Era o Hotel Cambridge, uma discussão urgente e universal

Um grupo de refugiados divide com os sem-teto as agruras da ameaça iminente de serem despejados. O filme é um documento sobre a exclusão e o desamparo, que assinala um sopro de esperança.

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A câmera abre precisa esquadrinhando geometricamente os ângulos, os detalhes da construção e a imensa fachada de vidro e concreto de um prédio abandonado em São Paulo, uma explanação não literal que situa de cara o verdadeiro protagonista do filme.

A partir daí não se saberá mais o que é real e o que é ficção. Será um jogo de forças, a ficção se aproxima do documentário e esse caminha para a encenação. Uma simbiose completa que, nesse exercício híbrido ganha uma liberdade e retira a importância do que é ou não fantasia.

O Hotel Cambridge, na avenida 9 de Julho estava abandonado havia dez anos quando na noite de 22 de novembro de 2012 foi ocupado por militantes do MSTC (Movimento dos Sem Teto do Centro). Na ocasião, eles retiraram dali 15 toneladas de lixo. O edifício de 15 andares, com 241 quartos e 136 banheiros tinha sido um hotel de luxo na década de 1950 e por ironia do destino acabou sendo ocupado por cidadãos destituídos de bens e riquezas.

A ideia inicial era tratar da temática dos refugiados em São Paulo, mas, na pesquisa de campo, a diretora Eliane Caffé se deparou com os expatriados do seu próprio país, engajados nos movimentos de luta por moradia.

Eliane Caffé com uma franqueza desconcertante revelou com sua câmera todas as portas e janelas e, sem economizar, foi mostrando o cotidiano dos moradores-ocupantes do Hotel Cambridge.

Ali um grupo de refugiados divide com os sem-teto as agruras da ameaça iminente de serem desalojados, despejados, colocados de novo na rua. Um clima de tensão diária, mas com um sopro de esperança calçado na possibilidade de conquistar uma casa para morar.

Nesse retrato, revela-se pela convivência cotidiana, pequenos dramas, alegrias, várias visões de mundo e o mesmo desejo de um teto para dormir e uma mesa para reunir a família no almoço ou no jantar, assim como você e eu. O desejo de exercer o direito cidadão de uma moradia digna.

A história acontece às vésperas de uma espera pela posse do edifício, o filme vai detalhando os preparativos para o evento desejado, conquista alcançada em julho de 2016, depois de quatro anos de ocupação e luta.

Ingênuo quem acha que ocupar é fácil. Há regras, disciplina rígida, obrigatoriedade de mobilização e conhecimento de causa, fora a serenidade para manter o equilíbrio contra o fantasma diário de ser retirado do lar provisório, mas o único lar.

Palestinos, nordestinos, colombianos, congolenses, sírios, paulistas etc etc todos organizados por Carmen Silva, exatamente como na realidade, Carmem é uma liderança expressiva do Movimento dos Sem Tetos do Centro, Carmen representa as centenas de mulheres engajadas e à frente dos movimentos sociais. Juntos, moradores e lideranças fazem do Cambridge um palco para sua luta, mas não só, o hotel é palco também para a coexistência, para a solidariedade, para o exercício da dignidade, que nunca virá via Estado.

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O filme estabelece um diálogo entre os sem teto e os refugiados. E esse convívio teve início nas oficinas de dramaturgia realizadas durante o processo que criou uma relação entre os dois grupos aparentemente apartados, fosse pela dificuldade da questão da língua ou por questões culturais.

Além das oficinas de dramaturgia, várias outras foram desenvolvidas, transformando o filme numa criação coletiva, de onde saíram muitas das escolhas para a filmagem, especialmente a direção de arte de Carla Caffé com a participação dos alunos da Escola da Cidade, que, presente em cada canto, testou o limite do cinema e da arquitetura e deixou os espaços equipados para o usufruto dos moradores quando terminassem as filmagens.

A mistura de atores e não atores é um dos pontos alto da produção e não deixa o espectador imaginar nem por um segundo de que as coisas não se passem exatamente como estão retratadas. Os atores José Dumont e Suely Franco se misturam com os moradores com tamanha naturalidade que ninguém sabe mais quem é ou não ator profissional. Ou como afirma Carmen Silva: “somos todos refugiados da falta de políticas públicas”.

O filme avança e vai traçando um inevitável paralelo entre os desabrigados do mundo todo. O sentimento de humanidade advém do fato de não esquecer em nenhum momento que essa situação poderia estar se passando em qualquer outro lugar, onde as classes menos abastadas estão sendo espremidas, vilipendiadas, onde é fácil escorregar da normalidade de um cotidiano de um lar à indigência absoluta.

E apesar disso, Era o Hotel Cambridge não se coloca no lugar do naturalismo austero e sofrido que costumam ter os filmes que retratam os descasos com as questões sociais, talvez porque entre eles haja uma solidariedade, uma causa, a possibilidade de uma janela mais ampla, há o conviver, há o todo o dia, com respiros mais suaves mostrado com uma linguagem moderna, ritmada.

Os personagens são perseguidos por uma câmera que nunca fica muito longe deles, que captura suas almas, suas dores, sua prisão imposta pelas circunstâncias, ora com dor, ora com muito humor. Os planos se confundem permanentemente . É a verdade da verdade. Sim, quisera tudo não passasse de ficção, que a enorme quantidade de edifícios abandonados e espaços públicos ociosos no centro da cidade não fizessem parte da realidade e que todos os trabalhadores tivessem, como diz a constituição, o direito “desde o nascimento à comida, moradia, saúde e educação”.

“O que a gente sempre pensou é que a gente gostaria que esse filme não fosse um assunto só de cinema e cultura, que ele tivesse uma dimensão maior”, essa é uma afirmação da diretora, esse foi um dos princípios que parece ter norteado o trabalho e, o melhor, obtido êxito. O filme é uma declaração de urgência social, um duro olhar para a realidade, um poema escrito na dor das pessoas deixadas sem escolhas.

Era o Hotel Cambridge deixa claro em que país estamos, qual o tratamento que se dá por aqui aos indivíduos em situação vulnerável de existência, pessoas que estão ali bem perto da gente, trabalhando, dividindo as mesmas mazelas do país que gosta de ventilar aos quatros cantos que é pacifista. O país das guerras internas e silenciosas.

Eliane Caffé faz um filme que se interessa, discute e registra com verdade uma sociedade que nada oferece aos necessitados, instituições que não se responsabilizam pelos seus cidadãos, um cinema que é um documento sobre a expressão das massas destituídas, um retrato sobre a exclusão e o desamparo, a história de milhares de pessoas mundo afora, que teimam e continuam tendo esperança, como cita num trecho do filme um refugiado palestino, o poeta da ocupação ” Não chore pela água que saiu do seu leito. O destino do rio será sempre ser um rio”.

ERA O HOTEL CAMBRIDGE, 2016

Direção: Elaine Caffé

Estreia: 16 de março