Glória, horror e inspiração

Fernanda Torres narra as dores e as delícias de um ator de meia-idade e faz um retrato histórico da dramaturgia brasileira

A atriz em “A Casa dos Budas Ditosos”

É impossível ler o novo livro de Fernanda Torres sem pensar no que Barbara Heliodora, a mais lendária (e mais temida) crítica teatral brasileira, acharia do enredo se estivesse viva. Duas razões levam a isso: a primeira é a relação que Heliodora tinha com Fernanda, que a chamava de tia durante a infância. “Tia Barbara escreveu meu epitáfio nas páginas amarelas da Veja, em 1993. Foi um choque do qual demorei um bom tempo para me recuperar. Na entrevista, ela me chamava de títere de Gerald Thomas e dizia que meu talento jamais chegaria aos pés do da minha mãe. Indignada, peguei o telefone e liguei para a ex-tia”, escreveu a atriz na revista piauí, no obituário da crítica falecida em 2015. A segunda razão é que, se a dama de ferro tinha fascínio sobre a obra de Shakespeare, em A Glória e Seu Cortejo de Horrores, Fernanda conta a história de Mario Cardoso, ator de meia idade que decide encenar uma versão de Rei Lear, tragédia shakespeariana de 1606.

Como um diário escrito primorosamente, Cardoso vai — como diz o velho clichê — do luxo ao lixo, desde o auge da fama como galã de telenovela, ao fracasso no teatro. O livro é um verdadeiro retrato de grandes nomes da nossa dramaturgia. “Fui feliz no começo, aos vinte, e também aos trinta, quando larguei o teatro e emendei uma sequência de sucessos na televisão”, diz o personagem em uma das passagens. “Famoso, vivi o apogeu da minha arrogância. Comi muita gente, gastei mais do que devia, humilhei subalternos, acreditei em destino. Não mais. O contrato polpudo me transformou num ator preguiçoso. Com os anos, me cansei da rotina das gravações e aceitei papéis periféricos”.

O leitor acompanha ao longo das páginas um histórico do teatro no Brasil, desde a influência exercida pela política, aos períodos de chegada de outras formas de entretenimento, como o Cinema Novo, passando pela fase porra-louca de “uma geração que viu sua ideia de arte sucumbir ao mercado, à superficialidade do mundo hiperconectado e à derrocada de suas ilusões”, como diz a sinopse da Companhia das Letras.

Um destaque: mesmo o livro sendo narrado por um homem, de tão acostumados que estamos com a presença de Fernanda na televisão e nos palcos, parece que ouvimos sua voz contando a vida de Mario Cardoso. Dona de um talento estético e visual sublime, a autora faz a gente enxergar as cenas enquanto lê aquela história. Habituada a protagonizar sucessos como as séries Os Normais, Tapas e Beijos, e o monólogo A Casa dos Budas Ditosos, Fernanda é expert em interpretar a vida como ela é, e deposita isso no que escreve. Com sarcasmo e ironia, alegrias e tristezas, frustrações e euforia. Com glória e muitos, muitos horrores. Aliás, o título do livro vem de uma frase de sua mãe, Fernanda Montenegro, e não há melhor definição para uma obra que conta as dores e delícias de quem vive de arte no Brasil.

Outro momento no qual a presença de Fernanda Torres se mostra apurada em Mario Cardoso é ao encontrar o teatro de Tchékhov. Ali, lembramos novamente de Barbara Heliodora. Em 2001, quando a atriz encenou A Gaivota, a crítica escreveu que “o cenário era um horror, e o texto de Tchékhov foi cortado de maneira absurda, de modo que ela mal conseguiu se safar”. Quem dera Heliodora estivesse viva para ler este livro!

Numa das primeiras páginas, o personagem relembra o fiasco de uma estreia, quando cita a crítica de um jornalista sobre atores consumidos pela vontade de serem maiores do que de fato são. Fernanda Torres, felizmente, não padece desse mal. Em entrevista para a revista Trip em 2014, ao falar sobre seu bem-sucedido romance Fim, ela se disse despreparada para o mundo literário e que talvez não conseguisse afirmar que é uma escritora, até mesmo para não perder a liberdade de poder escrever quando sentir necessidade, vontade e inspiração. Agora, certamente, ela pode ficar tranquila: é uma grande escritora, livre, necessária e muito inspiradora.

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A Glória e Seu Cortejo de Horrores, de Fernanda Torres. Companhia das Letras, 226 págs. R$ 44,90.

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