Fé e ayahuasca

Livro de estreia de Paula Picarelli relata a vida de uma atriz ao entrar em controversa seita religiosa

Paula Picarelli

Sempre que Paula Picarelli aparecia em cena como Rafaela, em Mulheres Apaixonadas (2003), minha mãe e eu comentávamos que tinha algo diferente naquela garota que fazia par romântico com Alinne Moraes. Era como se ela não estivesse ali de corpo e alma, os traços do seu semblante diziam isso. Ou, talvez, fosse algo inexplicável relacionado à energia da atriz. O que, obviamente, só faz sentido se você acredita nessas coisas. Agora, lendo seu recém-lançado romance, Seita, a sensação que eu tinha ao assisti-la na novela de Manoel Carlos passou a fazer todo sentido.

No livro — de ficção, segundo a autora — acompanhamos uma atriz homônima, com uma vida como a de tantas colegas de sua idade, que entra para um culto religioso, o Portal da Divina Luz, ao ponto desse envolvimento passar a interferir em sua rotina de todas as formas, desde os projetos profissionais que ela aceitava pegar ou não, até os relacionamentos afetivos. Ficamos sabendo, por exemplo, como era o núcleo familiar da personagem, quais as ideologias e crenças com as quais ela foi criada, e no que passou a acreditar (ou desacreditar) após ingressar naquela seita. Além do lado menos-glamoroso da celebridade e das inseguranças do trabalho de artista, vários dilemas de sua geração vem à tona.

Com narrativa leve e despretensiosa — ponto positivo para escritoras iniciantes, que, em muitos casos, pecam ao adotar linguagem complicada pra pagar de intelectual — , Paula lembra outras duas protagonistas de tramas parecidas. A primeira é Athena, do livro A Bruxa de Portobello, a controversa obra de Paulo Coelho; e a segunda, Alina, do romance As Perguntas, de Antônio Xerxenesky. No entanto, ao contrário dessa última, que poderia aprofundar mais o debate sobre convicções religiosas, Paula não deixa nada a desejar. Ao contrário!

Vemos essa intrigante discussão direta e indiretamente, em diferentes nuances e facetas. Desde a maneira cega e ingênua como acreditamos que certa crença pode dar respostas ao que acontece no nosso dia a dia, até o duro momento em que constatamos (ou sempre soubemos) que aquilo não faz sentido algum. Que, às vezes, é puro jogo de manipulação. Tudo depende do seu ponto de vista, da sua fé — ou da falta dela. Neste livro, temos todas as etapas, pela ótica de alguém que foi de quase sacerdotisa, à cética ateia.

Por sinal, é louvável como ela conseguiu tirar o foco da curiosidade no que diz respeito à veracidade dos fatos. No começo, a pergunta constante é sobre o que é ficção, e o que é a vida real da autora. Ao longo das páginas, aparecem alguns momentos de realidade que o Brasil presenciou: temos uma passagem sobre a morte do cartunista Glauco e seu filho, Raoni, no caso chocante que envolveu uma comunidade de Santo Daime e gerou ainda mais polêmica em torno da ayahuasca —substância, aliás, presente em todo o livro.

E temos um capítulo sobre o trabalho da personagem numa novela na maior emissora do país, no papel da estudante lésbica que faz par romântico com a atriz que se tornaria, anos depois, uma das grandes estrelas de sua geração. Obviamente, uma alusão ao trabalho que eu citei no início do texto. Com edição primorosa, o livro faz com que, nessa altura do enredo, não importe mais se é ficção ou vida real. Tudo o que se consegue pensar é sobre o charlatanismo religioso e a respeito das próprias crenças — sejam elas numa cartomante, num culto evangélico, no hinduísmo ou num ritual de coco embaixo da cama.

Com ótima estreia na literatura, Paula Picarelli escreveu uma história que, de início, passa a impressão de que vai ser apenas mais um livro superficial, sem muito a acrescentar. Felizmente, tudo melhora no decorrer das páginas. E, no fim, faz o leitor questionar sua confiança até na mais fervorosa doutrina.

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Seita, de Paula Picarelli. Editora Planeta, 224 págs., R$ 39,90.

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