Funk na cabeça

Com a faixa ‘Elza Aqui’, Romulo Fróes lança semente de novo álbum inspirado na violência e na potência do funk

Guilherme Werneck
Dec 3, 2019 · 11 min read
Foto: Luan Cardoso

Elza Soares não quis gravar a canção Elza Aqui, composta por Romulo Fróes e Nuno Ramos, no disco Deus É Mulher. A cantora, que desde A Mulher do Fim do Mundo, tem abraçado as canções de Fróes, não conseguia se ver cantando sobre si mesma na terceira pessoa. De certa forma, essa rejeição não deixa de ser uma bênção para o músico paulistano.

Elza Aqui, que chega hoje a todas plataformas digitais, marca o início de um projeto criativo totalmente novo, inspirado pelo funk, sobretudo o de Belo Horizonte, mas com um quê de música concreta e procedimentos caros à arte sonora. E, por se mostrar urgente, é o primeiro single que Fróes lança sem ter um álbum prestes a chegar no mercado.

“Lançar esse single está me deixando um tanto apreensivo, porque eu nunca faria isso. Lançar uma música solta sem ter um disco pronto é uma coisa nova”, me contou numa noite de farta conversa, entre uma cerveja e outra, no Ugues, o tradicional boteco de Higienópolis.

Uma coisa que admiro muito na discografia de Romulo Fróes é que cada álbum tem uma ideia clara por trás, tratada tanto lírica quanto musicalmente. E obviamente minha primeira pergunta vem desse lugar que de querer ver Elza Aqui como o embrião de uma nova fase.

“Primeiro tem isso que é para onde ir agora. Não é que eu pare e pense pra onde vou agora. As coisas vão pintando, vão aparecendo. Antes de O Disco das Horas, meu álbum anterior, eu estava afim de fazer um disco só de guitarras, quando vi não estava dando certo. O Gui Held, que seria obviamente a escolha, estava enrolado com outros trampos. Nisso o Nuno [Ramos] me mandou um email dizendo que escreveu oito letras para mim. Ele estava em Roma numa baldeação. Eu compus as canções, e pintou o Disco das Horas na minha vida. Abracei ele de peito aberto. Já tinha esse desejo de fazer um disco com arranjos à Tabajara por causa do meu pai, e eu falava muito isso com o Thiago [França]. E, puf, feito. É um disco meio estranho para mim, porque ele é realmente todo formatado e veio prontaço. As músicas nasceram em uma semana, o Thiago fez todos os arranjos. Não é muito assim sempre. Normalmente vai rolando e uma hora a coisa liga”, conta.

Esse novo passo, dado a partir de Elza Aqui, nasce de uma inquietação, quase uma crise geracional sobre os rumos da canção hoje. “No último ano eu estava pensando na música brasileira, no Brasil, e me perguntando: ‘Para onde aquela música brasileira sobre a qual eu escrevia, para onde foi a música da minha geração?’ Ficava pensando: ‘Será que a minha geração ainda está valendo, será que ela tem relevância?’ Aí misturou com essa música de hashtag. E os problemas do Brasil começaram a entrar na música de um modo que eu acho, via de regra, literal demais. Eu entendo, concordo, acho importantíssimo que a coisa esteja acontecendo como contraponto à realidade de hoje, mas enquanto consumidor de música, de arte, eu vejo um certo empobrecimento da imaginação. Acho que a imaginação da gente perdeu força, agora é tudo a vida como ela é, não no sentido rodrigueano, é muito sem imaginação. E tudo o que eu gosto de arte é imaginação. Ao mesmo tempo eu envelheci, não tinha mais a energia para ouvir coisa nova. E comecei a me sentir meio um tiozão. ‘Será que eu virei um tiozão do rock? Na minha época é que era bom, e tal…’”

A saída da crise veio com a sintonia em um Brasil que está a léguas desse mundo quase intelectualizado da canção, pelas mãos e pelos ouvidos de dois guias: Bernardo Oliveira, produtor do selo QTV e à frente das noites do Quintavant na áudio Rebel no Rio de Janeiro, e o jornalista pernambucano GG Albuquerque. “Bernado é meu farol, incansável, um cara que ouve música da Islândia e de Curicica [bairro da zona norte do Rio de Janeiro], que fala de Scott Walker e Zeca Pagodinho na mesma chave. Aliado às coisas que ele estava falando eu descobri um moleque, moleque mesmo de uns 20 e poucos anos, que é o GG Albuquerque, e aí comecei a pirar nele escrevendo umas paradas profundas sobre funk e sobre música periférica. Essa música que de algum jeito eu não tinha muito contato. Achei interessantíssimas as ligações que ele fazia. Pela via dele e do Bernardo eu comecei a ouvir essas músicas e pirei. Do ponto de vista da canção, nada está mais distante do que aquilo, é um tal de xota na pica e não sei o quê, e o assunto não varia muito disso, mas tinha uma força sonora incrível, sobretudo os caras de Belo Horizonte: o MC Rick, o MC Braian. Um troço que não tinha andamento, não tinha batida, tudo meio a capella, com sons eu não entendia se existiam ou não existiam, um negócio minimalista. Fui pirando, porque me remeteu ao Barulho Feio, o disco em que eu quis lidar com o som de um modo mais profundo no sentido de ele interferir na composição. Porque sempre tem a coisa do som. Fui fazer No Chão Sem o Chão porque eu queria uma coisa de rock, meio anos 70, mas no Barulho Feio, tem uma coisa das artes plásticas que é: vou andar 45 minutos captando o som da cidade e depois eu vou botar o som da cidade no disco. Por que eu fiz isso? Porque quando eu só ouço música no fone, raramente ouço em casa. Agora a Olga [sua filha de três anos] está me pedindo para ouvir música e eu coloco uns discos de vinil, mas, via de regra: fone, rua. Quando eu analiso a mix para ver se está boa, é de fone no busão e entra o som da cidade. Daí veio a revelação. As pessoas ouvem a música no fone e no fone entra o som do busão, então por que não colocar um busão na mix? Foi um comportamento totalmente artes plásticas. Fiz um circuito andando de 45 minutos da praça da República até a praça da Sé. Foi a primeira vez que eu fiz uma coisa que borrava o limite da canção. Uma coisa exterior à canção, que a agredia”, lembra.

Mas como o funk se conecta? “Quando eu vi esses moleques fazendo músicas sem beat, e os bailes lotados com as pessoas dançando e cinco mil pessoas cantando, comecei a me interessar por isso. Tem uma coisa de prosódia, o Kiko [Dinucci] que é bom dessas coisas, toca no violão a música e já acha um João Bosco ali [risos]. Não quero diminuir, mas imagino que eles não estão pensando nisso. E por não pensar nisso eu acho que eles estão revolucionando a música. E eu vejo uma similaridade com uma coisa que eu não vivi, que é o fenômeno do samba do início do século 20. Inclusive na perseguição, em prender o Renan da Penha. Inclusive o fato de as pessoas dizerem que isso não é música e a coisa moralista. E é realmente difícil de mostrar para minha filha, porque ela já começa a aprender palavrão. Mas quando toca, ela dança na hora. O grave bate e ela rebola. Aí entra a letra e eu fico assim porque não quero explicar o que é xota na pica para ela aos três anos e meio de idade [risos] Mas é isso que eles estão falando, é o que eles estão vivendo, é o rolê deles, a verdade deles. E é de uma força incrível e totalmente fora da indústria. A primeira coisa fora da indústria que eu vejo e que sobrevive. Eles têm 53 milhões de views, não estão no festival, estão sendo presos. Eu, enquanto comentador, intelectual da canção, senti a necessidade de fazer um negócio com esse som”, elabora.

Decodificando o funk de Belo Horizonte, Fróes elenca alguns elementos que o distanciam até do funk carioca, digamos, clássico. O uso dos samples, a batida mais esparsa, os vocais, a falta de estrutura que se contrasta com o suingue carioca. “Os caras estão falando em BPM [batidas por minuto] e não estão falando de melodia e harmonia. Agora é 150, agora é 170. É diferente também do lugar intelectual da música eletrônica. Fui ver uma peça de música eletrônica na Osesp outro dia e achei uma caretice. O MC Braian aqui é tão mais foda. Eles estão falando de frequência, do mais agudo e do mais grave, e eu passei a me interessar muito por isso.”

Mesmo com essa influência do funk, dificilmente seria possível classificar a versão de Elza Aqui como batidão mineiro. Isso porque o ponto de partida é bem diferente. “Tive uma intuição de pegar meu próprio material, para manipular essa canção a partir das outras canções minhas e quis fazer isso de um modo radical. Porque eu tenho todas as pistas separadas de todos os meus discos, mas eu não queria pegar as pistas separadas, queria pegar a canção já finalizada, mesmo que destorça e desafine”, diz. Não pensou em usar um autotune?, pergunto. “Até pensei mas não rolou. Amo o que o Caetano [Veloso] fez com a Gal [Costa, em Autotune Autoerótico], amo os que os moleques fazem com a voz deles, mas confesso que tenho um certo pudor. O que eu fiz, mas está por baixo na mix, foram uns contra-cantos meio fantasmagóricos, mas ainda está meio tímido, não está na cara. A partir dessa escuta do último ano, estou a fim de zoar a minha voz.”

Confesso que quando ouvir Elza Aqui pela primeira vez, não liguei os pontos com o funk. Para mim, a manipulação da canção estava mais próxima do rock industrial dos anos 70, das colagens de fita, do começo da música eletrônica. Mas não era daí que Romulo estava vindo para transformar essas canção que, no violão, era muito mais melodiosa. “Dá pra achar um krautrock nela, um disco que me deixou pirado foi o Blarf, um disco de colagem, projeto do Eric Andre em que ele mixa Jorge Ben, Marvin Gaye.”

Todo o processo de chegar a essa sonoridade não foi simples, e teve a mão do produtor Daniel Bozzio. “Estou me acostumando com essa faixa ela. Logo que eu fiz ela estava bem mais radical. Aí eu fui dando uma recuadas, umas apaziguadas, mixando. E uma coisa que eu percebi é para mim a canção tem de clara. Antes a voz estava muito mais afundada. Uma coisa engraçada do funk é que eles às vezes parecem todos fanhos, porque eles fazem vozes, eles interpretam, não cantam com a voz deles. E eu quero fazer isso também, mas ali às vezes eu não entendo a letra porque a dicção dos caras é ruim. Meu limite é entender a letra.”

Mais para frente, Romulo mostra que tem outros limites se tomarmos Elza Aqui como um prenúncio do próximo disco. “Eu quero pirar mais ainda. Pegar uma música sem distorcer nada, até a voz. Mas não sei se eu quero lançar um disco insuportável. Não sei se eu acho legal. O Barulho Feio tem esse nome mas eu acho um disco lindo, que dá para ouvir. E depois desse single ele praticamente virou um disco de bossa nova. [risos] Então, ao longo do disco, eu quero testar o limite. O som virou canção, o sample virou canção, o recorte é canção, e eu estou até fim de compor. Queria pegar, sei lá, Para Fazer Sucesso [De No Chão Sem o Chão] com voz e tudo e, em cima disso, cantar outra música. Agora, como isso vai funcionar em 10, 11 faixas? Eu tenho meu limite, que é a beleza da canção. Obviamente que é a beleza da canção muito expandida, mas é uma espécie de trabalho para fazer ao longo do disco.”

Fróes ficou bastante feliz com a nova parceria. “Foi engraçado por que houve duas posições curiosas. O Dani é um cara antenadaço, sabe tudo, mas tem um lado técnico. Justamente por saber de tudo e ser um engenheiro de som, eu achei que ele ir tar uns limites, de não botar uma coisa desafinada, por exemplo. Mas, no fundo, ele adorou isso. E virou um cara louco. A Alice [Coutinho], minha mulher, que é doida, que gosta de inventar, que é pra frente, e que não à toa casou comigo, começou a ocupar o lugar do ‘mano, não vai ficar insuportável?’ [risos]. Aí a Alice virou a careta, e o Dani o loucão. Mas mesmo quando ele está loucão, ele está pensando no beat, na produção, ele foi muito importante. Por que eu lá era um franco-atirador. Tem um coala no final da música, que eu vi no Twitter e pirei no grave. Ele foi lá e usou, mas colocou na hora certa, ralentado, no fim da música. Achei uma gravação de gamelão de Bali dos anos 40, e ele vai organizando no melhor dos sentidos, sem caretear, mantendo a violência. Quando a gente começou, ele quis pegar as faixas separadas, mas quando eu quis tudo junto, ele entendeu, abraçou. Esse violão que é mais claro na música, que é do Barulho Feio, ele vem junto com um baixo e uma guitarra, e ele não só entendeu como usar, ele ainda fez umas operações ao vivo. Quando a música repete eu colei uma introdução de uma música que eu fiz do Nelson Cavaquinho, e deu certo. Esse background dele das batidas, do rap, do dub, do grave, foi muito importante. Eu precisava de uma pessoa, não saberia fazer isso e ele se mostrou a pessoa perfeita. Foi uma espécie de teste e logo a gente se entendeu.”

Até chegar à versão final, Elza Aqui passou por algumas etapas. “Eu pedi, por exemplo, para aumentar a voz para entender a letra. Outra coisa que aconteceu. Como a base é muito agressiva, eu cantei a música de uma forma muito automatizada, e fiquei incomodado com isso. Aí eu voltei no estúdio, pedi para ele tirar tudo e deixar só o clique. E cantei a capella. O interessante é que quando você ouve a capella a melodia está intacta, e quando você ouve com a base, a melodia volta a travar, a ficar dura”, descreve.

Mesmo com esse prenúncio, desconfio que o próximo disco não será exatamente um disco de funk, mas também não será um disco de protesto literal. O próprio uso do funk é um desafio a uma visão esquerdista e careta da canção. “As normas da esquerda consciente não colam, [o funk] tem uma violência que eu não vejo mais, salvo exceções, na minha geração. Não são músicas que estão na minha playlist. O Lucas Santtana, que está ligado nisso desde que não era modinha, ele fez Parada de Lucas nos anos 90, sente falta de mudar o discurso, acha que o funk podia ter mais texto, mais imaginação do que essa coisa pornográfica”, lembra. “Uma coisa é enxergar grandeza naquilo. Outra coisa é enxergar grandeza sob a ótica do ocidental classe média como a gente, dizendo que aquilo é foda porque parece música erudita contemporânea, ou porque é sincopado. Pô, é foda por que é foda, porque está fora de tudo. É foda porque é violento e está mudando todo um lugar da sociedade. Porque comunica. Eu nunca vou ter 20 milhões de views na minha vida. Nunca. Não é possível não ver a relevância. E eu, enquanto operário da canção, me apropriei, já que eles se apropriam de tudo.”

Revista Bravo!

A Bravo! olha para as fronteiras do fazer artístico, dá acesso à nova arte, dialoga com os artistas e com o público que consome arte, debate tendências e sonha curadorias.

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