Era uma vez a dama do terror

Considerada sucessora de Allan Poe, a russa Liudmila Petruchévskaia chega ao Brasil com contos de fadas assustadores

Cena de “A Colina Escarlate”, clássico do terror de Guillermo del Toro inspirado em obra de Allan Poe

Quando soube que um dos livros de Liudmila Petruchévskaia foi lançado em português no Brasil, fiquei com pé atrás. Primeiro porque prefiro prosas mais realistas, com assuntos do cotidiano, e Era uma Vez uma Mulher que Tentou Matar o Bebê da Vizinha foi descrito praticamente como literatura fantástica. Mesmo no que diz respeito a terror, gênero que amo, eu não consigo me prender a enredos fantasiosos. De qualquer forma, dei o braço a torcer, por ser apaixonado por tramas russas, e curioso há um tempo pelo trabalho de Petruchévskaia, cujo conto A Dama dos Cachorros foi traduzido por Graziela Schneider Urso e integrou a Nova Antologia do Conto Russo, em 2011. Aliás, não me canso de repetir o quanto esse trabalho de crítico me traz surpresas indescritíveis. Todos os meus conceitos pré-concebidos são desconstruídos com frequência. Dessa vez não foi diferente.

Esse livro é um retrato histórico da realidade, munido de licença poética. Com tendências pós-modernistas e narrativa que brinca com nosso psicológico, Era uma Vez uma Mulher que Tentou Matar o Bebê da Vizinha é recheado de contos ambientados na União Soviética, no cenário de guerra e repressão. Por lá, a obra de Petruchévskaia foi banida até o fim da década de 90. Enquanto o governo comunista exigia que os livros da época destacassem as glórias do regime, as histórias da escritora mostravam toda a tragédia por trás do poder. O que não falta em seus escritos são as dores de inúmeras gerações.

O que mais chama atenção, no entanto, é como ela conseguiu unir as histórias folclóricas com o caos do cotidiano. Ao contrário de outros livros do mesmo gênero — muito mal escritos — , no de Petruchévskaia não há furos nem lacunas. Ouso dizer, inclusive, que cada conto nos deixa com vontade de saber mais sobre as respectivas histórias. Algumas delas exigem do leitor um afiado raciocínio lógico. De todas, seria possível extrair um bom enredo para thrillers psicológicos, repletos de tensões, paranoias, mortes brutais, suspense, e daquela expectativa que nos fisga até o final de certos personagens. Órfãos, famílias desesperadas, viúvas, seres dominados por perdas, azar na vida, desgraças e pobreza extrema. Ainda assim, criaturas que lutam até o limite pela sobrevivência. Tudo com aquele ar sombrio de lenda urbana.

Não é à toa que a autora é tida como herdeira de Edgar Allan Poe, mestre do terror. Não é à toa que em 2002 ela recebeu o prêmio literário de maior prestígio na Rússia pelo conjunto de sua obra, além de ser conhecida como uma das melhores escritoras russas vivas, publicada em mais de 30 idiomas e comparada a Tchekhov.

Em 2017, ela lançou o livro de memórias The Girl from the Metropol Hotel, sobre sua infância no exuberante hotel de mesmo nome em Moscou. Saiu de lá aos três anos de idade, quando seu pai foi declarado inimigo do estado. Conheceu de perto a miséria e as trevas.

Mas nem assim se rendeu. E talvez por isso mesmo sua obra seja tão intensa. Como disse um artigo da revista Dissent, “as justaposições hábeis de Petruchévskaia produzem relâmpagos de luz. A resiliência e a engenhosidade atravessam a dificuldade, seja na forma de perdão ou amor. Tais traços de humanidade são mais austeros — e mais brilhantes — por causa da escuridão que os rodeia”.

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Era uma Vez uma Mulher que Tentou Matar o Bebê da Vizinha, de Liudmila Petruchévskaia. Tradução de Cecília Rosas. Companhia das Letras, 208 páginas. R$ 44,90

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