Felipe e Manoel Cordeiro, Kassin, Liminha e Pedro Garcia são os Desumanos

Sonoridade sessentista, da surf music à lambada, reúne o super time de músicos e produtores

Foto: Divulgação

Ao contrário do que diz o nome, a banda formada por Kassin, Liminha, Manoel e Felipe Cordeiro e Pedro Garcia só tem de desumana a "covardia" de reunir um time com alguns dos maiores guitarristas e produtores do Brasil. Fora isso, é tudo bem orgânico: formada nos intervalos das gravações do primeiro disco de Felipe Cordeiro, a banda já se apresentou algumas vezes (no festival Se Rasgum, em Belém, e nas Olimpíadas do Rio) e tem um disco gravado. Os Desumanos fazem shows raros nesta quinta-feira, 17, em São Paulo, na Casa Natura Musical, e na sexta-feira, 18, na Blue Note do Rio de Janeiro.

Inspirada em sons dos anos 1960 como o The Ventures, The Shadows e nomes brasileiros como The Clevers e Poly (que, por sinal, foi professor de Sérgio Dias, de onde Liminha bebeu muito), a Desumanos é, praticamente, tudo o que não se faz hoje em dia — tempo em que as fabricantes de guitarra estão falindo e os Arctic Monkeys, tocando piano. Som limpo, instrumental, poucas distorções, baseado sobretudo na guitarra. Zero efeitos eletrônicos.

A ligação da banda passa mais pelos timbres, que vão da guitarrada paraense à surf music, como conta Liminha. "O Manoel Cordeiro tem uma habilidade incrível como guitarrista. É bem mais difícil tocar guitarra com um som limpo do que com o distorcido, porque qualquer defeitinho aparece. Se você tocar mais forte ou mais fraco aparece, ou se errar, aparece. Eu uso um pouco mais de efeito, uns delays. A gente é meio complementar tocando".

Os dois veteranos — Liminha é o quarto mutante desde 1969, além de ter produzido boa parte dos discos clássicos da MPB — são os principais compositores da banda. Cordeiro, chamado de mestre por Liminha, é cabeça de praticamente todos os discos que saíram do norte do país desde o final dos anos 1970, época do auge da lambada com nomes como Beto Barbosa e Alípio Martins.

Quando vão discutir o que tocar em cada faixa, Kassin diz que Liminha sempre tem prioridade: "Eu falo pra ele: 'Bicho, quando eu nasci você já tinha saído dos Mutantes, não tem como competir com isso!'", se diverte. O clima de admiração é também o que fez Pedro Garcia entrar no grupo recentemente, com a mudança de Stepháne San Juan, antigo baterista da banda, que foi morar em Nova York. “Eu chamei o Pedro e perguntei se ele queria participar da nossa banda. Disse que era o Liminha, o Manoel, o Felipe e eu. Topou na hora. Só depois foi saber que era surf music com lambada. ‘Cara, mas eu não sei tocar lambada!’ [imita Pedro]. Quem vai tocar lambada é o Manoel, a gente toca o que quiser”, conta Kassin, rindo. A “cozinha” adiciona outras camadas à sonoridade sessentista: “Acontece mais coisas por trás das guitarras, tem um aspecto de tentar coisas novas, um ritmo africano junto, por exemplo”.

Quando ficaram sabendo que se reuniriam para os shows, há um mês, Liminha diz que tentou adiantar a produção do álbum, que só precisa ser mixado e ganhar uma capa. Mas, como "não tem índio, só tem cacique", não conseguem agenda para se reunirem e finalizarem a mixagem. Pai e filho, Manoel e Felipe são de Belém mas moram em São Paulo, enquanto os outros integrantes estão no Rio, o que dificulta os encontros.

Apesar de terem todo o extenso currículo na produção musical — que, no caso de Liminha, para ficar só nas anedotas, vai do baixo de Fullgás à aproximação de Gilberto Gil com o reggae, enquanto Kassin é um dos grandes responsáveis pela órbita cool carioca pós anos 2000 — todo o processo é bem horizontal. “A nossa ideia também é, a cada seis meses, nos encontrarmos para gravar num dia e já lançar no outro”, diz Kassin. “Pensamos no disco como um retrato do que é a banda, a gente não pode encher de overdubs, ter tudo acertadinho. A gente faz um troço que é totalmente baseado nas pessoas tocando, não tem nenhuma maquiagem”. Desumanos, porém.


Desumanos em São Paulo — Casa Natura Musical, quinta-feira, 17, às 21h30. Ingressos disponíveis.
Desumanos no Rio de Janeiro — Blue Note Rio, sexta-feira, 18, às 20h. Ingressos disponíveis.
Like what you read? Give Paula Carvalho a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.