Festa de orquestra

O maestro Fabio Mechetti comemora seus 60 anos e o sucesso da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais

Nascido em uma família de maestros (o avô, Sisto, e o pai, Marcello, foram regentes do Teatro Municipal de São Paulo), o paulistano Fabio Mechetti colocou a Filarmônica de Minas Gerais em um novo patamar. Diretor artístico e regente titular da orquestra desde 2008, Mechetti é diligente: acompanhou todo o projeto de acústica e tecnologia da construção da Sala Minas Gerais, e ainda possui planos para a criação de uma Orquestra Jovem e de uma Academia. “Um ponto importantíssimo que justifica o sucesso da orquestra foi a ‘adoção’ da Filarmônica como um projeto da sociedade”, diz o maestro, que nesta semana completa 60 anos — um evento que será devidamente comemorado com um concerto amanhã e sexta-feira.

Mechetti já esteve à frente de orquestras no Japão, na Itália e na Nova Zelândia, entre outros países. Recentemente, serviu como regente principal da Filarmônica da Malásia, tornando-se o primeiro brasileiro titular de uma orquestra asiática. Atualmente é o regente titular emérito da Sinfônica de Jacksonville (EUA) e recentemente fez sua estreia na Finlândia. Abaixo, trechos da entrevista, em texto e vídeo, que o maestro concedeu à Bravo!

A Filarmônica de Minas Gerais comemora seu o seu 10º aniversário no ano que vem. E até hoje, cerca de 875 mil pessoas ouviram ao vivo mais de 640 concertos. Poderia citar os elementos alquímicos desse sucesso quase instantâneo?

Não creio que haja qualquer segredo, foi simplesmente uma equação bem simples (embora difícil de se encontrar na prática): propósito claro de missão, investimento, consciência das necessidades básicas e indiscutíveis na organização estrutural da orquestra, seu modelo de gestão e a competência dos músicos, funcionários e diretores. Creio que nesta década de atividades a Filarmônica alcançou um nível de reputação que a posiciona certamente como uma das melhores orquestras do Brasil e da América Latina. Fruto de uma iniciativa ousada do governo de Minas Gerais, cujo intuito não era apenas dar mais uma orquestra ao estado e ao Brasil, mas sim uma orquestra de excelência em todos os níveis.

Você dirigiu diferentes orquestras no mundo. Com relação à Filarmônica, como é trabalhar com esta instituição, em um estado musical, mas que ainda pode crescer muito em termos da fruição e conhecimento da musica clássica e de concertos de orquestra?

Um ponto importantíssimo que justifica o sucesso da orquestra foi a “adoção” da Filarmônica como um projeto da sociedade. A ideia de que estávamos construindo mais do que uma orquestra, e sim um corpo artístico que revelasse ao mundo o orgulho de algo de excelência, fez com que conquistássemos um público fiel, sempre crescente. Foi também nossa estratégia utilizar todos os recursos possíveis a fim de incluirmos a orquestra no imaginário da vida de BH e do estado. Além das séries de assinatura que apresentamos, somos talvez a orquestra profissional brasileira que mais se apresenta no interior de seu estado, que se aventura em projetos de apoio a jovens compositores (através do Festival Tinta Fresca) e regentes (com o nosso Laboratório de Regência) e que dedica boa parte de seu tempo ao investimento na ideia de que a música de qualidade é transformadora e contribuinte máxima no processo de emancipação da sociedade.

Gostaria que comentasse a preocupação de um compositor contemporâneo que me disse perceber uma certa decadência generalizada, em termos de valores, da ética, motivada por excessos do mercado, que tem alcançado a musica clássica. Ele afirma que, como em outras artes, a música tende a virar mercadoria, sobretudo diante de interpretações kitsch da música erudita, que ele escuta na mídia. E observa ainda que, em alguns segmentos, frequentar uma sala de concertos tem sido uma forma de adquirir prestígio social.

Nós presenciamos hoje um grande dilema. De um lado, orquestras perdem assinantes e lutam para conseguir manter sua relevância nas comunidades em que atuam. Ao mesmo tempo, nunca tivemos tanta facilidade em “obter” música clássica, “aqui e agora.” De outro lado, vivemos um período de transformação radical da sociedade, no que tange às suas expectativas e referências.

De certa maneira, isso sempre aconteceu. Só que hoje vemos isso com mais velocidade e efeito. Nós, como artistas interessados não só na preservação daquilo que de melhor temos, mas também na aplicação de nossa arte em prol da qualidade de vida das pessoas, não podemos evitar essa “abundância” fácil da informação. Mas devemos, sim, atuar para que a “integridade” da informação seja mantida. Não discordo de que este é um trabalho hercúleo, muitas vezes frustrante e desanimador. Mas temos que maximizar os recursos tecnológicos de que dispomos hoje, tentando nos utilizar deles para nosso benefício, a fim de direcionar o público a uma apreciação daquilo que reputamos ser de qualidade e de efeito transformador.

Se esse processo leva o público a adquirir “prestígio social” ao comparecer à sala de concertos e realmente desfrutar dos concertos oferecidos, que assim o seja. Cultura não é necessariamente entretenimento. Ela não é uma atividade lúdica, fácil de se consumir. Não podemos esperar que ela venha a afetar multidões. O que precisamos fazer, como agentes de cultura, é, a cada oportunidade, mostrar a relevância do que fazemos e transformar as vidas das pessoas, uma de cada vez.

Sobre curadoria ou direção artística. Certa vez li numa entrevista sua uma interessante observação: “dependendo da maneira como diferentes obras musicais são reunidas em um programa, cria-se um novo significado musical”. Poderia exemplificar?

Por exemplo, apresentamos este ano duas versões do mito de Orfeu: uma de Liszt, outra de Stravinsky. Se essas peças tivessem sido programadas em concertos separados, elas preservariam sua integridade artística individual e receberiam uma audição talvez até passiva do público, por não serem obras conhecidas. Ao agrupá-las num só concerto, conseguimos mostrar como dois compositores de épocas e estéticas distintas reagiram a um mesmo estímulo e criaram obras absolutamente diferentes sobre o mesmo tema. Isso faz com que a audição delas seja mais crítica ou “ativa”. É um convite para ouvir as obras e não somente escutá-las. O próprio Stravinsky dizia (parafraseando): “não há mérito em escutarmos uma obra musical. Patos também escutam”.

Você acredita na premissa de que ouvir música contemporânea é interessante para ouvir de forma diferente uma Sinfonia?

Sim, não há dúvida. As temporadas da Filarmônica, por exemplo, trazem ao seu público os nomes tradicionais como Mozart, Beethoven, Mahler, Villa-Lobos, ao lado de compositores esteticamente contemporâneos como Duttileux, Penderecki ou Schwantner. Nestes dez anos de vida, estreamos mais de 50 obras sinfônicas, a maioria de compositores brasileiros, muitos deles nascidos após os anos 1970. Nosso público entende que, para construir uma grande orquestra, a exploração do mais vasto e variado repertório é essencial. E que essa experiência deve ser compartilhada sem reservas.

Qual é o seu repertório preferido?

A grande vantagem de ser um regente e diretor artístico é que nosso repertório é extremamente amplo. A minha “preferência” é exatamente poder fazer algo novo a toda semana. Não consigo me imaginar repetindo os mesmos cinco ou seis concertos por anos e anos, sem que, com isso, perca o frescor do fazer música de modo renovado.

Agora, como regente, existem alguns compositores que acredito sejam mais representativos. Em geral, são compositores que também foram renomados regentes e que, sendo assim, tiveram uma concepção da escrita para orquestra diferente de outros compositores que não tiveram essa experiência. São eles: Mahler, Richard Strauss, Wagner, Berlioz. Mas, acima de tudo, Mozart!

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Nos dias 3 e 4 de agosto, na Filarmônica de Minas Gerais, haverá um concerto que marca a comemoração pelos aniversários de 60 anos do maestro Fabio Mechetti e também do violoncelista Antonio Meneses. Serão apresentados o Concerto para violoncelo de Hans Gal; Um ato de fé, de Levy Oliveira, e O Beijo da Fada: Divertimento, de Stravinsky.