“Gosto de causar um desconforto”

Na série de entrevistas de Rafael Spaca com grandes quadrinistas brasileiros, a vez é de Chiquinha — ou melhor, Fabiane Langona

Por Rafael Spaca

Você é de uma geração, ainda, que causa certa estranheza quando menciona a sua profissão. Te incomoda afirmar que ser mulher e cartunista não está dissociada uma coisa da outra?

Apenas o fato de se dizer cartunista em algumas situações e/ou círculos sociais causa estranhamento de forma geral. “O que é isso? Ah, sim! Aqueles desenhos!” ou “ E você vive disso!?” (expressão chocada). Esta questão de ser uma mulher atuando na área, principalmente de humor, acredito não causar tanta comoção como quando comecei a publicar, há uns 10 anos. Finalmente.

Isso vai mudar?

Já mudou. Apesar de que, historicamente, o humorismo sempre foi considerado um território de machos. Durante um tempo eu pouco fazia ideia ou me importava com o fato de que estaria com meu trabalho rompendo com alguns tabus nesse sentido, de contrapor estereótipos. Nunca fui de me colocar num lugar sagrado como mulher. Com deveres, com uma postura comedida ou subserviente a zelar, então só segui o ritmo. Causar desconforto reflexivo é um esporte que prezo um tanto, e cartunistas estão aí pra isso.

Há um certo fetiche dos leitores em relação a ter uma mulher como cartunista?

Fetiche é um termo meio dúbio. Mas acredito que há sim uma curiosidade pelo ponto de vista feminino. Não estou me referindo ao titubeante “universo feminino” que muitos costumam definir tão-somente como dramas que envolvem futilidades gerais. Me refiro às ideias, à sensibibilidade… e, por que não?, à habilidade de tratar de questões um tanto caras sob uma perspectiva hormonal experiencial particular toda nossa. E me encontrei como cartunista justamente por isso, pra quebrar expectativas de todos os lados que viessem. Pra bater nesses padrões, mostrá-los ridículos. Imprimir clichês que de tão arraigados e persecutórios só vemos quando não estão refletidos diretamente no espelho. E não estamos falando aqui apenas de mulheres, e sim do humano.

Lá na infância, foi você estimulada ou desestimulada a desenhar?

Fui muito estimulada (como toda criança que só para quieta com uma tonelada de papel e canetinhas… é meio um truque isso, não?) mas, principalmente, a ler. O que penso ter feito a diferença foi a quantidade de quadrinhos que tinha disponíveis em casa. Desde que tenho lembrança, me vejo copiando esse formato: fios, bonecos falando em balões. Meu pai tinha muitos gibis de faroeste, aqueles TEX. Umas coisas italianas clássicas, coletâneas do Pasquim.. ao passo que minha irmã mais velha, dúzias de Chiclete com Banana e revistas da Circo, etc. Tava feito. Foi uma espécie de alfabetização.

Como define seu traço?

Zero técnica. Muito ódio carinhoso.

Tinha outros sonhos além de desenhar ou esse era o seu único objetivo como profissão?

Desenhar nunca foi um objetivo profissional. Aconteceu de o Fábio Zimbres fazer uma conta do Blogspot pra jovem, eu que morria de vergonha e desejava tanto como morrer compartilhar com o mundo tamanho semi-autismo. Pensava que nunca mais teria amigos ou ficaria com alguém romanticamente após isso. Aconteceu também de ser chamada pelo Ota pra trabalhar na MAD. E também, logo depois, ser chamada pelo Ivan Finotti pra publicar na Folha de S. Paulo. Tava no meio de uma faculdade que fazia pois: gosto de escrever e editar coisas, muito de fotografia e rádio. Sem grandes utopias. Fui no fluxo dos acontecimentos e cá estamos.

O que saía nos seus primeiros rabiscos?

Na infância desenhava muita banda, esses roqueiros exóticos. Minha irmã tem uns desenhos que fiz do Kiss impressionadíssima por conta daquele filme do parque de diversões — Kiss Meets the Phantom of Park. Desenhava umas figuras históricas nas provas… tipo o Karl Marx. No mais, sempre pessoas ou bichos. Cenários apurados nunca foram uma onda forte.

Quais eram as suas principais referências?

Além de ter conhecido muito cedo o trabalho do Angeli, me identificava muito com o jeito que ele inseria música nos quadrinhos, aquilo me pegou – imediatamente se tornou muso inspirador com direito a altarzinho e tudo o mais. Era aficionada pela MAD. Comprava em sebo tudo que achava da época da Vecchi e ainda peguei uma boa fase da Record no começo dos anos 2000 vendendo em banca. Com o Ota, entendi que podia escrever muito e que podia apenas desenhar feio e sem medo. Essa constatação me transtornou e me trouxe muito alívio. Amava o Don Martin e o Aragonés. Odiava o Dave Berg. Depois, conheci o trabalho do Adão na DUMDUM, o do Allan… Wolinski, Crumb. Atualmente vivo sem heróis, abandonei isso.

Por que o codinome Chiquinha?

Na minha turminha jovem todos tinham seu apelido bizarro. Fui agraciada com este. Como dito anteriormente, a vergonha de alguns desenhos era imensa, principalmente de ser vista no meio acadêmico como a autora DAQUILO (risos). Arquitetei o uso dessa dupla identidade pra passar bem. Bem esquizofrênica. Uma bobeira que grudou pra sempre (inclusive responder essa pergunta por toda vida não é um objetivo). Muito prazer, Fabiane Langona (pra alegria total do meu querido pai).

Muitos desenhistas tem formação em jornalismo, como você. Por que a área de humanas abastece tanto essa profissão?

Será? Hoje teria insistido em tentar qualquer outro curso científico. Tinha uma vontade grande de estudar veterinária (animais de grande porte: elefantes, rinocerontes), mas pânico de ambientes cirúrgico-assépticos e sangue. Não deu. Depois, pensei em oceanografia biológica, mas não tinha o curso em Porto Alegre, só em Rio Grande. Caí pras humanas, inevitavelmente. Prestei vestibular pra Artes Plásticas e Publicidade e Propaganda. Troquei pra Jornalismo (resumindo a saga), pois odiava tudo. Acreditava que a formação acadêmica tinha relação direta com seu futuro trabalho, que a academia seria um lugar para desenvolver a fruição criativa, até perceber que, quase totalmente, não.

Seus desenhos são uma forma de fazer jornalismo?

Pode ser. Esse formato em que o autor é um narrador me conquista muito. Relatando, observando, dando voz aos seus personagens. Na faculdade cheguei a me interessar bastante, sentia muita falta de uma abordagem específica dentro do curso, com foco na opinião ilustrada, ou mesmo sobre esse engessamento, esse quase vício texto-foto-texto-foto. Cheguei a infernizar alguns professores quanto a isso, sem sucesso. Ninguém dava a mínima pra desenho, até mesmo os especializados em infografia. Decepções. Mas… de qualquer forma, consegui desenvolver um TCC sobre o Joe Sacco. Minha orientadora, profª. Maria Beatriz Furtado Rahde era uma super estudiosa de quadrinhos e finalmente encontrei uma boa ouvinte pra todos devaneios sobre o uso de novas linguagens e formatos. Ela era formada em artes com licenciatura plena em desenho e foi um ícone pra mim dentro da faculdade (insensíveis!). Esse convívio e a qualidade satisfatória do meu trabalho de conclusão (obrigada e descanse em paz profª) são parte do que posso chamar de boas lembranças do curso de jornalismo. Aliás, recém foi lançado no Brasil Desaplanar, do Nick Sousanis, o primeiro pós-graduando a apresentar uma tese de doutorado em formato de HQ. Adoraria saber a opinião dos ex-profes sobre.

Ter trabalhado como assistente de redação e arte-finalista na revista MAD foi o fator preponderante para encontrar sua forma de narrativa, com um humor mais ácido e irônico? É a linha de humor que mais se aproxima da sua?

Sim. E principalmente o fazer parte de uma redação. E principalmente com meu querido padrinho Ota. Pequenos traumas, grandes aprendizados — aliás, este poderia ser o nome de algum programa de estágio, não?

Sua estreia na mídia impressa foi no Jornal do Brasil, em 2005. Como surgiu a oportunidade de trabalhar lá?

Eu tava no Rio, trabalhando na MAD. Na época, o Ota escrevia uma coluna no JB inspirada numa antiga coluna do Pasquim chamada Abre-Alas, que apresentava as “promessas” da nova geração. Publiquei um quadrinho e assim fui apresentada ao mundo pela primeira vez na dita imprensa oficial.

Quase na sequência você foi contratada pela Folha de S. Paulo, onde começou a publicar semanalmente no suplemento Folhateen e, depois, integrou o time de cartunistas do portal UOL. Você é um fenômeno?

Fenômeno, eu?! Comecei a publicar cedo, verdade. Mas acho que vivemos uma época em que existe uma geração incrível de cartunistas produzindo e que, apesar de se encontrarem muito bem obrigada na internet poderiam estar diariamente no impresso. Aparentemente, as grandes empresas de comunicação coroam seus medalhões e param por ali, tipo pelos próximos 100 anos. Uma cultura, uma coisa meio vaca sagrada. A gente começa a acompanhar o trabalho de alguém novo e massa e pensa: poxa, legal essa pessoa também estar nesse ambiente, aqui, no PAPEL. Daí do nada, ela some. O que se dá aos mais novos são espaços descartáveis. Uma virada editorial oxigenadora na área de quadrinhos.. não sei como se daria, mas isso sim seria um fenômeno.

Seus cartuns costumam criticar costumes e hábitos dos brasileiros, especialmente dos jovens, vide o conjunto de sua obra na Folhateen. O que tem incomoda tanto?

A vida cotidiana me incomoda, de forma geral. Incomoda e me faz rir na medida do possível, verdade.

Estamos caminhando para uma mediocrização da juventude ou o contrário?

Da juventude não digo, mas dos hábitos e sentimentos talvez.

Por que seu trabalho tem um poder de alcance tão grande?

Cresci com Nelson Gonçalves e Lindomar Castilho no ouvido. Acho que introjetei muito disso, dessa dor-de-cotovelo vinda do cotidiano. Aquele poder natural e tocante de ler ou escutar algo que te faz chorar e pensar #VDD, meu coração besta te entende, tamo junto. Sempre busco algo assim, ser honesta com o que desenho e escrevo. Deve ser isso.

O fato de ser jovem facilita esse diálogo com outros jovens?

Dia desses uma amiga jornalista, também chegada na casa dos trinta, soltou: “acho que me conecto muito bem com os jovens..” (risos). Essa frase é típica de alguém que não é mais tão jovem assim. Me identifiquei muito e tou amando.

F. Humor, Tarja Preta, Eca Magazine, Vip, Ilustrada, Piauí, Stripburger, Zero Hora, Diário Catarinense, Jornal do Comércio, Diário de Pernambuco, Sexy Premium, TPM, Gloss, Mundo Estranho, entre outras, foram publicações que você colaborou. Em todas essas publicações você teve liberdade editorial ou em algumas delas trabalhou sob encomenda?

Quase sempre liberdade total. Por isso é que sou, além de tudo, uma autora. Mesmo pautada procuro deixar um estilo ali, imprimir meu jeito de pensar, desenhar. Enfim, executar algo que, mesmo com limitações, também seja um pouco meu.

Até onde é possível chegar com o seu trabalho?

Ao infinito e além.

Voltemos à Chiquinha. Em A Mediocrização dos Afetos (Ugra Press), ela desconstrói suas próprias inseguranças diante dos olhos do leitor. O que tem ali de Fabiane Langona?

Se pensarmos que estamos falando da minha visão acerca do tema, tudo.

Você lançou também Algumas Mulheres do Mundo e Uma Patata com Carinho. Como é o seu método de composição para trabalhos deste porte, e o no que ele difere na metodologia das suas tirinhas?

O Algumas Mulheres do Mundo foi uma compilação de cartuns que fiz quando cartunista do UOL a partir de pautas semanais e algumas HQs soltas, publicadas até então apenas na internet. De forma geral, são trabalhos bem editoriais. Em sua maioria não seguem o formato no que se refere ao tamanho, mas respeitam o mesmo tempo da tira diária. Já o Uma Patada com Carinho, que é anterior, segue quase o mesmo método, com a diferença que quase todas as histórias são inéditas. Algumas mais longas que estavam minimamente rabiscadas, algumas já desenhadas e esquecidas. Ou seja, ambos são um mosaico de coisas, com formatos diversos. Portanto, é nisso que estou trabalhando pro próximo livro: uma grande HQ com temática… densa (risos).

Tem um método próprio de composição de trabalho ou tudo surge livremente?

Nunca sento em frente ao papel precisando ter uma ideia. Anoto quase todas que me veem onde tiver disponível. Caderninho, bloco de notas no celular… quando vou pra prancheta, geralmente é apenas pra executar. Meio viciada em gaveta, confesso.

Livro é uma plataforma que te estimula ou ela é obsoleta?

O objeto livro é algo que me fascina. Seu desenho impresso, em páginas folheáveis, com a lombada na estante, com um redondo de xícara estragando a capa. É um sonho, uma espécie de DEUS. Exagerando. Mas pra deixar bem claro, sim, plataforma livro é sentimento.

Livro traz mais respeitabilidade do que dinheiro?

Além da felicidade de ter o objeto em mãos, não vejo quaisquer grandes glórias. Nem em se tratando de prestígio, nem de dinheiro. Ao menos no Brasil. Acho aviltante um autor não receber adiantamento e lhe ser oferecido menos de 10% num preço de capa. E as editoras saem de heroínas por fomentar o mercado de quadrinhos, dar aos autores esta grande oportunidade, esta promoção, esta visibilidade estupenda. Dito isso, provavelmente nunca mais uma editora vai me querer, mas é minha experiência. O mercado de forma geral sempre é cruel com os artistas. Nos quadrinhos não é diferente.

E o jornal?

Acho que publicar em veículos de grande porte já foi mais importante em termos de credibilidade. Não vejo como algo imprescindível. No meu caso, gosto mesmo é daquele hábito de acordar, colocar um som, ir meio dançante com o fone de ouvido até a banca, pegar o jornal, revista etc, folhear com pressa pra um primeiro olá conferidor, colocar embaixo do braço. Daí chegar, comparar com o desenho original, colocar a página lado a lado com a tela do computador e achar a diferença nas cores, pensar se podia talvez ter ido numa outra direção. Esse tipo de coisa meio boba e pequena.

Pra que serve a internet para você?

Pra ter mais de 70 abas abertas trancando tudo mesmo com aplicativos gerenciadores e ser motivo de piada por isso. Mil coisas.

O que mais ouve/lê das leitoras e leitores quando comentam a respeito de seu trabalho?

Geralmente fico animada. Garotas já escreveram dizendo que tive parte na decisão delas de fazer quadrinhos sem medo de dizer e desenhar o que bem queriam. Uma coisa afetuosa mesmo. Uma missão que não tomo como minha mas sinto que está sendo, em parte, cumprida. Para as críticas ruins, dou uma xingada braba e incremento um discurso rancoroso — típico de alma sensível, que nem me dou mais muito o trabalho de replicar. Já fui atacada por conta de alguns pontos de vista, ou mesmo por não seguir cartilhas do que seria bom ou mau comportamento. E tudo certo. Só não gosto de autoritarismo, nem de ambientes em que te tratam como inimigo por você não estar devidamente harmonizado com a forma “correta” (oi?) de produzir arte. Desenhar pra mim é uma espécie de conforto, quase um jeito de suportar a violência do mundo exterior. E a única coisa que não deixo ninguém interferir ou cagar regra.

O Brasil é fácil para se viver?

Fácil só Shangrilá.