Flo Menezes e a poética do espaço

O compositor Flo Menezes (Foto: Chello/Unesp)

Apesar de ainda encontrar resistência do público e de ser minoritária nos programas das grandes salas de concerto, a música contemporânea segue dando mostras de sua vitalidade no Brasil. Um exemplo eloquente pode ser visto no DVD Boulez+, de 2015, que conectou obras de compositores brasileiros em atividade, como Sergio Kafejian e Alexandre Lunsqui, às do compositor e maestro francês Pierre Boulez, que então completava 90 anos — alguns meses depois, em janeiro de 2016, o pioneiro do serialismo viria a falecer.

Diversas entre si, as peças que compõem o repertório de Boulez+ tem em comum a interação de recursos eletroacústicos com o violino. Este ficou a cargo do experiente Claudio Cruz, que já foi spalla da Osesp e hoje é regente da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo e primeiro violino do Quarteto Carlos Gomes. Boulez+ é um dos finalistas ao Prêmio Bravo! de Melhor Disco Erudito e foi idealizado pelo compositor paulista Flo Menezes, que além de contar com duas obras no repertório, dirigiu a gravação do DVD.

Aos 54 anos, Menezes é sem dúvida uma figura-chave desta crescente, ainda que lenta, consolidação da música contemporânea no país, e está à frente de iniciativas como a Bienal Internacional de Música Eletroacústica de São Paulo, a Bimesp. Sua formação foi atravessada pela linhagem vanguardista da música do século XX, tendo sido aluno de Luciano Berio, Karlheinz Stockhausen e do próprio Pierre Boulez, além de ter sido orientado por Henri Pousseur durante seu doutorado. Hoje ele é professor do departamento de música da Unesp, onde dirige o Studio PANaroma, que fundou em 1994.

Os bastidores da gravação de “Boulez+”

Em entrevista à Bravo!, Flo Menezes comentou alguns dos procedimentos comuns à música eletroacústica, como a espacialização do som, e como eles se articulam nas peças de Boulez+. O compositor, que se define como um “militante cultural”, defende uma música que esteja na contramão do “amortecimento crítico” impostos pelo mercado e pelo poder: “Brigamos pelo aguçamento da sensibilidade das pessoas através da música”. Leia a entrevista completa:

Qual a relevância de se estabelecer um diálogo entre as obras de Pierre Boulez e a de compositores brasileiros contemporâneos? Que legado o compositor francês deixa para os músicos de hoje?

Sendo a música uma linguagem universal, estabelecer um diálogo com obras de qualidade ultrapassa fronteiras nacionais. Por tal viés, não é o fato de os compositores que convidei para o projeto serem brasileiros que enaltece o valor deste diálogo; é o próprio valor do legado de Boulez. Ao lado de Stockhausen e Berio (para falarmos de alguns dos principais nomes, e não deixando também de nos lembrar de outros muito relevantes, como os de Cage, Pousseur, Ligeti, Xenakis…), Boulez foi um dos protagonistas, no século XX, do que temos de mais atual, especulativo, artesanalmente bem feito e de maior consistência no que podemos designar por escritura musical: a composição que se alastra desde os primórdios da escrita e que estabelece forte intertextualidade com 800 anos de escritura musical.

É fácil notar que as composições presentes no DVD são muito distintas das que normalmente ouvimos nas principais salas de concerto, mas nem sempre conseguimos explicar a diferença. Você poderia comentar o que distingue o trabalho dos compositores reunidos em Boulez+ do que nos acostumamos a chamar de música clássica?

Mais que distintas das obras comumente executadas nas salas de concerto de música “clássica”, as obras do DVD Boulez+ são também muito distintas entre si. Mostram um panorama importante de poéticas diversas. Mas se há um traço comum em todas elas que as distingue do repertório mais tradicional, isto se deve à sua interação com as novas tecnologias e às formas pelas quais a escritura musical deixa se multiplicar pelos novos meios. Isto se dá basicamente por três ângulos: quanto aos espectros sonoros — novos sons decorrentes dos procedimentos de transformação eletrônica do violino, impossíveis de serem criados apenas com o instrumento; quanto às estruturas — rebatimentos, ecos, polifonias, heterofonias que brotam do diálogo do violino solista com os sons gerados eletroacusticamente; e quanto à espacialidade sonora — a forma pela qual cada compositor estabelece sua poética do espaço, em que os sons do violino “saem” do instrumento para perfazerem itinerários no espaço total de performance, o que pode se dar apenas através dos meios eletroacústicos. Para tanto, é necessário ouvidos abertos e inteligentes, aptos para a compreensão de que por trás de cada um desses três aspectos há todo um árduo trabalho, de muita consistência, sobre o significado de cada gesto.

Na sua composição presente no DVD há uma combinação de um instrumento “convencional” e analógico (o violino) com elementos eletrônicos. Poderia comentar o processo de composição, como o foco na “espacialização do som”?

Apenas com o advento da música eletroacústica a espacialidade sonora, antes fator meramente contingencial da composição, passa a ocupar um lugar fundamental dentre as estratégicas compositivas, a ponto de o compositor necessitar de pensar o que fazer com o espaço dos sons. No meu caso específico, esta consciência em torno do espaço já está presente mesmo em minha música puramente instrumental. “Scriptio”, por exemplo, obra para violino solo que está presente no DVD e que é desdobrada em “TransScriptio” para violino e eletrônica em tempo real, já trabalha a questão do espaço sem que eu faça uso de eletrônica: o violinista percorre o palco, de modo que às estruturas da peça correspondem momentos de projeção sonora espacial muito distintos. Traços no espaço ecoam traços da própria escritura musical. A consciência plena do espaço somente foi possível a partir da ocupação total do espaço de performance, prática esta que se tornou lema fundamental das poéticas eletroacústicas desde seus primórdios, e que continuamos a desenvolver.

Como avalia a interpretação de Claudio Cruz para um repertório tão exigente?

As performances de Claudio Cruz são simplesmente transcendentais. As artes em geral, e a música em particular, não conhecem concessão. No caso da música, é de importância crucial que os compositores se acerquem de intérpretes de alto gabarito. Um intérprete digno desta qualificação não é apenas aquele que possui dom motor extraordinário; é também aquele que possui um cérebro extraordinário, capaz de ressignificar o que toca. E somente o faz se compreender profundamente aquilo que interpreta. Tudo isto está presente na figura de Claudio Cruz: técnica e musicalidade impecáveis aliadas à sede do saber e à aguda curiosidade. É um privilégio trabalhar com um músico deste porte.

Projetos como o Boulez+ e a Bienal de Música Eletroacústica tentam apresentar a um público mais amplo as possibilidades da música contemporânea, além de jogar luz em compositores do século XX e XXI pouco conhecidos no Brasil. Qual é, na sua opinião, o lugar da música contemporânea no país?

A esta pergunta, respondo com uma constatação mais genérica: o lugar que hoje ocupa o Saber como um todo no Brasil é um “deslugar”. Estamos vivendo as consequências de políticas incultas advindas de uma classe política e de um poder econômico que estão entre os mais ignorantes e estúpidos do planeta Terra e da história da humanidade. Somos, portanto, militantes culturais. Estamos na contramão da subcultura de mercado e lutamos contra o amortecimento crítico imposto à população brasileira, maltratada pelos detentores do poder. Brigamos pelo aguçamento da sensibilidade das pessoas através da Música, em minha opinião a mais abstrata e a mais difícil das Artes, pelo alto nível de sua “tecnicidade”. Defender o Saber, a Cultura, as Ciências e as Artes é dever ético imprescindível se desejarmos transformar o Brasil e dar dignidade a seu povo.


A versão em disco de Boulez+ está disponível no Spotify. Ouça abaixo: