“Faço o que acho correto”

Na série de entrevistas com grandes quadrinistas brasileiros, Rafael Spaca fala de desenho e militância política com Bira Dantas

Por Rafael Spaca

Quando você descobriu que desenhar era uma paixão?

Minha mãe diz que eu comecei a desenhar nas paredes de casa (com os meus 5 anos, em 1968) e, antes que decorasse a sala inteira, resolveram me dar folhas de papel. Eu lembro mesmo dos meus 8, 9 anos, quando copiava personagens do Globinho, suplemento em quadrinhos de O Globo, que meu pai comprava aos domingos. Eu adorava aquilo: Asterix, Tarzan, Flash Gordon, Recruta Zero, Hagar. E adorava animações da Marvel e seriados na TV. Passava tardes assistindo e desenhando. Aos 11, comecei a criar meus super-heróis e a fazer gibis. Guardei uma boa parte disso.

E quando você que descobriu que a paixão era um talento seu e que poderia trabalhar seriamente nisso?

Com uns 15 anos, fiz um trabalho de inglês pra minha prima Goya. Era uma adaptação em quadrinhos de um conto do livro The Silver Elephant. Minha prima tirou 10. No mês seguinte, dois colegas dela pediram pra eu fazer. Mudei o estilo e fiz três adaptações. E ganhei por dois frilas. O professor sabia que não eram os alunos que desenhavam tudo aquilo, mas continuava dando nota pra eles. No fim do ano fiz umas oito adaptações e achei que podia viver de desenho. Em 1977 publiquei HQs por duas vezes na seção Futuro artista da Folhinha de S.Paulo, editada pela jornalista Eunice Veiga. Liguei pra ela e marcamos uma visita ao estúdio Mauricio de Sousa, com minha mãe e a prima Goya. Mauricio foi muito simpático, me apresentou o seu diretor de arte, Jayme Cortez, e me ofereceu um estágio à distância. Conhecer o Cortez e ganhar o seu Zodíako e A Técnica do Desenho mudaram minha vida.

Quando começou a desenhar achava que conseguiria viver com desenho?

Um belo dia de 1979 minha mãe abre o jornal e vê um anúncio de estágio para desenhistas com ou sem experiência. E gritou: “Sem experiência é você, filho!” Lá fui eu conhecer o estúdio do Ely Barbosa na av. Indianópolis, zona sul de São Paulo. Era do outro lado da cidade. Eu morava no Tatuapé, na zona leste. Foi uma experiência única. Eu era um cara de 17 anos, doido pra trabalhar com quadrinhos, só tinha desenhado super-heróis até então. O Ely Barbosa produzia animações para o Baú do Silvio Santos, gibis Festival Hanna-Barbera pra Rio Gráfica (atual editora Globo), Os Trapalhões (editora Bloch) e o programa Turma Tutti-Fruti pra TV. No estúdio fui acompanhando a produção de roteiros, desenho, arte-final, letreiramento, guia de cores pintados com ecoline e pintura de capas com guache. Mas logo em seguida virei assistente do Mestre Eduardo Vetillo, que desenhava Hanna-Barbera. Os Trapalhões, Disney, Chet e Spectreman.

E hoje, já consagrado, é possível dizer que consegue viver desenhando? Se sim, é fácil?

Sim, é possível. Eu trabalho pra quatro sindicatos e duas agências, fazendo charges, tiras e ilustrações. Mas não é fácil. E nesse momento de crise, com os preços subindo (apesar da imprensa continuar alegando que existe “deflação” no governo temeroso), o cinto apertou, e a necessidade de buscar outros frilas ou atividades como dar aulas e cantar na banda Tio’s Rex, pode ser uma saída.

Teve a oportunidade de se aperfeiçoar em alguma escola ou faculdade?

Eu fiz curso de Editoração de HQs na ECA-USP e Design Gráfico na Arquitech, em Campinas. Sou jornalista, sem curso superior.

Como o desenho era visto na sua família?

De uma forma muito positiva. Sempre me deram a maior força. Aos 11 anos, minha mãe mostrava meus gibis pra todo mundo, e acabei tendo boas conversas sobre arte, a vida no sertão nordestino, cinema e outras culturas. Com meus 13 anos passava horas debruçado, lendo gibis, fascículos de Brasil História, Costumes e Lendas, Mitologia Grega, Fauna da Salvat e Enciclopaedia Britannica. Eles achavam normal. Clovis, meu irmão mais velho, tinha me matriculado num curso de inglês (ele achava que era importante saber uma segunda língua) aos 13 anos e, aos 18, me deu uma prancheta com banquinho e luminária. Foi quando comecei a desenhar Os Trapalhões.

Em 1979 você estagiou no Estúdio Ely Barbosa, onde foi assistente do desenhista Eduardo Vetillo e passou a desenhar para a revista Os Trapalhões. Ali foi sua primeira oportunidade profissional?

Sim. O Vetillo já era um artista completo que dominava o lápis, o bico de pena, a pintura em guache, ecoline, os quadrinhos, as ilustrações, desenho acadêmico e o cartunesco. E nessa etapa eu recebia um valor por página que eu passava a limpo. O Vetillo fazia o desenho num gabarito A3 de papel sulfite, e eu copiava numa folha de papel Schoeller na mesa de luz, fazendo as correções que ele indicava. Esse trabalho de um ano me abriu as portas pra virar desenhista dos Trapalhões e alavancar minha carreira.

Os anos 70 e 80 foram o período de ouro das HQs nacionais? Se sim, por quê?

A resposta é longa. Acho que a Era de Ouro foi dos anos 50 a 70, quando Jayme Cortez e Miguel Penteado fundaram a Editora Continental com revistas 100% nacionais, que geraram emprego para muitos quadrinhistas daquela época. Todas revistas tinham uma tarja verde-amarela na capa “Escrita e desenhada no Brasil”. Fundaram a ADesp (Associação dos Desenhistas do Estado de São Paulo) e a ABD (Associação Brasileira de Desenhistas), produziram dezenas de Quadrinhos de Terror e Combate, grande sucesso entre os leitores brasileiros, as vendas eram gigantescas. Em 1957 chegou às bancas pela RGE a revista Jerônimo, o Herói do Sertão, com desenhos do Edmundo Rodrigues. A revista fez tanto sucesso que durou 93 edições (até 1966). Em 1959, Mauricio de Sousa lançou a Turma da Mônica e seu sucesso editorial nunca foi suplantado por ninguém (nem Disney, nem os Super-Heróis Marvel e DC, nem TEX, nem todos eles juntos). Dessa época também são notórias as revistas do super-herói brasileiro Capitão 7 (Aires Brito, Jayme Cortez, Getulio Delphim, Shimamoto, Juarez Odilon, Osvaldo Talo, Sérgio Lima, Jitahi, Gedeone Malagola, Helena Fonseca e Hélio Porto), O Anjo (Flavio Colin) e Fidêncio, o Gaúcho (Julio Shimamoto). São marcantes também, as revistas de humor como Fuzarca e Torresmo, Arrelia e Pimentinha, Mazzaropi, Oscarito e Grande Otelo, Carequinha Fred e Cacareco (com Jayme Cortez, Shimamoto, Sérgio Lima e João Baptista Queiroz). Em 1964, com o Golpe militar, a Turma do Pererê do Ziraldo é censurada e cancelada pela Abril.

Outras editoras também marcaram esta época como Cruzeiro, Rio Gráfica, Ebal, Outubro, La Selva, Penteado, GEP, Prelúdio, Taika, Abril e Edrel. Esta última iria continuar com um novo nome: Grafipar.

A Era de Prata aconteceu em meados de 70. Edmundo Rodrigues que tinha publicado seu Jerônimo, se tornou editor da Bloch, publicando os super-heróis importados da Marvel, revistas de Terror, Os Trapalhões e Spectreman, com desenhistas brasileiros (como os veteranos Eduardo Vetillo, Watson Portela, Bonini, João Baptista Queiroz, Kymura, Borges e Sérgio Lima, com os quais tive o prazer de trabalhar).

De 1978 a 1983, Faruk El-Khatib e Claudio Seto (que foi da Edrel) fundaram a Grafipar, também perseguidos pela ditadura militar que usurpou o poder em 1964. Seto publicou quadrinhistas como Bonini, Franco de Rosa (que depois viraria editor na Press Editorial, Nova Sampa e Mythos), Gustavo Machado, Watson Portela, Flávio Colin, Carlos Chagas, Nelson Padrella, Ataíde Brás, Júlio Emílio Brás, Mozart Couto e o poeta Paulo Leminski e produziram centenas de revistas até serem derrotados pela crise econômica. O Pasquim teve grande importância ao publicar cartunistas que mudariam os quadrinhos novamente, influenciando a nova geração que publicaria revistas underground, (fanzines Balão, Boca, Papagaio com nomes como Paulo e Chico Caruso, Laerte, Luiz Gê, Gualberto, Flavio Del Carlo, Dagomir Marquezi e Marcatti). Henfil publicou seus Fradins pela Codecri e Edgar Vasques publicou seu Rango pela LPM. A revista Spektro (Vecchi) editada pelo Ota, teve Watson, Shima, Elmano e muitos outros e chegou a vender mais de 40 mil exemplares por mês (de 1977 a 82).

Nos anos 80 tivemos Fofura, Patrícia e O Gordo (Ely Barbosa, editora Abril), Mestres do Terror e Calafrio (Editora D-Arte com Zalla, Colonnese e muitos outros), Press Editorial (Paulo Paiva, Franco de Rosa e Gualberto lançaram Maciota, Radar, Monga e muitas outras revistas), Sítio do Picapau Amarelo (RGE Gustavo Machado, Murilo Marques Moutinho, César Lobo), Bundha (Newton Foot), Niquel Náusea (Fernando Gonsales e Spacca), Tralha (Marcatti, Baraldi, Mutarelli e eu), Porrada (editora Vidente) e a Circo Editorial, que apareceu em 1985 (lançando Glauco, Laerte, Angeli e Luiz Gê) e foi, a meu ver, o fim da Era de Prata.

Em 1988 a Abril lançou Os Trapalhões numa versão infantil (editada por Primaggio Mantovi, com César Sandoval, Marcelo Cassaro, Watson Portela, Bonini, Gustavo Machado, Paulo Borges e muitos outros) e Senninha (Rogério Martins). Tivemos ainda os gibis do Sergio Malandro, Faustão, Xuxa, Angélica, Leandro e Leonardo. Nos anos 90 tivemos uma redução de quadrinhos brasileiros em bancas. Ainda assim, em 1998 surge a Opera Graphica, que lança muitos álbuns de quadrinhistas brasileiros (Zalla, Colonnese, Shima, Seabra, Marcatti) e o selo Graphic Talents. Smilinguido, Menino Maluquinho, Patrícia e a série especial da Abril marcaram o fim dessa Era. Quem continua firme e forte é o MSP com Turma da Mônica Jovem, Mônica, Cascão, Chico Bento e a série de Graphic Novels por outros autores.

Como conseguiu o estágio Ely Barbosa? Apresentou alguns trabalhos para o estúdio?

Sim. Levei as páginas que tinha produzido pro estágio no Mauricio de Sousa, meus quadrinhos de Super-heróis e a adaptação de O Guarani que tinha feito pra escola, num traço acadêmico.

Qual era a sensação de trabalhar em um estúdio de criação? Como era o ambiente lá?

Como eu disse, eu me sentia no paraíso. Passava no estúdio do Ely Barbosa duas vezes por semana pra pegar roteiros pra desenhar. Conversava com o pessoal da arte, encontrava outros free-lancers que passavam por lá. Via os livreiros-andantes que levavam livros de arte pra vender (mas eu nunca tinha grana, só dava pros gibis de banca mesmo). O Ely era um cara muito boa-praça. Sarrista, me chamava de “vermelho” por eu ser petista. Tinha um acervo de Quadrinhos e Arte que liberava pra gente estudar. Ele era muito voltado pro merchandising dos personagens e tinha sempre gente famosa lá (Matilde Mastrangi, Éder Jofre, Marthus Mathias, dublador do Fred Flintstone nos desenhos e Otávio Mesquita). Mas o legal mesmo era encontrar Mingo, Genival, Pontes, Cidão, Sérgio Vallezin, Cleyton Caffeu, Vetillo, João Batista Queiroz, Sérgio Lima, Bonini, Watson Portela, José Lanzelotti, Vila, Arthur Garcia, Wanderley Feliciano e Orlando Costa por lá. O estúdio fervilhava de ideias.

Hoje existem poucos estúdios, Mauricio de Sousa é uma exceção. O que um desenhista perde e ganha em trabalhar em um estúdio?

A gente perdia em identificação, já que a gente não podia assinar as HQs. Perde também em traço, pois o estilo a seguir é pré-determinado. Mas o estúdio Ely Barbosa tinha um jogo de cintura, oferecendo uma liberdade de estilos que nunca vi nos outros estúdios, onde você tem que seguir à risca o model sheet. Lá, o Ely liberava pra cada um mostrar seu traço.

Porém, trabalhar em “linha de montagem” agiliza o processo de produção (como já havia demonstrado o estadunidense Ford). Eu fazia entre 40 e 50 páginas a lápis por mês. Vetillo fazia mais de 100. Eu nunca consegui produzir isso depois. Quando desenhei Memórias de um Sargento de Milícias (com roteiro da Índigo e cores do Maurilio DNA e Caio) fizemos 56 páginas em 2 meses. E foi uma produção recorde em rapidez.

Voltando aos estúdios: a gente não participava do processo de arte-final e, às vezes, quando se pegava o gibi impresso, o traço não era bem o nosso. Eu cheguei a escrever roteiros, numa época que vários saíram do estúdio. O roteirista que mais produzia era Vallezin, caseiro do Ely, uma espécie de faz-tudo. Ele era tão criativo e piadista que o Ely o incentivou a escrever roteiros, o que ele passou a fazer com eficiência e rapidez. Foi pro SBT e escreve quadros de humor até hoje.

Em 1982 você foi contratado como chargista pelo Sindicato dos Químicos de São Paulo. Como surgiu o convite, o que fazia lá?

Eu era chargista-militante nas horas vagas, apoiava várias oposições sindicais e ia muito no Sindicato dos Bancários de São Paulo, onde conheci o chargista Éton e o jornalista Valdeci Verdelho, com quem fiz os boletins de campanha da Oposição dos Químicos. Eles ganharam a eleição, contrataram o Valdeci pra montar um departamento de imprensa, o Joaquim Carvalho como produtor gráfico, e eu, como chargista. Entrei ganhando o piso de jornalista (triplo do que eu ganhava como frila nos Trapalhões), trabalhando cinco horas por dia (metade da minha jornada como quadrinista) e tendo tempo de pesquisar os assuntos pra satirizar. Eu chegava no Sindicato dos Químicos às 14h, lia os jornais do dia, discutia a pauta e ia pra prancheta. Ficava até as 19h, quando saía pros Cineclubes do Bexiga, Oscarito, Cinema Belas Artes, Centro Cultural Vergueiro, Gibiteca Henfil, Bar Avenida e Madame Satã.

Foi nesse período que você trabalhou no Estúdio Briquet, fazendo animação? Como foi o trabalho lá?

Trabalhando apenas cinco horas por dia, eu tinha muito tempo vago e já tinha falado com o Spacca da minha vontade de trabalhar com desenho animado. Ele era animador no estúdio do Briquet (que tinha clientes como Cepacol, Danone, Maritel e muitos outros) e me falava muito de lá. Mas quem me indicou pra ser intervalador (quem faz todas as cenas intermediárias de uma animação) foi o Cleiton Caffeu, com quem eu tinha trabalhado no estúdio do Ely. Ele adorava o Mort Drucker da MAD e fazia caricas de todo mundo no estúdio. Ele e Vetillo foram responsáveis por eu gostar tanto de caricaturas. O Briquet me ofereceu um estágio. Depois de duas semanas, peguei o jeito e estava apto a trabalhar na equipe. Tirei férias no sindicato e trabalhei um mês intenso. Das 9h às 21h, fim de semana incluso. Em um mês produzimos três curtas (Ursinhos da Maritel, Bond Boca e o sobrinho, Flintstones pra Danone). No estúdio, além do mestre-ilustrador Briquet, Spacca e Caffeu, nomes como Caldeirão, Sandro Cleuzo, Luiz Canton Junior, Gustavo Machado, Alexandre Calheiros e o Gaúcho. O Briquet tinha um sistema de xerox em acetato, o que barateava o custo. Ele não precisava fazer fotolito das animações em papel. E não precisava fazer arte-final, já que o traço grosso a lápis era fotocopiado escuro e deixava o desenho solto, mas com traço firme. Isso tudo era pintado no verso do acetato, ganhava a dublagem depois. Trabalhei feito um cão e ganhei metade do salário de jornalista. O Briquet me convidou a continuar lá, mas disse que eu tinha dois problemas: conversava muito e tinha outros interesses como charge e quadrinhos (ele esqueceu da baixa remuneração do intervalador). Pra ele o animador tem que se dedicar exclusivamente a animação. Agradeci pela experiência, declinei do convite e novamente optei pelo trabalho como chargista.

Foi a partir desta experiência que você começou a produzir charges em panfletos, boletins e jornais de sindicatos e da CUT?

Na verdade, foi anterior. Os boletins faziam parte da minha vida desde 1980. Essa militância gráfica começa paralela à minha entrada no gibi dos Trapalhões. Na exposição Mestres Daqui, inaugurada no ateliê Folha em Campinas, é possível ver este meu início na charge, com o traço ainda incipiente e bem “quadrinhos”.

Nesses sindicatos você tinha liberdade editorial ou era pautado para fazer os desenhos?

No primeiro ano de Sindiluta (boletim diário do Sindicato dos Químicos) minhas charges ilustravam as matérias, portanto era pautado. Neste começo eu tinha um pouco de dificuldade pra entender os meandros da economia, detalhes da CLT e das relações entre sindicato, categoria e empresários. No segundo ano, ganhei um espaço de charge editorial, na parte de cima do boletim, ao lado do logotipo. E sempre tive total liberdade na escolha dos temas e nunca tive uma charge censurada ou “derrubada”.

É interessante lembrar que quando os militares deram o Golpe em 1964 e tornaram os partidos de esquerda ilegais, prenderam, torturaram e mataram milhares de suspeitos de “subversão” e atacaram TODAS as esferas onde houvesse algum foco de oposição ao regime. Proibiram todo tipo de reunião e até grupo de oração foi considerado subversivo.

Centenas de sindicatos tiveram intervenção militar (como Bancários, Gráficos, Químicos de SP). Suas diretorias — eleitas democraticamente por suas categorias profissionais — foram depostas, os diretores (PTB, PCB, PCdoB) foram presos e torturados. Em seus lugares, os militares implantaram homens ligados ao regime: policiais, burocratas, tecnocratas, pessoas que nada tinha a ver com a categoria, seus anseios ou lutas. Estes interventores chamados de pelegos (termo gaúcho pra manta de pelo que fica entre a sela e o corpo do cavalo, pra amaciar) passaram a ter contato direto com as empresas (inclusive passando informações para serem fichados no Dops e outros órgãos de repressão), cortando qualquer vínculo com os trabalhadores, que não importavam! Em meados dos anos 70, as lideranças sobreviventes tentaram voltar aos seus cargos, mas as empresas (como Banco do Brasil, Volkswagen, Correios, Mercedes Benz) alegavam que eles “abandonaram” os postos de trabalho e foram demitidos por justa causa. Neste momento os oposicionistas se dividiram: as lideranças do PCB alegavam que deviam retomar estes sindicatos aliando-se aos pelegos para, aos poucos, ganharem espaço interno. Fizeram isto no Sindicato dos Metalúrgicos e Eletricitários de São Paulo. Os combativos (que formariam o PT, PDT, PCdoB) queriam fazer trabalho de base, com boletins por empresa e na eleição, bater de frente com os pelegos. Chapa contra chapa. Começou no Brasil inteiro um movimento pela retomada destes sindicatos. Foi aí que entrei com minha arte militante.

Os pelegos recebiam vultuosas propinas dos empresários para evitar greves ou movimentos de oposição sindical. Muitos dissídios eram decididos em churrascarias como a antiga Laço de Ouro, em Sampa. E tinham apoio para fraudar as eleições, mudando urnas, corrompendo mesários de apuração. Eu vi e vivi tudo isso. E os pelegos começaram a ser expulsos no Brasil todo. A primeira coisa que este novo sindicalismo trouxe foi a comunicação sindical direta com a Base.

Esse sindicalismo combativo (que viria a fundar a CUT em 1985) era contra o imposto sindical (que encastelou os pelegos durante tanto tempo) e fazia a devolução desta taxa aos trabalhadores. O Sinergia de Campinas há mais de uma década conseguiu a suspensão do desconto compulsório por considerar que o trabalhador deve apoiar o sindicato de forma consciente.

Por que o sindicalismo sempre te interessou?

Minha militância vem de 1979, o período do final da ditadura militar. Os sindicatos do campo e da cidade, associações de bairros, Movimento contra a Carestia, Pastoral Operária e da Juventude eram nossos espaços de luta. O Brasil vivia o bipartidarismo da Arena (partido dos apoiadores do regime totalitário) e MDB (oposição). A dita “abertura lenta e gradual” iniciada em 1974 desemboca na liberdade de criação de partidos em 1980. Mas neste mesmo ano os militares ainda vinham praticando intervenções em sindicatos combativos, prisões de lideranças e atos terroristas, como o envio de dezenas de bombas (atentado ao Rio-Centro no show do 1º de Maio, hotel de Brizola, comícios do PMDB, jornais Em Tempo, Tribuna Operária, da Imprensa, Gráfica Americana e várias bancas de jornais que vendiam os jornais independentes Pasquim, Movimento, Opinião, entre outros). Os sindicatos pelegos (bem relacionados com as empresas) não apareciam nas portas de fábricas e lançavam apenas um jornal anual com o resultado do dissídio coletivo, tinham policiais como assessores pra fraudar eleições e entregar lideranças de oposição, demitidas sumariamente. Montar uma chapa de oposição era difícil na época. Enquanto eu desenhava o gibi dos Trapalhões, eu acompanhava estes combatentes diários das atrocidades de um regime ditatorial. Eu admirava, apoiava e doava meu trabalho como contribuição pra luta. Foi assim que conheci o cartunista Éton.

Como disse, naquela época eram poucos sindicatos combativos. Meu primo Paulo Dantas era diretor de um desses poucos, o Sindicato dos Bancários. Como ele viu que eu me interessava por charges e caricaturas me deu sua coleção de Pasquim, Movimento e Opinião para eu pesquisar as charges. Assim conheci chargistas como Henfil, Ziraldo, Fortuna, Jaguar, Laerte, Paulo Caruso, Maringoni, Fausto, Luiz Gê, Ohi, Jayme Leão, Magnani.

O Paulo me levou pra conhecer o Éton (Edson Dias) em 1981 e foi o primeiro chargista que conheci em carne e osso. Ele comentou meu trabalho e deu dicas preciosas sobre estilo, referências e de como montar um acervo de caricaturas, charges, fotos e ilustrações catalogadas e coladas em folhas de papel sulfite. Ele era excelente no lápis, nanquim e na capoeira. Ótimo caricaturista, dominava o bico-de-pena, fazendo perspectivas complexas para ambientar suas charges. Mantinha um arquivo com referências fotográficas de quase tudo e lia muito. Lembro de sua mochila cheia de cópias de artigos de jornal, matérias de conjuntura política e econômica que ele lia no trem, indo pra casa, em Osasco. Fazia dezenas de trabalhos ao mesmo tempo, frilas para outros sindicatos (Marceneiros, Condutores, Federação Nacional do Transporte, Oboré, revista Alô Mundo e Gazeta de Pinheiros) e ainda se dedicava à pintura a óleo.

Antes, quando trabalhava nos Correios, foi preso por sua militância de esquerda (ficou na cela do Dops onde torturaram e mataram o jornalista Wlado) e demitido em uma greve da categoria. Era fã do Pasquim e do Henfil e já fazia suas charges e quadrinhos. Desempregado, dedicou-se ao cartum sindical até recentemente, quando ganhou processo contra os Correios e voltou a trabalhar como carteiro.

Como está a Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas de São Paulo, as condições hoje são melhores do que antes?

Bem, foi este mesmo Éton quem me falou da AQC e das reuniões no Sindicato dos Jornalistas, em Sampa. Em 1984 a diretoria era composta pelos quadrinhistas, chargistas e fanzineiros Gualberto, Jal, Franco de Rosa, Maringoni, Laerte, Paulo Caruso, Worney de Almeida, Eduardo Vetillo, Jayme Cortez, Conceição Cahú, Spacca, Marcatti, Guida, Mikio, Floreal, Mastrotti, Calazans e eu. As reuniões discutiam questões da categoria e implementavam projetos como a revista Cometa Humor (do cometa Halley), Cartilha do Direito Autoral (Flavio Calazans) e o Catálogo da AQC. O Troféu Angelo Agostini era a marca da associação, e a participação na Campanha das Diretas Já, com o gigante boneco de Teotônio Vilela foi estampada nas capas de jornais e revistas do Brasil. Chegamos a ter assembleias com mais de 100 pessoas. Vivíamos a Era de Prata dos Quadrinhos.

Mas em 1988, quando mudei pra Campinas, a AQC estava esvaziada. Neste ano, Gual e Jal saíram e criaram o Troféu HQmix. O Worney (WAZ, editor do Zine Quadrix) carregou o Troféu Angelo Agostini por mais de uma década praticamente sozinho: fazia a cédula de votação, enviava pra quadrinhistas e fãs no Brasil todo, distribuía nas lojas de quadrinhos, recolhia os votos, fazia a apuração, organizava a festa (colocando dinheiro do bolso), convidava debatedores, apresentadores de filmes e animações e apresentava a premiação. Ele era o típico jogador de futebol que sofria a falta, batia a falta, fazia o meio de campo, atacava e chutava a gol. Ou seja, salvo a ajuda dos filhos e de alguns colegas que dividiam as despesas, como o cartunista Marcio Baraldi, Worney estava sozinho no deserto sem entregar os pontos. Mas a bandeira de manter o Troféu AA todo ano, ele nunca largou, bem como manter a votação aberta, livre e democrática (mas ainda com votos em papel). Em 2005 o AA aconteceu no FestComix no prédio da Gazeta, eu e o Baraldi fomos votados como melhores cartunistas. Foi nessa época que voltei a ajudar na promoção do evento e a participar mais efetivamente da AQC, ajudando a promover a votação nas listas de cartunistas no Orkut e grupos de internet. Em 2007 a premiação aconteceu no Senac Lapa, em 2008 no Senac Scipião. Nesses eventos a presença do público era pequena, mas estava começando a crescer.

Em 2010 (quando inauguramos o blog e a votação por e-mail) e 2011 o evento foi sediado no Instituto Cervantes. Aí tivemos o reforço gigantesco de Alexandre Silva e Marcos Venceslau. Estes dois trouxeram um senso de organização e novas ideias na formatação do Troféu, Foi neste ano que o Worney abriu mão de organizar e apresentar o prêmio. Ele queria se dedicar apenas às edições impressas da AQC, como a revista Picles (Presidenta Dilma e Fim do Mundo), fanzine O Sótão e algumas exposições como no Dia da Mulher e Dia das Mães. Em 2012, fomos pro Memorial da América Latina onde estamos até hoje. E depois do Marcos Venceslau e Alexandre Silva tivemos o reforço do Nivaldo Wesley, Álvaro Costa, Gazy Andraus, Eduardo Vetillo e Paulo Batista. E o Worney ficou mais tranquilo pra chegar lá e curtir o evento, lançando suas publicações. Mas ouvi muitas críticas neste período: que a AQC aceitava campanhas de internet, tinha um sistema de votação falho, aceitava votos de qualquer um, não premiava os “melhores” da HQ nacional. O que eu sempre argumentei: a nossa votação é aberta, ampla e democrática. Se tem uma forma melhor de se fazer um prêmio, que façam outro prêmio. É saudável. O HQmix tem um corpo de jurados da área que escolhe os premiados. O Prêmio Bigorna era decidido apenas pelos organizadores. A Academia Brasileira de HQ faz a votação online no Blog. Antes fazíamos lista gigantes de lançamentos, mas sempre faltava alguém que reclamava. Achamos que o melhor era publicar os lançamentos que nos enviavam e deixar o eleitor pesquisar e escolher livremente seus votos. A organização da Festa do Dia do Quadrinho Nacional tem se esmerado em melhorar e propiciar um belo encontro entre profissionais e fãs, grandes lançamentos (como a mega série SketchBook Custom e Tributo a Rodolfo Zalla da Criativo e AQC), exposições de HQs do mundo todo e ótimos debates. E nos últimos anos o Troféu AA voltou a ter seu valor reconhecido. Quanto ao mercado de quadrinhos, ele mudou, se ampliou unindo Oiapoque ao Chuí, mas se elitizou com álbuns caros — de pequenas tiragens– vendidos apenas em livrarias.

QuadrECA, Pântano, Tralha, Porrada, Megazine, Bundas, Retrato do Brasil, Folha da Tarde de SP, Diário do Povo de Campinas, etc. Como se dão essas colaborações, você os procura ou é procurado para um trabalho específico?

Eu sempre fui indicado pra estes trabalhos, sinal de que tenho bons amigos espalhados por aí! Foram amigos me convidaram. Na Folha da Tarde, o Gualberto me disse que o Franco de Rosa tinha pensado em mim pra substituir o Novaes, nas férias. A primeira vez em que me ofereci foi no Retrato do Brasil (jornal diário que lançou uma coleção de fascículos com o mesmo nome), me avisaram que eles estavam procurando chargista e fui lá com pasta debaixo do braço. O Elifas Andreato escolheu dois entre os candidatos: o Fernandes pra caricaturas e eu para as charges. A segunda vez: quando eu queria mudar pra Campinas e liguei no Sindicato dos Eletricitários — eu já fazia charges pra eles como free-lancer — e perguntei se eles não queria me contratar. E eles aceitaram! Tive a sorte de sempre trabalhar com o que gosto.

Você nasceu em São Paulo, mas desde 1988 decidiu morar em Campinas. Por quê?

Eu estava cansado de São Paulo. Muito trânsito engarrafado, o trabalho no Sindiluta estava patinando. Tinha acabado um relacionamento. Resolvi mudar de ares, e como eu já fazia charges e tinha amigos aqui na cidade, achei que seria mais fácil. Nem tive férias quando saí do Sindicato dos Químicos em São Paulo. Uma semana depois estava aqui. Cheguei trabalhando 10 horas por dia. Cinco no Sindicato, cinco na campanha do PT. Fazia charges, quadrinhos e past-up de boletins pra todos candidatos. Era uma loucura. E eu adorava.

Hoje não é necessário viver numa grande metrópole para sobreviver neste mercado tão acirrado como o de cartunista e chargista?

Não. Vi vários cartunistas, caricaturistas e quadrinhistas voltarem pra suas cidades de origem. E continuaram colaborando com suas publicações em São Paulo, sem problema algum. Já têm seus nomes e carreiras consolidados. Mesmo para os iniciantes isso é possível. Mas precisa ter um bom relacionamento com os leitores via internet. Muitas tiras e charges saíram da web e viraram livros ou colunas em revistas e jornais.

Além do desenho, você toca gaita. É aí que surge seu momento de maior abstração?

Não diria isso. Acho que abstração eu consigo pelos quadrinhos nonsense que gosto de ler e fazer, os cartuns — com sua linguagem universal– e as caricaturas. Estas coisas são o oposto das charges — o mundo real, cheio de traições à cidadania e golpes à democracia — e me dão um respiro. A gaita e o canto, que exercito na Banda Tio’s Rex, são uma outra praia, mas bem concreta. Afinação, melodia, fraseados musicais, repertório, entrosamento no palco, desempenho, isto tudo é bem pé no chão!

Alguns amigos dizem, brincando, que você toca melhor gaita do que desenha. Concorda?

Huauhhahahuahaa. Claro que não! Sou bem limitado na gaita. Aprendi de ouvido, e pra tocar bem, conhecer as escalas e improvisar como os grandes mestres, eu precisaria fazer aula com o Paulo Gazela, um dos melhores da região. Tenho vontade de me dedicar a isso, como de voltar a ter aulas de canto.

Você fez diversas caricaturas com grandes mestres do blues, do jazz e do rock. Pretende reunir esse material em um livro?

Tenho vontade. Adoro blues (a grande maioria das caricaturas) e rock. Gosto de jazz, mas conheço pouco. Em quase 30 anos produzi mais de 200 caricaturas, alguns pôsteres coletivos e exposições em BH e Campinas. Meu sonho era publicar um livrão com todas, mas como já me disseram: o público é reduzido e talvez virasse um elefante branco. Mas quem sabe? A Conrad lançou Blues do R. Crumb. Talvez a editora Veneta se interesse!

Fale também da criação das tiras do Tatu-Man. Como surgiu a ideia?

Eu o criei em 2008 e tinha o nome de Homem-Tatu. Em 2010 o Djota Carvalho (jornalista e quadrinhista, criador do Só dando Gizada) me indicou pro Correio Popular, fiz 10 tiras a toque de caixa. Avisei que, ao contrário das tiras atuais (com piadas diárias independentes), seria uma história continuada, como no início dos quadrinhos. Quando o jornal aprovou a tira, minha filha Thaís vetou o nome e sugeriu Tatuman, pra ter mais estilo de super-herói. Tatuman é um anti-herói sem poderes, medroso, ensimesmado, meio complexado, um típico brasileiro duro, destes que a gente encontra pelas esquinas ou até dentro de casa. Me inspirei nos azarados Kick-ass e Homem-aranha.

Foi uma grande diversão nos três anos em que o publiquei no Correio Popular de Campinas. Durante um tempo, a Thaís com seus 11 anos, fez a colorização no photoshop e reclamou que não tinha muitas piadas e as pessoas não entendiam histórias que continuavam. Tatuman foi um exercício de metalinguagem e de roteiros que eu começava sem saber como ia acabar, só ia fazendo. Tinha inimigos doidos como Reflexu’s, o Anta, Cachorro do Mato, Onça e Caboclo. Fez cross-overs com os personagens TEX, El Eternauta, Dick Tracy, o Toupeira, Jerônimo, Nhô Quim, Turma do Pererê, Jeca-tatu, Xiru Gautério, Escorpião de Prata, Benjamin Peppe e outros. Vou lançar algumas das aventuras num livro da nova coleção da Criativo Editora.

Você adaptou para os quadrinhos obras literárias como Memórias de um Sargento de Milícias, Dom Quixote e O Ateneu. Como é o seu processo de trabalho em obras como essa?

Nas três eu li a obra original, mas o processo mudou em cada adaptação. A HQ Memórias de um Sargento de Milícias (Manuel Antônio de Almeida) teve texto adaptado por Índigo, desenhos meus, cores e balões de Maurilio DNA e Caio. O Ateneu (Raul Pompéia) teve texto de Ronaldo Antonelli, desenhos, cores e balões meus. Já D. Quixote (Miguel de Cervantes) eu escrevi, desenhei, pintei e fiz os balões.

Em Memórias de um Sargento de Milícias eu procurei muitas referências na internet, mas foi no livro de aquarelas do alemão Eduard Hildebrandt (que esteve no Brasil em 1844) que eu achei boa parte do visual que eu usaria na HQ. Ele havia morado no Rio e pintado uma parte dos locais citados pelo autor. Debret também me ajudou. Para criar os cenários e desenhar os personagens de Cervantes, o pintor espanhol Francisco de Goya foi fundamental. Uma revista da National Geographic e adaptações da Ebal e La Selva, que o colecionador João Antonio Buhrer me emprestou, também ajudaram. Em O Ateneu, as ilustrações do próprio Raul Pompéia foram de grande valia.

Pensa em trabalhar mais com adaptações?

Sim. Eu comecei A Ilíada pra Escala Educacional e só não continuei porque a editora suspendeu os projetos de HQ. Mas penso em retomar o projeto por conta própria, se a editora não bancá-lo.

Você produziu um documentário a respeito de Angelo Agostini e organizou um livro homenagem a ele. Qual a importância dele nos quadrinhos?

Há muito tempo sou fascinado pela obra pioneira, corajosa e guerreira de Angelo Agostini. Em 2010 montamos uma exposição de caricaturas na Escola Pandora. A ideia era popularizar o seu rosto e seus personagens. Esta exposição foi montada também na Unicamp e no ano seguinte, ampliada, seguiu para o Instituto Cervantes, em São Paulo. No entanto, o criador da primeira HQ brasileira e causador do 30 de Janeiro como Dia do Quadrinho Nacional merecia mais. Agostini não foi apenas o criador da primeira HQ no Brasil (As Aventuras de Nhô-Quim, 30/01/1869), ele foi um dos responsáveis pela implantação da imprensa no Brasil, um dos primeiros chargistas na época do imperador D. Pedro II e, junto com Luiz Gama, um dos maiores combatentes da escravidão, da corrupção e da política elitista. Não foi pouca coisa.

O ítalo-brasileiro Angelo Agostini começou a publicar suas charges no Brasil em 1864, quando fundou o jornal ilustrado Diabo Coxo, durante a Guerra do Paraguai. Fundou depois o Cabrião, que teve sua sede depredada e faliu em 1867. Saiu de São Paulo, perseguido pelo conservadorismo dos barões do café e instalou-se no Rio, mais afeito às mudanças. Publicou charges em O Mosquito, Vida Fluminense, Revista Illustrada, Don Quixote, O Malho e Gazeta de Notícias. Era um chargista muito popular em 1889 quando a República foi proclamada no Brasil. Ainda o era em 1905 quando criaram o Tico-Tico e ele foi chamado pra fazer o logotipo, quadrinhos e ilustrações para o jornal. Morreu um ano depois, sendo sucedido por J.Carlos, Luis Sá, Alfredo e Oswaldo Storni, Max Yantok, Edmundo Rodrigues e Carlos Arthur Thiré.

Em 2014, a AQC completaria 30 anos e resolvi fazer este média-metragem com o Artie Oliveira. Eu cuidei do roteiro, story-board e direção, e ele da câmera, trucagens, co-direção e edição final. O filme é dublado e legendado em francês e inglês. Teve as seguintes apresentações: Escola de Arte Pandora, Biblioteca Municipal de Campinas, Memorial da América Latina, Festival de BD na Argélia, TV Câmara de Campinas, 6ª Usina de Quadrinhos e 30ª Feira do Livro de Canoas, Fnac Campinas e Dia do Quadrinho Nacional de Ribeirão Preto. O documentário entrevista “experts” em Agostini e pode servir como fonte de pesquisa para os interessados, mas foi feito de forma palatável para o público em geral. Buscamos resgatar a história desse mestre, praticamente desconhecido do grande público atual. Entrevistamos várias pessoas numa banca de jornal, no centro de Campinas. Queríamos saber o quanto as pessoas comuns sabiam de Angelo Agostini e do Dia do Quadrinho Nacional. Só uma pessoa sabia de quem se tratava. Agostini foi esquecido por que a imprensa e o povo deixaram de falar dele. Hoje Ziraldo e Mauricio de Sousa são muito populares, reconhecidos pelas pessoas nas ruas. E daqui a 100 anos? Mas sou otimista. Há 30 anos pouco se falava do Dia do Quadrinho Nacional na imprensa. Nos últimos 10 anos, a TV tem abordado o tema, mas a maioria da população ainda desconhece o assunto.

Cartum de Angelo Agostini

Montamos também uma exposição com 30 cartuns sobre Agostini e os 30 anos da AQC na Escola Pandora e no Memorial da América Latina.

Considerando que nossa memória é fugidia, pretende realizar algo parecido com algum outro nome do quadrinho nacional?

Com certeza. J. Carlos — que ganhou recente exposição no Centro Cultural dos Correios– é um nome a ser lembrado. João Baptista Queiroz, José Lanzelotti e Edmundo Rodrigues são nomes a serem lembrados e ovacionados, como o foi Rodolfo Zalla, recentemente.

Como está seu trabalho como professor da Pandora Escola de Arte? O que tem transmitido para as pessoas?

Eu encerrei minhas turmas e agora estou em processo de reinício. Fiz uma oficina muito interessante no meio de abril. A caricatura deve ser vista não apenas como o rosto distorcido. Tudo é caricatura. Até um retrato é caricatura, basta ver Goya, Picasso, Modigliani e Monet. Cartum é caricatura. E quadrinhos também o são. A caricatura satiriza ou dramatiza pessoas e situações. A caricatura é riquíssima como forma de se retratar a sociedade moderna e de se entender a sociedade antiga. Tento respeitar o que cada um tem e tirar de cada aluno o que tem de melhor. E é incrível ver gente que diz não desenhar nada, desenhando!

Você já produziu charges como a do ex-governador de São Paulo, Mário Covas vestido de Exterminador do Futuro. Já teve problemas com políticos em razão das suas críticas?

Nunca tinha tido, até recentemente. Este Covas foi um cartaz enorme que o Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp encomendou em 1995 e foi espalhado pela cidade inteira. Mas as coisas mudaram… para pior. Tenho visto muitos chargistas temerosos com as atitudes extrapoladas que o MPF-Curitiba teve com o jornalista e blogueiro Eduardo Guimarães, levado coercitivamente para depor, sem poder dar telefonema nem pro advogado. Vivemos tempos de exceção, em que manifestantes são bombardeados, espancados e levados presos sem levantar sequer a mão contra os policiais (não me refiro a blackblocs); estudantes são tratados como bandidos, com provas “plantadas” em suas mochilas e armas da polícia são encontradas nas mãos de criminosos; internautas são presos por criticarem a PF ou o STF (onde temos um juiz acusado de plágio no seu livro Direitos Humanos Fundamentais e que defende a linha dura para os manifestantes). Vemos a Constituição ser desrespeitada dia a dia por juízes e temos de ficar quietos?

Em 2014 você chegou a sofrer tentativa de censura por parte do governador Geraldo Alckmin e do senador José Serra, em virtude de trabalho ironizando o chamado “Metrogate de São Paulo”. O que aconteceu ali?

Sim. Eu e Latuff fizemos charges sobre o tema publicadas no site do PT-SP. Em 2013, os tucanos indignados moveram uma ação judicial exigindo a retirada das charges da internet. Os dois “probos” autores da ação alegaram que “os desenhos ofenderam a honra dos políticos, pois ligavam diretamente Serra e Alckmin aos crimes de corrupção passiva e peculato”. A dupla de espertões pedia R$ 10 mil cada de indenização por danos morais (mais uma piada pronta). O juiz Valdir da Silva Queiroz Junior, da 9ª vara cível de São Paulo afirmou que “não cabe ao site que reproduz as charges ser responsabilizado pelo conteúdo delas, uma vez que os autores são conhecidos e seriam deles a responsabilidade pelo conteúdo, e que a remoção compulsória configuraria censura artística, proibida de forma absoluta pela Constituição Federal.” Julgou improcedente a ação dos tucanos e fixou pagamento de R$ 1.000 a cada um para custos e os honorários gastos na ação. A decisão foi tomada em primeira instância, os advogados tucanos entraram com recurso, mas o resultado é ignorado. Talvez as delações da Odebrecht contra “O Careca” e “O Santo” os tenha deixado mais calminhos. Mas eu não fiquei. Ver dois “ditos democratas” defenderem a censura é o cúmulo da hipocrisia. É como o prefeito Dória cobrir gravitais com tinta cinza e dizer que é pra deixar a cidade mais bonita.

O senador Álvaro Dias (na época no PSDB), utilizou uma charge sua para falar do assalto à Petrobras. Que fim deu essa história?

Álvaro Dias ainda era do PSDB nesse tempo. Sempre atacou o PT, a CUT e os movimentos sociais. A equipe do site dele pegou uma charge que eu havia feito pra Federação dos Petroleiros, tirou minha assinatura, a adulterou e publicou. Alertado pela FUP eu escrevi no blog dele:

CHARGE MINHA NO PSDB NÃO!
Sou o chargista Bira Dantas. O site do senador Alvaro Dias publicou minha charge indevidamente, sem me consultar e ainda cortando uma parte da mesma. Além de ferir a lei dos Direitos Autorais, os editores do site adulteraram minha charge. Gostaria de pedir que a retirassem do site, pois não quero ver meu trabalho comprometido com este mandato e muito menos com o sentido desvirtuado da matéria. Minhas charges são publicadas no movimento sindical há 33 anos, na CUT desde sua fundação, para o Sindipetro desde 1995 e para a FUP. Eu nunca apoiei movimentos ligados ao PSDB ou DEM. Pelo contrário, tenho me dedicado a denunciá-los e tenho um nome a zelar. Não quero me misturar com quem (como o sen. Alvaro Dias) usou o jatinho do doleiro Alberto Youssef, que está preso agora. PT saudações!

Ao que Alvaro Dias respondeu em 11 de abril de 2014:

“Retirarei sem problema algum. Minha assessoria ilustrou matéria usando a imagem. Peço desculpas.”

Eles tentaram dizer que a imagem estava na internet já adulterada, mas assim que fui alertado procurei na web por outras postagens daquela charge e o único resultado era o do site do senador. Como ele tirou a charge e pediu desculpas, acabei deixando quieto, mas oitoanos antes ele estava bem mais agressivo.

Sente-se “vigiado” pelo PSDB?

De certa forma. Em 2006 publicava muitas charges no blog Amigos do Presidente Lula (imaginem os temas) e recebi a seguinte ameaça:

“Senhor Bira, cabe a mim alertar que Vs. está cometendo ato de difamação, Cabe ainda um alerta que usarei os recursos que a lei me permite para processar este antro que se diz blog que nada mais é que um bando de corruptos sem escrúpulos. Álvaro Dias, Senador da República”

O blog publicou o seguinte post:

RESPOSTA DO CHARGISTA BIRA AO SENADOR
Pois é, senador Álvaro Dias, as investigações mostrarão os verdadeiros corruptos desta nação. E tenho certeza que a grande e esmagadora maioria não virá do PT, mas de partidos que vossa excelência costuma chamar há muito tempo de “aliados”. Acabei de assistir ao JN da Globo, mostraram denúncias contra Geraldo Alckmin, contra políticos do PFL e contra o PMDB carioca que apoia Garotinho. Estou vendo mesmo quem está atolado na lama. O chargista, ao mostrar ou criticar um fato, não comete ato de difamação. Ele cumpre com seu papel político. Se eu não quisesse cumprir o meu, mudaria de profissão ou ofereceria minhas charges aos pefelentos e tucanalhada. E isso, meu senhor, pode ter TOTAL e ABSOLUTA certeza que eu não farei NUNCA. Aliás, nunca fui corrupto, nem sem escrúpulos. Só deixei de pagar algumas contas na data, mas paguei com multa e juros depois. Passar bem. Bira Dantas, chargista, cidadão e colaborador totalmente gratuito do blog

Seu alinhamento político não te traz problemas?

O tempo todo. As redes sociais têm o lado positivo de democratizar a informação, mostrar a arte de cada um e encurtar distâncias. Mas as pessoas expõem o que têm de pior. Isso é ruim. Mas tenho que dividir o mundo real do mundo virtual. No mundo real eu faço charges, toco gaita, gosto de cozinhar, cantar no karaokê, dou aula, falo com os vizinhos, passo no sindicato, converso com as pessoas, dou entrevistas, faço shows, ajudo a organizar o Troféu Angelo Agostini. No mundo virtual eu era um petralha sujo que devia levar dedo no nariz. Mesmo quando Lula era “o cara” eu era criticado por meu posicionamento aberto e franco. No mundo virtual eu não deixava uma provocação sem resposta. Participo desde 1999 de grupos de discussão de chargistas e quadrinhistas na internet. Ouvia de muita gente que “chargista não tem lado”, “tem que atirar em todo mundo”, “não existe humor a favor” e “o que importa é tirar o PT do poder”. Um ex-amigo e ex-petista me disse que eu não sabia fazer charges: “Onde já se viu fazer charge defendendo o Lula? Charge é pra descer o pau!”. Eu queria entender por que certas pessoas acham que têm direito de dizer como as outras devem se portar. Eu tenho o direito de fazer as charges que acho corretas. E se tem gente que me paga por elas, melhor ainda. Mas tinha gente que ficava indignada porque eu compartilhava matérias denunciando factoides plantados pela imprensa. Me mandavam mensagens dizendo que eu era trouxa, que o Lula tinha sim um triplex no Guarujá, que dava festas homéricas na fazenda milionária do Lulinha (cuja foto era a ESALQ-Piracicaba) e que a Friboi era de sua propriedade. Resolvi isto deletando parentes, conhecidos e desconhecidos que me importunavam todos os dias.

É possível acreditar em políticos e partidos em plena Lava Jato, que a cada dia nos revela o quanto o mundo político é sujo?

A Lava Jato nos revela que o mundo empresarial é sujo e que os políticos (empresários e fazendeiros em sua grande maioria) levam esta prática pra dentro do Legislativo, do Executivo e do Judiciário. Veja, a delação da Odebrecht nos diz que eles se preparavam pra ganhar as licitações, combinavam a propina com os diretores de estatais (que as repassavam pra candidatos a vereador, deputado, senador, prefeito e governador). E se, num erro de percurso, outra empresa ganhasse, eles molhavam a mão de juízes e procuradores para impugnar a empresa ganhadora e eles assumirem. O que vemos neste país é a dilapidação do patrimônio público desde que éramos colônia de Portugal, a degradação dos serviços de saúde, educação e cultura. E aí, vem colocar a culpa nos políticos? Quem são os políticos? Empresários. E a grande maioria usa Caixa 2 e propina pra ganhar contratos. E alguns empresários dizem: “Se eu não fizer isto eu não sobrevivo no mercado, entende?” Mas o que me choca na Lava Jato, além dos vazamentos seletivos, linha dura e coerção até que o corrupto resolva entregar algo contra o PT, “mesmo que seja apenas convicção” é a total falta de respeito pelos ritos e procedimentos técnicos da Justiça.

Está lá no site Consultor Jurídico:

“O Tribunal Regional Federal da 4ª Região decidiu, nesta quinta-feira (22/9) que a operação ‘lava jato’ não precisa seguir as regras dos processos comuns. Advogados apontam que as investigações ignoram os limites da lei ao, por exemplo, permitir grampos em escritório de advocacia, divulgação de interceptações telefônicas envolvendo a presidente da República e a “importação” de provas da Suíça sem a autorização necessária. Mas, para a Corte Especial do TRF-4, os processos “trazem problemas inéditos e exigem soluções inéditas”.

Isto é Estado de Exceção. Numa situação dessas não precisa provar nada. Se o juiz que investiga, acusa e julga (isto é inconstitucional) acha que a convicção é suficiente pra condenar uma pessoa, acabou. A instância superior acatou e você não tem pra onde apelar. Nem pro bispo. Só pro papa! Tivemos um processo de impeachment presidencial sem sustentação jurídica, e, exceto pelos defensores da presidenta Dilma, nenhuma instituição se levantou contra isso. Nem o STF. E depois do golpe efetivado, o ministro Lewandowski, professor de Direito na USP, afirmou:

“Esse impeachment, todos assistiram e devem ter a sua opinião sobre ele. Mas encerra exatamente um ciclo, daqueles aos quais eu me referia, a cada 25, 30 anos no Brasil, nós temos um tropeço na nossa democracia. Lamentável”. Os universitários talvez possam garantir um futuro melhor. Quem sabe vocês, jovens, conseguem mudar o rumo da história”.

Ele presidiu o processo no Senado e não abriu a boca!

Boa parte da sua produção é voltada para a temática política e social, como problemas sociais como o desemprego, etc. Estamos, não é de hoje, atravessando um período ruim, com esses problemas que você aborda, persistindo na nossa realidade. Você fez algum trabalho criticando a gestão petista no cenário nacional?

Antes eu me dava ao luxo de criticar os erros do PT. Na prefeitura de Jacó Bittar em Campinas, fazia charges no Diário do Povo e critiquei sua postura na greve dos servidores, seu racha com o vice Toninho e sua aproximação com Orestes Quércia (o que fez com que saísse do PT e fosse pro PDT). Também cutuquei o governo Lula. Fiz charges mostrando Zé Dirceu e o caso Waldomiro, a postura do Pallocci em relação à política econômica, Berzoini arrochando os aposentados, Lula e o “toma lá dá cá” com o PMDB. Comecei a ver minhas charges publicadas sem autorização em blogs globais como Noblat e Ancelmo Gois, de “liberais” como Marcelo Tas e mesmo de direita e anti-PT. Eles nunca publicaram minhas charges contra o PSDB. Pensei em pedir que as excluíssem, mas a comunicação era truncada e resolvi do jeito mais simples: não fazê-las mais. Tem muito chargista descendo o sarrafo no PT, não precisam de mim pra isso. E eu não quero me misturar com movimentos fascistas como Vem Pra Rua, Brasil Livre. Desta gente (que segue o pato da Fiesp, usando camiseta amarela) quero muita distância. De novo me decepcionei ao ver o PT se aliar com os partidos que deram golpe na presidenta Dilma, para compor mesa na Câmara e no Senado. Sei que faz parte do jogo. Mas com golpista eu não sento em mesa. Fiz charge criticando a bancada do PT na Alesp que destituiu o deputado Rillo, forte opositor ao governador Alckmin, e aprovou as contas do tucano. Eu teria feito uma charge criticando o desemprego, resultado da política de recessão do Levy, no segundo mandato da Dilma, mas não quis me arriscar a fazer coro com coxinhas.

Está decepcionado com o PT?

Sim e não. Tenho 54 anos. Vi muita coisa acontecer aqui: fim do governo militar; Tancredo trair o movimento das Diretas Já e se eleger pelo voto indireto com o Sarney de vice; Collor, apoiado pela mídia, mentiu na TV, ganhou a eleição e sequestrou a poupança do povo; impeachment de presidente-marajá; Itamar assumir implantar o Plano Real, FHC roubar a autoria e se eleger com isso (que tinha muitos acertos) ia resolver a vida de todos e o desemprego só aumentava, e as privatizações queimando estatais a preço de banana. Quando o PT chegou ao governo federal o país mudou pra melhor. Tivemos inclusão social, melhorias incomparáveis na saúde e educação (que vergonha, hein FHC?). A BBC Brasil, que não tem nada de petista, fez matéria intitulada O legado dos 13 anos do PT no poder em seis indicadores internacionais:

1. Ranking das maiores economias: Em 2002, o Brasil ocupava a 13ª posição no ranking global de economias medido pelo PIB em dólar, segundo dados do Banco Mundial e FMI. Chegou a ser o 6º em 2011, desbancando a Grã-Bretanha, mas voltou a cair. Hoje, é a 9ª maior economia do mundo de acordo com esse indicador. 2. IDH e combate a pobreza: O Índice de Desenvolvimento Humano era de 0,649 no início dos anos 2000, chegou a 0,755 hoje, o que indica uma melhora. O Bolsa Família é retratado como modelo de programa social bem-sucedido. 5 milhões de brasileiros deixaram a extrema pobreza. E por volta de 2009 o programa havia reduzido a taxa de pobreza em 8 pontos percentuais, aumento da escolaridade no país e avanços no combate a miséria. Especialistas consultados pela BBC Brasil veem nas políticas sociais o maior legado positivo dos 13 anos do PT no poder no Brasil. 3. Gini — Desigualdade: O coeficiente Gini do Brasil, nos cálculos do Banco Mundial, passou de 58,6, em 2002, para 52,9, em 2013 (último dado disponível). Em 2014, um relatório da ONU sobre o tema também registrou uma queda significativa da desigualdade no Brasil na última década, com o Gini passando, nos cálculos das Nações Unidas, de 54,2 para 45,9. 4. Percepção de corrupção: Em 2002, o Brasil ocupava a 45ª posição do ranking de percepção da corrupção da Transparência Internacional (TI), que incluía análises de 102 países. Em 2015, passamos para o 76º lugar entre 168 países. 5. PISA — Educação: No relatório de 2013, com dados de 65 países (alguns ricos, como Japão, Suíça e Alemanha, o Brasil ocupou a posição 55 no ranking de leitura, 58 no de matemática e 59 no de ciências. Ou seja, comparativamente avançou em relação ao 2000. 6. Ambiente para negócios: É outra área em que os especialistas veem certa estagnação como saldo dos 13 anos do governo petista, com deterioração na gestão Dilma.

Mas esperava que o Partido que fundei e ajudei a construir tivesse princípios mais ortodoxos no que se refere a alianças e intolerância com a corrupção (neste quesito Dilma foi muito mais firme do que Lula, o que lhe custou o mandato). Sempre defendi que o PT só se aliasse com partidos de esquerda, mas Lula nunca teria sido presidente do país. O seu vice e principal aliado junto ao empresariado foi José Alencar, do Partido Liberal (que era anti-PT nos tempos do malufista Afif Domingos). Se não fosse a bancada vendida do PMDB, Lula não teria governado. Mesmo assim, eu ainda fazia charges criticando os pontos que considerava falhos e alguns amigos fizeram parcerias em algumas (como o Heringer e Mauro Alvim). Concordávamos que alguns apoios eram deploráveis como Collor, Sarney, Maluf (hoje sei que estes apoios eram pró-forma, estes senhores apoiaram e apoiam o PSDB, mas estavam numa aliança “circunstancial”) Em 2004, quando estourou o escândalo com Waldomiro Diniz, assessor de José Dirceu, na Casa Civil, eu fiquei possesso. Ele não tinha o direito de colocar tudo a perder, logo quando Lula começava a fazer as coisas que tinha se proposto. Nesse momento teve uma debandada do PT. Até eu escrevi carta de desfiliação, publiquei no Orkut, mas quando vi a direita comemorando o que pra eles seria o fim do partido, resolvi ficar. Lula estava acertando a mão, depois de dois anos em que não aprovava nada no Congresso. Ele queria acertar. E sabia que o país só melhoraria com emprego, empresas crescendo, melhores salários, distribuição de renda e políticas sociais. Você não combate crise com recessão (coisa que o Levy tentou fazer com o aval errado da Dilma). E vem o Zé e faz aquilo. Outra coisa absurda foi o empréstimo que custou a prisão de Genoíno. Apesar das minhas críticas ao PT, a minha única certeza era não querer fazer parte daquele coro de anti-petistas (velhos e novos) que tentavam jogar tudo na mesma vala, fazendo a alegria da direita sórdida. Mas, quanto ao partido, joguei a toalha. Não me refiliei e não participo mais das convenções do partido, apesar de achar que o PT é uma referência em administração pública (efetivou as melhores políticas sociais, educacionais e de saúde pública) e continuar a apoiar seus candidatos.

Se ficar comprovado, mostrando fatos, que realmente o ex-presidente Lula é responsável por tudo o que é acusado, você faria uma charge dele retratando-o como condenado?

Sim, se for realmente COMPROVADO e não apenas por convicção ou delações negociadas pra libertar os corruptores, como o MPF-Curitiba costuma fazer. O caso do triplex vem bem a calhar: a família do Lula não passou um fim de semana sequer no tal triplex (que ele com o salário de presidente poderia tranquilamente comprar), a PF já declarou que a OAS é dona do apartamento e o juiz Moro continua batendo na mesma tecla, e aceitou (ou combinou) a história que Odebrecht enviou 13 milhões em espécie pro Lula numa mochila. Na boa, se este for a prova que vai condenar Lula eu farei a charge sim, contra o juiz que enterrou as provas de corrupção no Banestado no Paraná, atropelou a democracia e a verdade. FHC comprou um apartamento que vale 11 milhões de euros na avenida Foch, em Paris, e ninguém se espanta e nem vira matéria de jornal ou TV.