Entre o fluxo e a cultura

Exposição de Jaime Lauriano e Raphael Escobar trata das operações na Cracolândia, questionando o papel das instituições culturais nas disputas pela cidade

Blocolândia realizado em fevereiro. Foto: Alice Vergueiro

“Alô Família! O bloco da pedra tá na rua. A rua é minha, a rua é sua”. Cantando esse samba-enredo, um grupo de foliões desfila todo ano pelos arredores da Estação Júlio Prestes, no centro de São Paulo. O grupo, que marcha ao som da Bateria Coração Valente, é composto por moradores da Cracolândia, além de militantes e funcionários da saúde. As músicas desse bloco, que trazem à tona uma imagem alegre diferente da usualmente associada aos usuários de crack, podem ser ouvidas na mostra À noite, o mundo se divide em dois”, de Jaime Lauriano e Raphael Escobar.

Em cartaz no espaço independente Ateliê 397, a exposição une a produção dos dois artistas para refletir sobre as contradições de São Paulo. As obras tratam especialmente do que ambos chamam de “um processo de limpeza social” que tenta ocultar a presença das minorias no espaço público. Para contrapor esse processo de apagamento, os artistas evidenciam a “agência”, como define Lauriano, desses grupos marginalizados.

Jovens, na faixa dos 30 anos, Lauriano e Escobar têm circulado bastante no meio artístico de São Paulo. Além do Ateliê 397, é possível ver suas obras em outras duas mostras em cartaz na capital: “Metrópole Experiência Paulistana”, na Estação Pinacoteca, e “OSSO: Exposição-apelo ao amplo direito de defesa de Rafael Braga” no Instituto Tomie Ohtake. Em todas, eles apresentam trabalhos politizados. No entanto, Lauriano reitera a importância da nova mostra: “A diferença é que, nas outras, nós apenas participamos, esta, nós fazemos de fato”.

Com curadoria de Thais Rivitti, a exposição toma como ponto de partida a operação policial realizada pelo poder público na Cracolândia durante o mês de maio deste ano. Os dois artistas defendem que, por trás de muitos projetos de revitalização urbana, preponderam interesses do mercado imobiliário. “Para quem são destinadas essas iniciativas? Quais são os corpos que sofrem com esses projetos higienistas?”, pondera Escobar

Para responder essas questões, as obras transitam entre o passado e o presente. Jaime Lauriano, por exemplo, apresenta trabalhos com um viés histórico. No centro do ateliê, localizado em um grande galpão na Pompeia, ele estende uma faixa branca com o termo “Nostalgia colonial”.

Em diálogo com essa faixa, o artista apresenta a obra “Bandeiras”, composta por cartões-postais de quatro pontos icônicos de São Paulo, como o Monumento às Bandeiras e o Viaduto do Chá. Nas imagens, o artista insere os seguintes termos: expansão, desenvolvimento, desapropriação e revitalização.

“Bandeiras”, Jaime Lauriano. Foto: Divulgação

Lauriano comenta a obra: “Todas essas palavras foram tiradas de projetos de revitalização urbana da prefeitura de São Paulo. São termos bonitos que dão a impressão de que uma nova cidade será construída. Mas, na verdade, são ideias que remetem aos bandeirantes, ou seja, a um processo de expansão que destrói tudo para criar novas fronteiras”. Ele explica que foi essa conexão entre tempos históricos distintos que o motivou a realizar a faixa.

“É uma obra irônica porque se você pensar a palavra ‘nostalgia’ fala de saudade, uma vontade de voltar no tempo. Mas, no fundo, é isso mesmo, já que diversas políticas públicas atuais remetem à opressão colonial, à exclusão dos indesejados”, afirma o artista. Escobar também enxerga um processo de continuidade.

“Desde o Brasil colônia, os índios e negros não eram considerados humanos, mas seres sem alma que não tinham direito de escolha. E agora isso é reatualizado com os usuários de crack. Cria-se um novo inimigo, que é transformado em zumbi, para se poder limpar a região”, pondera o artista.

Dominação cultural

Baseado em autores como a arquiteta Raquel Rolnik, Escobar defende que, desde 2004, com o projeto “Nova Luz”, proposto na gestão de Kassab, há uma tentativa de eliminar a atual dinâmica de ocupação do Bairro da Santa Efigênia para, em seu lugar, erigir um local composto por comércios de preço elevado. Em sua obra “Cultura”, ele chama atenção para o “papel dos centros culturais nesse processo de gentrificação”.

O vídeo mostra parte do percurso do bloco de carnaval organizado na Cracolândia. Enquanto o público ouve o som da bateria, a câmera se distancia das pessoas para mostrar um mapa da região, englobando oito quarteirões, da alameda Barão de Piracicaba à rua Cleveland. Nesse percurso, o artista destaca a presença de várias instituições culturais como Espaço Cultural Porto Seguro, Museu da Energia, Sesc Bom Retiro e Sala São Paulo.

“Há uma média de sete instituições culturais para oito quarteirões”, afirma o artista. Ele reitera que a criação dessas instituições é uma forma de “trazer gente branca para o espaço”. Escobar também enxerga o mesmo processo na cidade do Rio de Janeiro. “Nos últimos dois anos, foram fundados o Museu do Amanhã e o Aquário na região do Valongo. Criam-se esses equipamentos que atraem a classe média e, com a desculpa de que ela não pode ser assaltada, uma base da polícia é instalada. Assim a população local é expulsa da região”, afirma.

Vista da exposição. Foto: Divulgação

Para Thais Rivitti, é possível identificar uma relação entre a cultura e os processos de gentrificação. “Muitas dessas instituições têm uma grande estrutura, foram projetados por arquitetos famosos. No fundo, a cultura é enxergada como uma marca associada a equipamentos luxuosos”.

A curadora também pontua a atua crise que afeta o setor. “As instituições que nós já temos estão falidas, elas não têm dinheiro para fazer uma programação de qualidade. Talvez a Funarte não lance editais nesse ano, o Paço das Artes continua como um apêndice do MIS. Mas qual é a política? Criar novos centros culturais? Não faz sentido”.

Essa crítica da “cultura como marca” aparece na própria expografia da mostra, que preza pelo simples e até mesmo precário. Os vídeos não estão na parede, mas no chão, em tábuas de madeira. Localizado em uma antiga oficina, o ateliê divide espaço com um depósito de obras, separado do espaço expositivo apenas por uma parede falsa.

Rivitti comenta a organização da mostra. “No fundo, esse é um espaço mais normal da cidade. Não há nada mais postiço hoje do que uma exposição de pintura em uma galeria, na qual as obras são colocadas numa parede super preparada, com um mdf pintado de branco”.

Escobar brinca que se trata de uma “estética mambembe”. “Nós pegamos o resto do display da mostra passada, recortamos e adaptamos pra cá”, conta. Para Lauriano, essa forma de expor é um posicionamento político. “Estamos falando de mudanças, isso também envolve repensar o cubo branco, disciplinado. Acho que ninguém se sente muito à vontade dentro de uma exposição no Masp ou na Pinacoteca”, afirma.
Obra de Raphael Escobar. Foto: Divulgação

Com um espaço que lembra as ruas de São Paulo, a mostra também apresenta frases escritas no chão e nas paredes do ateliê. Logo na rampa, onde os visitantes pisam para adentrar no espaço, é possível ler a seguinte frase, escrita por Lauriano com um giz branco: “A cada dez pessoas mortas no Brasil, sete são negras”.

Baseado no relatório do Mapa para a Violência de 2016, o dado já mostra um pouco do tom da mostra, como brinca Escobar: “Essa exposição é chata, ela não é fácil. Já começa falando do racismo no nosso País”. Conforme as pessoas entram no ateliê, o giz vai se tornando mais fraco, numa metáfora do apagamento das minorias.

Opondo-se a esse apagamento, há a obra de Escobar que nomeia a mostra. O trabalho é composto por uma série de caixas de som que reproduzem músicas, feitas durante o bloco de carnaval na Cracolândia, e falas de usuários em manifestações.

No áudio, chama atenção uma voz masculina que diz: “São Paulo à noite, o mundo se divide em dois, pra quem não me conhece meu nome é Cauex, muito prazer, vou contar uma história que ninguém quer ver”. Escobar afirma que a fala foi feita durante um ato contra a ação da PM no local. “De repente, ele pegou o microfone e soltou essa frase tão impactante, foi algo que me tocou muito”.

Lauriano explica o motivo da frase nomear a exposição. “É algo muito forte porque a limpeza se dá de noite, a violência também. É um momento em que todos estão dormindo e a polícia aproveita para expulsar as pessoas. E de manhã, a cidade está limpa”.

Para Escobar, a fala de Cauex também revela outro ponto de vista: “Todo mundo fala sobre a Cracolândia como um terror, um absurdo. Mas também é uma rave que existe há trinta anos. De noite, rola uma grande festa sabe? Toca funk, rap, samba. A galera curte demais. É importante falar desse outro lado, não podemos vitimizar as pessoas”.

Serviço- À noite, o mundo se divide em dois

Até 7/8

Ateliê 397

R. Professor Gonzaga Duque, 148 — Pompeia, São Paulo, SP

Segunda a sexta das 14h às 19h

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