Do Irã a Rio Preto

Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto (FIT) celebra seus 50 anos em 2019 com olhar fixo no presente

Rafael Ventuna
Jul 4 · 4 min read
Hearing do iraniano Mehr Theatre Group © Pierre Borasci

Cinquenta anos. Esta é a idade atual do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, conhecido como FIT Rio Preto ou simplesmente FIT. A convite da organização do evento viajei para acompanhar parte da programação e testemunhar este fato histórico para as artes cênicas brasileiras.

Afinal, nestas cinco décadas de vida, sobreviver às instabilidades da política e entrar para o rol dos principais festivais do país são seus os maiores desafios vencidos. Além da superação dos obstáculos de ter como sede uma cidade que não tem a indústria cultural como uma das atividades econômicas principais.

Cinquentão
Fugindo do saudosismo ou de devaneios futurísticos para celebrar a efeméride, o FIT Rio Preto não se arrisca e aposta novamente no formato já consolidado de sua estrutura. De 4 a 13 de julho, a programação coloca em diferentes espaços apresentações internacionais, nacionais, de artistas locais e atividades formativas e de reflexão. Além de criar ambientes para convivência e entretenimento nos diversos shows.

Alice & Baltazar ou Indevassável representa a cena riopretense © Clara Castañon

Nesta edição, a de número 40, o destaque fica com os trabalhos estrangeiros que vêm do Irã, Gana, México e Bolívia. A inclusão de obras como Domínio Público e Quando Quebra Queima evidencia seu viés politizado.

“Em um momento político de disputa, em que a cultura está sendo atacada de diversas maneiras, pareceu-nos que o gesto político mais fundamental era este: não dirigir as tendências a partir das nossas convicções, mas sim, abrir um espaço de respiro, plural e amplo como o teatro atual se mostrou”, resume Alexandre Dal Farra que integra com Adriana Macedo e Ruy Filho o time de curadores.

O FIT, desde 2001, como informa Adriana Macedo, é viabilizado pela parceria entre a Prefeitura de São José do Rio Preto e o Sesc São Paulo, onde ela trabalha. “Continuamos a realizar todos os nossos programas, projetos e parcerias normalmente. Estamos muito felizes com o alcance que o festival ganhou”, comemora ao anunciar que foram recebidas 755 inscrições de 16 países. Entres os brasileiros, propostas vieram de 18 Estados e do Distrito Federal.

No que se refere ao panorama nacional, desta vez, os trabalhos selecionados são de artistas oriundos do Amapá a Santa Catarina.

Ruy Filho reconhece os avanços que o festival conquistou por ser realizado no interior, mais precisamente no noroeste paulista, distante cerca de 440 quilômetros da capital. E revela sua preocupação com o legado efetivo que o evento deixa.

“O FIT pode abrir a um encontro inicialmente, mas precisa descobrir como, a partir dele, provocar uma continuidade com a produção local. Não serão apenas os artistas trazidos que ampliarão o convívio com a arte; e sim a descoberta das potências dos artistas locais no cotidiano da cidade”, sugere.

tReta do piauiense Original Bomber Crew © Maurício Pokemon

Passado, presente e futuro
Para Adriana Macedo, a longevidade do festival é uma vitória sem precedentes na história nacional. “Para o teatro brasileiro, o FIT já se consolidou como uma plataforma importante de exposição das obras, de troca de experiências e intercâmbios, de acesso a importantes trabalhos nacionais e internacionais e, sobretudo, como um espaço para o pensamento e a reflexão do fazer teatral”. E destaca. “A programação está maior do que nos anos anteriores. 34 obras. Mais de 60 apresentações”.

É preciso pensar de forma mais ampla sobre 50 anos”, propõe Ruy Filho, ao analisar o contexto político e artístico da segunda metade do século 20 e início deste século 21 no Brasil. “É um acontecimento para um festival chegar aos 50. A realização do FIT em 2019 demonstra a todos que inventaremos nossos próprios futuros”.

Já o otimismo de Dal Farra é mais visceral. “É algo para se orgulhar. E defender com unhas e dentes”. E confessa que pela curadoria julga ter feito jus ao que considera as características mais importantes do FIT Rio Preto: a abertura, a capacidade de abrigar o novo, o diverso, o múltiplo.


Conexão São Paulo
Hering, do Irã, estará em cartaz no Sesc Pompeia nos dias 9 e 10 de julho. O musical Elza cumpre temporada no Teatro Sérgio Cardoso até 14 de julho. O Auto da Compadecida, com direção de Gabriel Vilela, deve estrear na capital, mas ainda está sem data e local definidos.


FIT Rio Preto. 4 a 13 de julho. Grátis a R$ 17. Programação completa em fitriopreto.com.br.

Revista Bravo!

A Bravo! olha para as fronteiras do fazer artístico, dá acesso à nova arte, dialoga com os artistas e com o público que consome arte, debate tendências e sonha curadorias.

Rafael Ventuna

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Jornalista Cultural e Crítico de Arte

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