Esperto, mas não canalha

O diretor Paulo Morelli fala de “Pedro Malasartes e o Duelo com a Morte”, filme que revê — com muitos efeitos especiais — o personagem do caipira safo

Vera Holtz, uma das parcas (foto: divulgação)

Por Rafael Spaca

Paulo Morelli é diretor, produtor, roteirista e um dos fundadores da já mítica O2 Filmes. Despontou com o curta-metragem Lápide (1997), com o qual ganhou prêmios de melhor filme em quatro festivais. Depois, uma sucessão de trabalhos, especialmente no cinema, que causaram alvoroço como Cidade dos Homens (2007) e, neste ano, Pedro Malasartes e o Duelo com a Morte. Nessa conversa, ele conta a respeito do seu processo de criação, do seu novo filme e também de publicidade, outra campo de atuação forte da O2.

Você disse que a ideia de Malasartes e o Duelo com a Morte é de 30 anos atrás. Como foi isso?

Há 30 anos, na época da produtora independente Olhar Eletrônico, desenvolvi um projeto de série de TV com 4 episódios sobre o folclore brasileiro. Um deles era a história que deu origem ao filme 30 anos depois. Na pesquisa que fiz para aquele projeto encontrei a figura do Pedro Malasartes de um lado e, de outro, um caso em que uma sujeito esperto enganava a Morte, girando a cama. Juntei um com o outro e daí nasceu o conto do homem tão esperto que engana até a morte.

Por que demorou tanto para concretizar o projeto?

O projeto original dos anos 80 não rolou. Nos anos 90, transformei o roteiro de meia hora em um roteiro de longa. Consegui uma parte do dinheiro, mas não o suficiente para realizar o filme. Então, no último ano antes de ter que devolver o dinheiro, criei outro roteiro e transferi os recursos. Desse jeito, fiz o filme Viva Voz, mais barato, feito em 16mm e rodado todo em São Paulo. Com isso, mais uma década se passou. Nos anos 2000, retomei o roteiro do Malasartes — justamente usando um prêmio que ganhei com o Viva Voz (um projeto alimentou o outro e vice-versa). Filmei em 2015, foram dois anos de pós-produção. Ufa!

O que você achou de As Aventuras de Malasartes, dirigido e estrelado por Mazzaropi?

Assisti nos anos 80 e gostei. Ele traz a ingenuidade e pureza do personagem, e fiquei feliz de ver que esse personagem encantador nos levou na mesma direção.

É possível compará-lo com o seu?

Sim, no sentido de que estávamos falando do mesmo brasileiro, esperto, mas não canalha.

O filme é considerado um “divisor de águas” dentro da O2 Filmes, que se notabilizou pela excelência na produção de filmes publicitários e longas-metragens. Por que tanta expectativa assim?

É um filme com muitos efeitos especiais. Isso gerou uma expectativa: seríamos capazes de fazer efeitos especiais de alta qualidade no Brasil? E a resposta é sim, somos capazes de fazer tão bem feito quanto e com menos dinheiro.

Um dos trunfos do filme foi a equipe que montou em todos os setores de produção. Como elabora a sua equipe de trabalho num filme? O que busca?

Parceiros, é isso que se busca. Fazer cinema é um ofício de paixão, não interessa trabalhar com pessoas que apenas são competentes no que fazem. O que interessa é agregar pessoas apaixonadas que vestem a camisa e entregam o seu melhor. Isso é uma boa equipe. E cabe ao diretor manter essa equipe motivada ao longo do processo. No cinema se diz: para se escolher qual trabalho vale a pena fazer, você analisa o projeto, a equipe e a grana. Tem de ter no mínimo dois para valer a pena. Como a grana costuma ser curta, melhor caprichar no projeto e na equipe.

Quando elabora um filme, o elenco de atores já surge em sua mente ou é um processo mais demorado até encontrar a pessoa certa para determinado papel?

A escolha do elenco deve partir do personagem principal. Uma vez que você achou o ator ou atriz protagonista, as outras peças começam a se encaixar. Quando o produtor de elenco, Chico Accioly, me apresentou o Jesuíta Barbosa, percebi que tinha encontrado o ator ideal. E tinha mesmo. Depois, foi só montar a rede em torno dele. Por exemplo, a Isis Valverde para o papel de Aurea, namorada de Malasartes, é a escolha ideal: os dois combinam perfeitamente compondo um par adorável. Cada personagem tem uma essência, e você deve ficar focado nisso. Para o Zé Candinho, filosófico otimista inspirado no Cândido de Voltaire, o Augusto Madeira; para o gigante violento Próspero, o Milhem Cortaz; para a Morte, papel difícil e complexo, escolhi um dos atores mais versáteis que conheço, o Julio Andrade; para o assistente da Morte, que entende tudo errado e permite a comédia deslanchar, o Leandro Hassum; para as Parcas gregas, primeiro a líder, a Cortadeira articuladora e ressentida, ninguém melhor que Vera Holtz; para a parca Tecedeira, obsessiva com o trabalho, a figura poderosa da Luciana Paes e por último, a beleza e leveza da Julia Ianina para fazer a parca Fiandeira, que fia os fios da vida.

Pedro Malasartes é um ingênuo que leva vantagem em suas peripécias. Qual personalidade da nossa política mais se aproxima de Malasartes?

Creio que nenhuma. Vejo o Malasartes como um esperto, mas com caráter. Um malandro com bom coração. E na política brasileira atual, só vejo canalhas, dissimulados, cínicos, hipócritas e mafiosos. Nenhum deles me representa. Existe algo de perverso na política brasileira que tem a capacidade de juntar as piores figuras, parece que quanto mais canalha, melhor. Todos são espertos mas sem nenhum caráter. Por isso, associar qualquer um deles ao Malasartes seria ofensivo ao personagem do nosso folclore.

Isis Valverde e Paulo Morelli (foto: André Brandão)

A produção foi rodada, em uma boa parte, dentro do estúdio, com paredes verdes como se fossem imensos chroma keys no qual os atores contracenam, mas principalmente imaginam o cenário de um mundo paralelo. É um processo pouco usual no cinema nacional, ou não?

Sim, é pouco usual, e esse foi o desafio, fazer algo que não tínhamos feito antes. E aí, a satisfação é maior ainda quando você vê que o produto final ficou melhor que o imaginado originalmente.

No estúdio houve muito estranhamento com todas essas novidades que apresentou em Malasartes e o Duelo com a Morte?

Não era tão novidade assim. Todos já tinham feito trabalhos em chroma key. A novidade era a dimensão da coisa. Esse era o desafio e desafios são motivadores.

Os atores tiveram que contracenar com dublês artificiais? Como o elenco se saiu diante desse desafio inédito nas produções fílmicas nacionais?

Os dublês digitais só entraram na pós-produção. Alguns planos são o que chamamos de full CG, ou seja, completamente realizados em computação gráfica, inclusive os personagens. Mas não houve interação de atores com dublês digitais. Os atores sempre contracenaram com atores. O que eles tinham que imaginar era o que existiria naquelas paredes verdes, mas atores são mestres em imaginar coisas, afinal o teatro é o lugar da imaginação e bons atores tiram isso de letra.

Fale também dos artifícios que usou com computação gráfica, sensores de captura de movimento e impressora 3D para o filme e o que pretendeu chegar com eles.

Não usamos sensores de movimento, apenas computação gráfica. Na animação dos dublês digitais usou-se a técnica de animação de movimentos na “unha”. O objetivo final era dar o maior realismo possível às cenas de efeitos.

Você está buscando uma nova metodologia de trabalho para as suas produções?

Esse trabalho foi um grande desafio, mas isso não vai se transformar numa metodologia para os meus filmes. Aliás, o próximo que estou escrevendo não tem uma única cena de efeito sequer. Cada história deve usar os recursos que a narrativa exige, não o contrário. O que manda é a história, sempre.

A tecnologia é um tema muito caro para você, que até criou um software para roteiristas. Por que ela te fascina tanto?

A tecnologia me fascina, mas não me aprisiona. A tecnologia está a serviço da narrativa, e só nessa medida a tecnologia me interessa. O mesmo se dá com o software que desenvolvi. Ele está a serviço de se contar melhores histórias. A tecnologia não é o objetivo final, é apenas o caminho para se chegar a esse objetivo.

O que a tecnologia permite fazer num filme e o que ela não dá conta?

Tecnologia é apoio, não deve ser finalidade. Deve ser recurso e não objetivo. Se você tiver uma boa história para contar, isso vai ficar claro, e a tecnologia vai naturalmente ocupar o papel a que se destina. O lado fascinante da tecnologia é que ela permite filmar coisas que seriam impossíveis tempos atrás, como prédios caindo, por exemplo. Ela permite criar mundos que não existam, permite filmar o infilmável, mergulhar em lugares reais ou imaginários que nunca antes foi possível vislumbrar. Com as novas tecnologias imersivas que já estão aí esses horizontes vão se expandir para além do impensável.

O que a tecnologia não supre é exatamente o mais importante, a história. Sem uma boa história, não há filme — com efeitos ou não — que sobreviva.

Há espaço para a continuação da história. Pensa numa trilogia ou série para a tevê tendo Pedro Malasartes como protagonista?

Sim, há muito espaço para uma continuação. E isso está no radar, mas ainda não está em desenvolvimento. Mais pra frente, quem sabe. Mas se for desenvolver um Malasartes 2 será mais caipira e menos fantástico. Existem dezenas de histórias e causos do Malasartes a serem contados.

Em todos os lugares que se falou do filme houve uma menção que “é o longa nacional com o maior número de efeitos especiais da história do cinema brasileiro, com 40% das cenas geradas por computação”. Isso, de certa forma, não acaba limitando o que realmente é o filme?

É fato que o filme tem essa característica de ser a produção nacional com maior número de efeitos especiais. Mas acho que a riqueza do filme está muito mais no resgate do mundo rural e do brasileiro esperto e ético ao mesmo tempo. Antes de tudo, o filme é sobre questões humanas como liberdade e destino, vida e morte, esperteza e integridade, e não sobre efeitos especiais. Mas a imprensa escolheu ressaltar os efeitos e a tecnologia e falou pouco sobre o que considero a essência do filme: o embate entre o livre-arbítrio e o determinismo num ambiente rural em tom de fábula, onde o personagem do nosso folclore tenta reescrever seu destino e escapar da morte. Pedro Malasartes, imortalizado no nosso imaginário como o mais esperto dos homens, cumpre seu destino.

A O2 Filmes, além dos projetos da equipe, também participa de projetos de outras produtoras — um exemplo é que ela não faz blockbuster de comédia, mas todos os blockbusters de comédia passaram por lá. Como se dá essa relação?

A O2 Pós é um departamento da produtora que presta serviços para o mercado. E por ali já passaram dezenas de filmes brasileiros de todos os tipos. Nesses casos, o que as produtoras do mercado procuram é uma empresa parceira na finalização, e essa parceria se baseia antes de tudo na qualidade do trabalho de pós-produção.

Há algum tema/gênero que vocês jamais focariam em fazer um filme?

Por princípio não. O que vale são as boas histórias, e elas podem aparecer em qualquer gênero. Creio que o que se deve levar em conta são duas coisas: a relevância do tema, e a qualidade da história em si. Se o projeto tiver essas duas qualidades, passa a ser um candidato a ser produzido.

A 02 Filmes continua forte na publicidade?

Sim, uma coisa não elimina a outra, pelo contrário. Fazer publicidade está na nossa formação e ficamos muito satisfeitos em ser uma boa produtora de comerciais. Sem dúvida, continuamos muito interessados na publicidade. O fato de termos nos dedicado a fazer filmes e séries deve ser entendido como um caminho natural. Fazer ficção, contar histórias, esse é o nosso DNA. Pode ser em duas horas, em episódios de 30 minutos ou em 30 segundos.

No mundo de hoje, a publicidade perdeu importância?

A publicidade está se transformando. Cada vez mais, vemos peças publicitárias que flertam com a narrativa e têm conseguido bons resultados com isso. Vejam o caso da Antarctica com suas webséries. Mas o jogo está mudando. Com a possibilidade de dar “skip” em comerciais, e com cada vez mais pessoas assinando canais de entretenimento (onde não há comerciais), a publicidade vai ter que encontrar seu espaço. O que nunca vai deixar de ter espaço é a necessidade que as pessoas tem de ouvir histórias. Não importa em que formato e em que mídia. Histórias são “equipamentos de sobrevivência” como dizem alguns autores. As pessoas precisam ouvir histórias. Não é uma questão de gostar, mas de precisar, e por isso, ouvir histórias é algo que não vão acabar nunca. A publicidade deve perceber isso e se aproximar do contar histórias para passar sua mensagem. Mas sinto a publicidade viver um dilema nesse ponto: se o que atrai na ficção são os momentos em que personagens sofrem e lutam, na publicidade como a conhecemos agora, o que geralmente se exibe é o contrário disso: pessoas sempre felizes, sorridentes e vitoriosas. Será que a publicidade vai ter coragem de se aproximar de fato do drama, o lado denso da existência, ou a tendência vai ser mostrar sempre o lado solar da vida? Talvez a resposta seja um meio-termo, nem tanto ao céu, nem tanto à terra.

A Olhar Eletrônico será objeto de um documentário. Quem está dirigindo e qual a importância dela para o que vocês se tornaram hoje?

O documentário está sendo feito pelo Kiko Mollica, e está em pleno desenvolvimento. A Olhar Eletrônico foi nossa escola e pós-graduação. Trabalho em grupo, estudo coletivo e sala de experiências. Tem pessoas que vão para Harvard fazer um MBA. Nós fizemos nossa formação aqui mesmo, na praça Benedito Calixto, nos anos 80. Uma pequena geração se formou nessa turbulenta e inquieta produtora, onde cada um era roteirista, diretor, cameraman e editor de suas matérias.

Você tem ideia de levar Malasartes e o Duelo com a Morte para o exterior, lançar em IMAX. Saindo do campo tecnológico do filme, mas indo para a história central, acha que é uma temática que pode agradar os gringos? Isso é factível?

A ideia é boa. Creio que poderia fazer sentido para plateias de fora do Brasil, afinal, os temas são universais, mostrados dentro da nossa “vila”.

Alcançou todos os seus objetivos com Malasartes e o Duelo com a Morte?

Sim, estou realizado.

Faltam fábulas no cinema nacional? Acredita que o público deseja sonhar mais numa sala de cinema?

Há um autor australiano, Allen Palmer, que diz que as pessoas gostar de ouvir histórias porque assim sentem o “arrebatamento de estar vivo”. Talvez seja isso que acontece numa sala de cinema. E isso não tem fim, as pessoas sempre vão querer mais, porque afinal é disso que se trata. O que acontece numa sala de cinema também pode ser descrito como “emoção estética” que é quando acontece o pensamento e a emoção ao mesmo tempo. Uma boa história bem contada pode provocar epifanias no público.

Qual a próxima história a ser contada?

Uma história sobre caráter e os seus limites. Como um idealista se comportaria ao se ver envolvido num esquema de corrupção e não pudesse sair?

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