Escrever bem é escrever bem. Ponto.

Em vez de frequentar mesas redondas sobre a nova literatura finlandesa, sente a bunda na cadeira e escreva. Ou leia William Zinsser

Na casa-barco de E.B. White, apenas uma máquina de escrever, um cinzeiro e um barril (Foto: Jill Krementz)

Por Carlos Castelo

Uma das manias de nossa época são os cursos de escrita criativa. Conheço casos de candidatos a escribas que já fizeram vários desses workshops, mas nunca expeliram uma linha sequer de seu próprio projeto. Parece até que as aulas são desculpa para não cumprir o fazer literário.

“Fui ao curso, ouvi as dicas do mestre — nem sempre tão mestre assim… —, li as apostilas em casa, narrei meu conto aos colegas de classe em voz alta. Pra que publicar?”

De fato, não é simples parir uma obra. Em especial, a primeira. Mas enfiar a cabeça nas areias da teoria e, por vezes do achismo, não é o melhor caminho para tornar-se alguém que influencia os outros através de frases e parágrafos.

Lembro-me do conselho que recebi, há uns 20 anos, do diretor de cinema Ugo Giorgetti. Perguntei-lhe se deveria me inscrever num simpósio para aprender a desenvolver roteiros de longa-metragem.

– Nunca! — respondeu-me, secamente.

Indaguei-lhe como deveria proceder.

– Sente sua bunda numa cadeira e escreva a história — disparou.

O meu parecer não é tão direto ao ponto quanto o do realizador paulistano. Porém, também é pragmático: se quer aprender a escrever, esqueça as oficinas e leia agora Como Escrever Bem”, de William Zinsser (1922–2015).

Eu sei que, pelo título, o manual de escrita jornalística e de não-ficção do ex-professor da Yale pode parecer um daqueles compêndios de autoajuda para novatos desesperados. Mas está longe disso.

Se você o tivesse lido há uns tempos atrás nunca teria frequentado aquele seminário sobre a não-pontuação em José Saramago. Ou as previsíveis lições do coach que nunca escreveu um aforismo, mas é muito ligado a organizadores de mesas redondas sobre a nova literatura finlandesa.

Como Escrever Bem é um título visivelmente banal. Só que é bastante fiel ao que o autor se propõe: de um jeito simples, ensinar como passar a mensagem sem passar por afetado.

Já na abertura dos trabalhos, Zinsser menciona uma foto do autor E.B. White, grande estilista ianque do texto. O instantâneo mostra-o batucando num barco-casa. Está usando uma máquina de escrever, e os únicos outros objetos no local são um cinzeiro e um pequeno barril, que é a sua lixeira. Explica Zinsser:

“Muitas pessoas ligadas a diferentes facetas da minha vida — escritores e aspirantes a escritores, alunos e ex-alunos — já viram essa imagem… O que chama atenção delas é a simplicidade do quadro. White tem, ali, tudo de que necessita: um instrumento para a escrita, um pedaço de papel e um recipiente para as frases que não saíram do jeito que ele gostaria”.

Presentemente, com os computadores e smartphones, nem carecemos mais do barrilzinho.

Moral: leia o livro com atenção, depois sente a garupa numa cadeira e escreva a sua história.

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Como Escrever Bem, de William Zinsser. Três Estrelas, 278 páginas, R$ 49,90

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