diálogo com a canção brasileira e sonoridade complexa em álbum com 35 músicos

Havia, possivelmente, algum quebra-cabeça a se resolver quando Ava Rocha começou a embarcar em Trança, seu terceiro álbum, lançado agora em junho. Ava Patrya Yndia Yracema, seu antecessor de 2015, é um marco da década na música brasileira, com sua mistura temperadíssima entre pop e experimental, sendo um dos primeiros a trazer mais à tona a cena pós-2010 de músicos cariocas. Não deve ser fácil sair de um trabalho com tantos bons resultados.

A via que a cantora escolheu foi a da amplitude, a começar pela influência de Tunga, que teria inspirado o mote inicial do disco, a trança, e a pangeia (nome, por sinal, da segunda música do álbum, dedicada a ele). Esta última, a reunião paleozóica de tudo, dá tom para o que vem. O artista pernambucano dizia, em entrevistas, que era “um venusiano que caiu na Pangeia, que virou Terra” — e quem conhece um pouco de seu trabalho sabe da ambição de suas misturas alquímicas, literárias, metálicas, filosóficas. De saída, embarcar na trança é viagem no tudo e no tudo.

Não que não haja estofo para isso. Ava reuniu não menos que um dream team de músicos nacionais. São seis dos mais inventivos bateristas contemporâneos (Curumin, Domenico Lancellotti, Mariá Portugal, Sérgio Machado e Thomas Harres, fora Marcelo Callado na percussão e pratos); a percussão evocadora do duo Mbeji (Ariane Molina e Victoria dos Santos), ainda acrescida, em algumas faixas, pelo ilú e ganzá de Alessandra Leão, sem falar na cuíca de Paulinho Bicolor. Trança tem ainda diversos coloridos nos synths, teclados, órgão, piano, mellotron e hamonium (revezados entre Bruno di Lullo, Chicão, Dustan Gallas, Eduardo Manso, Estevão Casé) e texturas de baixo, baixo elétrico, Fender VI (com Alberto Continentino, Manso, Felipe Zenícola, Gabriel Bubu, Pedro Dantas). Ao todo, 35 pessoas se revezam nos instrumentos e vozes.

Do quarteto que normalmente a acompanhava nos shows de APYY (Harres, Manso, Dantas e Marcos Campello), portanto, frutificaram-se diversas grandes bandas — digamos que a média seja de uns sete músicos por faixa, sempre variados, de diversas cidades e turmas — que dão suas assinaturas ao longo do disco. E são realmente muitos momentos memoráveis: o violão de Gustavo Ruiz em Lilith; a cuíca de Bicolor em Anjo do Bem; o andamento quebrado da bateria levada por Lancellotti em Periférica; o sintetizador de Dustan Gallas em Continente, que vai se entrelaçando com os outros instrumentos; a rabeca de Thomas Rohrer que amplia a trama de João 3 Filhos e por aí vai.

É notável, ainda, a produção de Eduardo Manso e Fabiano França, interpolando camadas do noise e experimental com elementos da canção mais redonda, puxada para a MPB, e a mixagem — de França e Estevão Casé — que consegue separar bem a voz de Ava da massa sonora — um marco, aliás, que Tom Zé notou em outro disco carioca, o , de Caetano Veloso. O canto de Ava, que por sinal é um dos pontos altos do disco, cada vez mais cheio de personalidade, é também permeado por ecos e overdubs.

Toda essa super produção deixa bem delineada a diferença de Trança para APYY, aproximando-se, talvez, um pouco mais do primeiro álbum de Ava, Diurno, no sentido das canções mais densas, menos fáceis. Também os metais, parte da sonoridade mais aberta do APYY, não entraram neste novo trabalho. Lá em 2015, num trocadilho de Negro Leo e Luís Augusto com Hermeto Pascoal, Ava cantava que o som “não serve se for hermético” (Hermética). Aqui, há fumaça, barulhos de rituais quase que xamânicos, ou bruxos, camadas, transes. Não se propõe uma audição fácil até pela extensão: são 19 músicas, quase uma hora de disco, que exige ouvidos atentos.

Trançando

Um dos sentidos primeiros da trança é o entrelace de “afetos, corpos, línguas” desses 35 músicos convidados, como a artista tem dito em entrevistas. Mas isso não é exatamente novidade na sua obra: o próprio APYY tem mais de 25 participantes. A diferença talvez esteja nas dinâmicas de estúdio. Quando há cordas e sopros, normalmente é preciso que esses elementos sejam arranjados, orquestrados. Já a junção de guitarras, baixos, violão e bateria com sintetizadores, teclados e percussão parece mais autoral e individualizada — o que permite estes estalos de novas ideias que aparecem a todo momento no disco, assim como momentos de prolixidade que podem desviar o foco e tornar a audição maçante. Mas estamos na pangeia.

Outro aspecto trançado é o entrecruzamento de diversos backgrounds da própria Ava, que vem de famílias artísticas tanto do lado de seu pai, Glauber, como da sua mãe, a também cineasta Paula Gaitán. As músicas em espanhol (Canción Para Usted e Frío) remetem a sua vivência na Colômbia e aos familiares maternos; os elementos rituais fazem lembrar, também, as experiências do Teatro Oficina, do qual Ava fez parte; há junção dos grupos de músicos cariocas, sua cidade natal, aos músicos de São Paulo, sua morada há alguns anos, às vezes, em parcerias até então inéditas. Febre, Joana Dark, Lilith, Maré Erê também tornam mais evidentes as suas parcerias com mulheres (Tulipa Ruiz, Iara Rennó, Karina Buhr, Juçara Marçal, entre outras). Aliás, o feminismo no disco — tema que daria um outro texto — é menos lacração e mais força natural, Lilith contra costela de Adão.

Parte das músicas também emendam numa outra trança, que também vem de longe, de uma certa linhagem da música brasileira. O diálogo está nas canções compostas por Negro Leo, marido de Ava (que tem 5 no disco), como Bárbara — título que já remete à peça de Chico Buarque e Ruy Guerra, Calabar, e que tem estrutura jazzística que lembra Luiz Melodia; Dorival, autoexplicativa; Anjo do Bem, remetendo aos anjos (o 45, por exemplo) de Jorge Ben. Mas também Milton Nascimento está em toda parte, seja na aura de João 3 Filhos (música de Dinho Almeida, do Boogarins, que conversa com Maria Três Filhos, do álbum Milton, de 1970) ao trem que corre — efeito de um fast-forward forjado em estúdio à la Sgt. Peppers — no fim de Periférica, que passa também por João 3 Filhos e parece ressoar também no noise de Assumpção. Essa última é uma das mais representativas. Parceria de Ava com o poeta Tazio Zambi, cheia de referências a Itamar Assumpção, resume a tríade (de diversos sentidos) entrelaçada no álbum: “entre isso e aquilo fico com o e / Fico com o fio q liga o início ao fim”, diz a letra no encarte. “(Entre o sim e o não / Existe um vão: a pedra contra a vitrine / o Assumpção)” enunciam os versos finais, espécie de mensagem cifrada, escondida antes do noise afro-punk típico de Kiko Dinucci, que toca violão na faixa.

O que é interessante nesse diálogo de Ava, Manso, França e Negro Leo com a MPB consagrada é que a mediação passa, talvez, mais pela experiência glauberiana do que a tropicalista. Digamos que há mais cannabis, candomblé e ideias na cabeça do que uma tentativa de se tornar cânone. E nisso há muita proximidade do disco de Ava com o último de Leo, Action Lekking, de 2017. Trança incorpora, ainda, as experiências sociais recentes de ascensão social — a figura do “lek lover”, inspirada no funk de MC Federado, Passinho do Volante — e de polarização política, à qual o novelo trançado pelo disco, por diversos ângulos, se contrapõe. Busca mais experiências reais do que uma estetização. Incorpora a nova forma da canção pós-Racionais MC’s (em resumo, não pretende forjar uma identidade única e moderna de país — compreende que há feridas e pontos até agora inconciliáveis).

Lembrando que um pensamento não dual tende a cair numa espiral dialética, uma outra tríade possível é a da síntese dos seus três trabalhos na música. Trança é, até aqui, o mais complexo, o que mais exige depuração. O álbum também é revelador do seu tempo quando pensamos na era dos editais (foi um dos contemplados na principal categoria do Natura Musical em 2017, a nacional, lançado em parceria com o selo Circus): é uma experiência possível de uma suposta liberdade temática, financiada previamente, que permitiu tamanho encontro de artistas. Constrições na gravação de discos sempre houve — basta pensar no jogo entre arte e mercado dos discos dos anos 60 e 70, mas agora, com a fração artística da produção praticamente toda fora das majors, em editoras independentes, uma nova configuração, nesse momento de recursos escassos, exige uma grande rede de parceiros, participações em shows e singles, bandas formadas em cada cidade para reduzir custos de viagem. Em compensação, muito mais liberdade em estúdio e domínio da tecnologia. Daí os constrangimentos talvez estejam mais no desenrolar da trança numa política de boa vizinhança do que num desmando de um produtor musical. Novas pérolas da nossa música têm sido transadas aí.

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