Gal To-tal

A cineasta Dandara Ferreira mergulha na obra da cantora baiana em série de quatro episódios para a HBO

O nome dela é Gal — fotos: Ivan Abujamra e Divulgação

Quando uma professora de dança moderna de Dedé, que viria a ser a primeira mulher de Caetano Veloso, apresenta Gracinha para o futuro arquiteto do tropicalismo, ele achou que aquela menina era a maior voz do Brasil.

Pouco depois, quando João Gilberto a conheceu, pediu que ela fosse buscar o violão e começou a tocar uma música atrás da outra para a menina cantar. Não teve dúvidas ao dizer que ela era a maior cantora do Brasil.

Tom Zé, Maria Bethânia, Gilberto Gil. Não havia quem não ficasse enlouquecido pela voz da menina que treinava em casa, ouvindo rádio e cantando com uma panela ao lado do rosto para aprender a projetar a voz.

Pouco depois o Brasil conheceu sua maior cantora. Entretanto, quase um “quiet Beatle” da Tropicália, pouco se ouviu da voz de Gal para além do cantar. Precisou de uma fã, que se apaixonou por aquela voz na primeira infância, ouvindo Fa-tal com o pai na fossa depois de sua mãe sair de casa para que a voz menos audível de Gal Costa fosse amplificada.

“Apesar de ser baiana e de conhecer Gil e Caetano por conta de meu pai [Juca Ferreira], não conhecia Gal. A primeira vez que estive com ela, foi na época do Recanto [2011]. Desde a adolescência era muito fã dela, principalmente dessa Gal dos anos 70, fatal, diva do desbunde”, conta Dandara. “Um dia recebi um telefonema de Caetano me convidando para jantar. Estava cheia de compromissos e, num primeiro momento, disse que não podia. Quando ele contou que a Gal estaria, cancelei tudo e fui correndo encontrá-los. Foi horrível, ela não deu a mínima para mim, só queria falar com o Caetano”, ri.

Isso não impediu que Dandara conseguisse abertura para fazer essa investigação sobre a vida da cantora, que se materializa agora na série O Nome Dela é Gal, exibida em quatro episódios de uma hora, aos domingos, às 22h, pela HBO, a partir deste domingo, dia 11.

Os quatro episódios abordam quatro fases distintas da carreira de Gal. O primeiro conta o início da carreira e vai até a gravação do LP Domingo, com Caetano Veloso, em 1967. O segundo mergulha no tropicalismo, quando Gal ganha o Brasil. O terceiro fala de sua fase pop, que começa no fim dos anos 1970 e segue até os 1990. E o último aborda a Gal de hoje, que se junta a músicos jovens, tanto em Recanto como em Estratosférica.

“No primeiro episódio, a grande coisa é a Maria da Graça se transformar em Gal, a formação desse grupo de amigos, Gil, Caetano, Bethânia, a fase joão-gilbertiana, tímida, e a chegada do empresário Guilherme Araújo, que lhe dá o nome de Gal”, conta Dandara. “Mas o que eu mais gosto é o segundo, cuja temática é a Tropicália. Quando ela explode com Divino, Maravilhoso, deixando de lado o jeito tímido para cantar de forma expressiva, gritar, aflora todo um outro lado dela. Para mim, essa transformação mostra que ela também é uma personagem subversiva.”

Embora Gal não tenha aberto seu acervo pessoal de fotos, não tenha gravado cenas externas e não tenha falado muito de sua intimidade, há muitas preciosidades na série. Com uma pesquisa impecável, traz imagens que nem a Gal nem os outros tropicalistas sabiam que existiam. “Tem umas gravações feitas pela TV alemã, na Bahia, que nem Gal nem Caetano sabiam quando e onde foram feitas. Descobrimos na cinemateca imagens inéditas incríveis do Leon [Hirszman, cineasta] na época do show Fa-Tal, que mostram a intimidade dos dois.”

Outra preciosidade são os escritos que Dandara encontrou. “Para mim foi uma surpresa. Como fã, não estava acostumada a ver a Gal se posicionar. A Tropicália é uma voz masculina. Mas foi muito bacana ver que seus escritos são interessantes e têm uma consistência”, comenta. Esses textos, escritos no começo dos anos 2000 para uma possível biografia, entram na série na voz da própria Gal.

Dandara cedeu à Bravo! um deles, em que ela fala sobre a Tropicália:

Naquela época convivia com todo o ambiente tropicalista. Só falávamos dos movimentos novos que surgiam no mundo. Gil ouvia Hendrix o dia inteiro. Janis Joplin não saia da minha cabeça. Aquele som, aquele rasgo de voz foi me tomando de uma forma que criou em mim uma necessidade de fazer alguma coisa diferente do que eu acreditava, de tudo o que já fizera e de como eu entendia a música até então. Eu era muito radical, gostava de pouquíssima coisa. João era meu ídolo e nada, quase nada passava pela minha peneira. Não gostava de iê iê iê, nem da Jovem Guarda, de nada. Precisava fazer alguma coisa para me expressar, botar pra fora o que eu sentia, com força, atitude, e que, falando francamente, chamasse a atenção sobre mim.
Gil e Caetano, envolveram-se de corpo e alma com essas novas experiências da música popular brasileira. E dentre essas pesquisas me deparei com Divino Maravilhoso, uma canção que mexeu comigo. Caetano convidou-me para cantá-la no Festival da Record e Gil se propôs fazer o arranjo. Ele foi tão perspicaz que me perguntou como é que eu queria cantá-la. Expliquei que queria cantar de uma forma nova, explosiva, de uma outra maneira. Queria mostrar uma outra mulher que há em mim. Uma outra Gal além daquela que cantava quietinha num banquinho a bossa nova. Queria cantar explosivamente. Para fora. Gil fez então o arranjo para o Divino Maravilhoso.
Quando Caetano me viu pisar o palco cheia de penduricalhos e espelhinhos pendurados no meu pescoço, aquela cabeleira afro armada por Dedé, quase morreu de susto. Ele não sabia de nada. Não tinha escutado o arranjo do Gil, nada, nada. Cantei com toda a fúria e força que haviam em mim. Metade da platéia se levantou para vaiar. A outra metade aplaudiu ferozmente. Um homem na minha frente berrava insultos. Foi então que me veio ainda uma força maior que me atirou contra ele. Cantava diretamente para ele: É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte! Cantava com tanta força e tanta violência que o homenzinho foi se aquietando, se encolhendo, e sumiu dentro de si mesmo. Foi a primeira vez que senti o que era dominar uma platéia. E uma platéia enfurecida. Naquele tempo de polarização política, a música era a única forma de expressão. Despertava paixões, verdadeiras guerras. Saí do Divino Maravilhoso fortalecida, crescida. Acho que naquela noite entrei no palco adolescente, menina, e saí mulher. Sofrida, arrebentada, mas vitoriosa.

Dandara constrói a narrativa da série de um jeito muito fluido, fazendo com que as histórias sejam contadas por diferentes vozes, que vão se complementando: Caetano, Gil, o ex-namorico de portão Tom Zé, Nelson Motta, Luiz Melodia, Bethânia, a amiga de infância Sandra Gadelha, famosa Drão. “O foco é a Gal, mas tem depoimentos incríveis. E nem sempre elogiosos. Sobre fase pop de Gal, por exemplo, Caetano diz que ele e Bethânia eram aristocráticos, enquanto Gal e Gil foram pro lado pop, que ele não gosta tanto, mas sabe da importância que teve”

É essa importância que Dandara traz à tona com essa série. Mas como fica a fã depois de mergulhar na vida de seu ídolo? “Para mim, como sou muito fã, foi uma oportunidade de reverenciá-la e colocá-la no devido lugar, deixar esse registro na história”, conta. “No processo, a Gal foi desmistificada. Esse foi um projeto desafiador, longo, bem exaustivo. Um projeto grande, de uma personagem grande, que tem uma história muito consistente.”

Além da estréia no Brasil, a série será exibida em 24 países, na América Latina e Caribe.