Geometrias da ancestralidade

Emanoel Araújo ocupa subsolo do Masp com esculturas, gravuras e obras gráficas de diferentes períodos

Suíte Afríquia II (1977)

Um artista de formação moderna, versado nas técnicas da gravura e da escultura em madeira, visita a África, alcança suas “raízes baianas” e encontra força poética na ancestralidade negra, em cujas obras ganha a forma de abstrações geométricas de cores vivas.

Os momentos cruciais dessa trajetória estão materializados nas 40 esculturas e xilogravuras e 30 trabalhos gráficos de Emanoel Araújo que o Masp exibe a partir de hoje (6/3). A individual integra o programa previsto para o ano da instituição, que gira em torno de Histórias Afro-atlânticas — neste momento também estão em cartaz mostras de Aleijadinho e Maria Auxiliadora no contexto do projeto.

Apesar de cobrir diferentes momentos da produção do artista de 77 anos, com obras desde a década de 1960 até hoje, a curadoria de Emanoel Araújo, a ancestralidade dos símbolos — África/Brasil privilegiou uma articulação temática entre as peças. “É uma exposição que cobre diversos períodos do Emanoel, mas não tem a pretensão de ser cronológica, nem de ser uma retrospectiva que dê conta de todas as fases do artista”, explica Tomás Toledo.

Suíte Afríquia I e III (1977)

Entre os destaques da mostra estão as peças da Suíte Afríquia, feitas logo após a ida de Emanoel Araújo à Nigéria, no início de 1977, para o 2º Festival Mundial de Arte e Cultura Negra e Africana, o FESTAC. Segundo analisa Toledo na introdução do catálogo da mostra, nestas peças “os elementos geométricos se adensam, tornando-se mais justapostos, e o uso da cor intensifica-se em um jogo cromático contrastante, com uma paleta calcada nas cores do pan-africanismo: o preto, o vermelho e o verde”.

A série explicitava, segundo Toledo, temas africanos que estavam apenas insinuados nas xilogravuras que Araújo produziu no início dos anos 70, como suas “gravuras de armar”. Esse período foi caracterizado, segundo o curador, por uma paleta de cores e uma estrutura gráfica “que dialogava com as padronagens dos tecidos tradicionais africanos, como os Panos da Costa — peça que fazia parte indumentária de mulheres negras no Brasil até o século 19 — ou os tecidos Kente” ganês.

Sem título e gravura de armar (1972)

“A cor também tem um sentido simbólico”, conta o artista, que passou a buscar, através da linguagem cromática, “uma ligação com o contexto da espiritualidade”. Ao mesmo tempo, Araújo explica que havia fatores materiais em jogo, já que no caso das esculturas, a cor não é textura (como seria numa pintura), pois é “chapada e clara”, representando uma continuidade em relação às gravuras e aos trabalhos gráficos prévios.

As cores da África foram um ponto de inflexão para o artista. Segundo ele, a ida a Lagos “de uma certa forma me aproximou de uma questão de ancestralidade, de convivência com a questão religiosa”, tornando próxima “uma questão que era muito distante — a África, essa África nigeriana, iorubá”. O artista, no entanto, rejeita termos essencialistas, e julga que seria “cabotino” dizer coisas como “a África entrou em mim”.

Sem título (1980)

Araújo também evita falar em arte da diáspora, já que prefere a ideia de que uma África diferente foi pensada segundo condições específicas em cada país que recebeu pessoas do continente. “A ideia da África que nós temos é uma ideia nascida no Brasil”, diz ele. “Mesmo na religiosidade, a religião é uma forma de expressar a religiosidade africana, mas de uma maneira brasileira — assim como a cubana, com a Santería, ou o Vodu do Haiti”.

Apesar de não se apresentar como um religioso, Emanoel Araújo diz que sua relação com os elementos do candomblé vai além da estética, ainda que seja formulada em obras de arte. “É mesmo uma vontade de me aproximar de uma coisa que vivenciei e que, dentro da minha concepção, eu não tinha interesse em mostrar com uma volta à figuração explícita. Eu juntei meu trabalho com a geometria com essa ideia de religiosidade”, continua.

“Essa questão da religião africana está ligada a uma ancestralidade de um homem negro, de um artista negro que trabalha com a consciência de fazer uma relação dentro desse universo, entre uma coisa e outra — o mundo ocidental e o africano ou baiano, mas sem ser explícito, sem ser uma figuração identificável”, sintetiza.

Exu (2010) e Oxóssi (2007)

Esse programa estético — ancestral e moderno — ganha corpo nos relevos escultóricos que levam nomes de orixás. A referência explícita se encerra nos títulos, já que sem ele o espectador é convidado a decifrar a peça para descobrir a que entidade se refere. Cores, formas e objetos servem de pista, ao mesmo tempo que despistam noções estanques do imaginário afro-brasileiro e bloqueiam o ideário exótico.

Quando peço que Emanoel comente a série, ele desdobra a forma geométrica e o conteúdo religioso em termos políticos e espirituais. “É uma tomada de posição”, afirma, explicando que “quis aproximar minha geometria a uma condição não religiosa, mas quase religiosa”. A maneira encontrada foi formular “uma metáfora em que você pudesse ler a geometria e ao mesmo tempo ter uma outra mensagem, que fosse a espiritual”.

“Nesse momento a geometria do Emanoel emite signos”, analisa Toledo. “Ela representa de uma forma abstrata os elementos que estão em torno de um orixá. Em alguns casos, as esculturas não tem nenhum objeto que seja uma insígnia, que fale sobre Xangô ou Exu, mas o Emanoel faz alguma composição geométrica que transmite os elementos do orixá em questão”, continua o curador. “É bonito esse momento em que a geometria comunica, aliada a objetos encontrados que o Emanoel reelabora e adiciona a essa escultura, que acaba se tornando uma espécie de assemblage”.

Bicho alado (1980)

Esta não é a primeira individual de Emanoel Araújo no Masp. Em 1981, por iniciativa de Pietro Maria Bardi — fundador e diretor do museu à época — esculturas e gravuras do artista eram exibidas no mesmo subsolo hoje ocupado. Segundo Toledo, o momento resultava da proximidade de Bardi com o artista, que teve na mostra “um marco na carreira” ao exibir, em uma instituição de porte, “um conjunto consistente e grande de obras”.

Naquele período de abertura política, novas iniciativas da luta antirracista surgiam no país — anos antes era fundado o Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial, anos depois o Geledés — Instituto da Mulher Negra, para ficar em dois exemplos.

A exposição no Masp conferia então parte da visibilidade e do prestígio necessários para que Emanoel, décadas depois, fundasse o Museu Afro Brasil, em 2004.

O país, o movimento negro, o Masp e a obra de Emanoel Araújo se transformaram desde aquela exposição. Mas é ainda desse diálogo — nem sempre tranquilo, mas sempre sugestivo — entre o passado e o presente, o ancestral e o moderno, o espiritual e o político, a África e o Brasil que parte expressiva da produção artística contemporânea retira força e interesse.


Emanoel Araújo, a ancestralidade dos símbolos — África-Brasil: Visitação até 3/6, de terça a domingo, das 10h às 18h. Às quintas, até 20h. Ingressos: de R$ 17 a R$ 35. Grátis às terças. Masp: Avenida Paulista, 1578 — Bela Vista — São Paulo.

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