Fotografia macro e manual

"O conceito de criar fisicamente uma obra de arte está se esvanecendo em código binário", diz alemão Marius Sperlich

Está em cartaz na galeria Gabriel Wickbold, em São Paulo, uma série do fotógrafo alemão Marius Sperlich, que ficou famoso ao postar seus trabalhos no Instagram utilizando o corpo feminino como playground para close-ups narrativos. Apesar de utilizar bastante de partes íntimas — bonecos fazendo uma "pintura" em seios, miniaturas aproveitando a piscina formada ao redor de uma boca, ou a praia na virilha de uma mulher, o artista diz compor o trabalho colaborativamente, com influências das modelos e da maquiadora com quem trabalha, Joanna Bacas. Ele falou um pouco sobre as fotografias e sua relação com algoritmos, internet e redes sociais.

Quais são as expectativas de trazer o seu trabalho para o Brasil?
Eu prefiro abordar novas situações sem expectativas, mas com curiosidade. Estou interessado em experimentar a cultura e em ver como meu trabalho é percebido.

Um aspecto interessante do seu trabalho é que você cria em estúdio, em condições específicas, quando talvez pudesse ser mais fácil usar o Photoshop ou softwares de edição de vídeo. Por que fazer manualmente? Qual a diferença no resultado final?

Hoje, tudo pode ser desenhado ou renderizado virtualmente. O conceito de criar fisicamente uma obra de arte está se esvanecendo em código binário. Na minha experiência, as obras digitais podem ser bonitas, até mesmo perfeitas, mas falta conexão pessoal. Eu crio no espaço entre fotografia e ilustração. Cada obra tem duas histórias: a composição e o processo. A colaboração é uma grande parte do meu trabalho, influenciada pelas pessoas envolvidas. Uso o Photoshop para polir o resultado, não para criar ficção estética. Eu prefiro o processo de criar minhas maravilhas em miniatura. Dessa forma, posso controlar melhor o resultado do meu trabalho e me conectar com quem está vendo.

Como seu trabalho se relaciona a algoritmos e tendências da internet? Poderia ser feito sem eles?

É claro, as mídias sociais desempenham um papel importante nas tendências e na aclamação do trabalho, mas eu as crio à parte disso. A internet contribui para o sucesso do meu trabalho, mas não o orienta. Com ela, até pequenos criadores podem ganhar reconhecimento por meio de plataformas como o Instagram. Qualquer um pode mostrar seu trabalho para uma enorme audiência sem sair da sala. A única tendência que subscrevo é o potencial crescente de plataformas online. Essas plataformas fornecem aos artistas emergentes uma rede valiosa, que podem levar a oportunidades pagas. Fiz vários projetos para marcas. No entanto, prefiro mostrar meu trabalho pessoal no Instagram. À medida que me aprofundo em minha arte, me torno mais insistente em meu método, mesmo no trabalho comercial. Recentemente, tive a oportunidade de expressar meu estilo em uma capa artística para a Playboy.

Considerando que suas fotografias têm como plataforma principal o Instagram, como você vê o impacto das mídias sociais na divulgação da arte? Você acha que pode ser um pouco ameaçador (ou limitante) depender de uma única plataforma?

A internet oferece várias galerias virtuais, como o Instagram, onde é possível apresentar e compartilhar qualquer coisa que elas gostem. Essa distribuição rápida ajuda os artistas a crescer e inovar muito mais rapidamente do que há 10 anos. Dependendo de uma plataforma, não é ameaçador nem limitador. Independentemente de qual você escolher, se o seu trabalho atrai interesse, ele aparecerá em outros lugares. Como parte da “middle generation” [aquela que ainda viveu algum período antes da internet], lembro-me de quando a tecnologia entrou na minha vida. Eu me lembro do meu primeiro "tijolão", meu primeiro smartphone… E do começo do Instagram. A mídia social já conectou o mundo de maneiras antes inimagináveis. Quando olho para trás, fico impressionado com o que a internet me ajudou a alcançar. Quando me mudei para Berlim, peguei empregos para pagar aluguel e trabalhei até tarde nos meus objetivos . Eu pensei: “Um dia gostaria de expor aqui”. Agora, com apenas 27 anos, estou expondo minha arte em Miami e São Paulo. Estou sonhando?

Estamos vendo com mais consistência — recentemente, aqui no Brasil — o poder da internet na disseminação de informações falsas. Aqui, no Brasil, o presidente da extrema-direita foi eleito com um tempo mínimo na TV ou no rádio. Sua agenda foi principalmente divulgada pelas redes sociais (Whatsapp, Facebook, Twitter, etc.). Como você vê o poder da Internet em termos de propaganda?

A internet é uma força motriz em todos os aspectos da sociedade porque conecta pessoas em todo o mundo em questão de segundos. As pessoas compartilham grandes quantidades de informações subjetivas, muitas vezes apresentando-as como objetivas. A mídia social tem muitos benefícios em compartilhar informações, mas sempre haverá pessoas buscando lucrar com a curiosidade ou ignorância. O que foi imprensa amarela antes se tornou clickbait. Você é responsável por suas opiniões, e deve verificar com várias fontes confiáveis online.

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Exposição Marius Sperlich — Gabriel Wickbold Studio & Gallery
Rua Lourenço de Almeida, 167, Vila Nova Conceição, São Paulo
De segunda a sexta das 10h às 18h. Aos sábados das 11h às 17h
Grátis