Guilherme Weber fala sobre "Deserto"

Estreia do ator na direção de cinema tem participação de Lima Duarte e fotografia do português Rui Poças

Estreia nesta quinta-feira (14) nos cinemas Deserto, longa dirigido por Guilherme Weber com roteiro escrito por ele e Ana Paula Maia. Uma trupe de atores vaga por cidades fantasma no sertão nordestino em busca de público, que não há. Ao encontrar um vilarejo com uma fonte de água e casas abandonadas, decidem ficar para fundar uma cidade. A partir daí, os atores passam a improvisar uma cena fora do script: cada um ganha uma função na nova sociedade.

Com fotografia de Rui Poças — um dos grandes nomes do cinema contemporâneo português, que trabalha com João Pedro Rodrigues, Miguel Gomes e João Mário Grilo — , o filme tem muito da linguagem teatral nos diálogos, mas também é inspirado no cinema de Dreyer e Sergio Leone, como explica o diretor. O "western gótico beckettiano" de Guilherme Weber tem uma forte carga de experimentalismo, cinema autoral e é uma clara reverência ao trabalho dos atores: Lima Duarte é o chefe do bando, que também conta com Cida Moreira, Magali Biff, Everaldo Pontes, Fernando Teixeira, Marcio Rosario, Claudio Castro e Pietra Pan. A Bravo! conversou com Weber sobre o trabalho, que também é inspirado no romance Santa Maria do Circo, de David Toscana.

Como foi o processo de produção do filme?

Todo filme é como fundar um continente, as dificuldades aqui tem dimensões épicas. O cinema de locação é ao mesmo tempo o auge destas dificuldades e também a realização da grande aventura que é fazer um filme. A realidade geográfica é também um belo exercício do esculpir o tempo, como definiu de maneira seminal o cinema o russo Andrei Tarkovsky. O sertão é o complexo simbólico mais renitente de nossa cultura e era inevitável estar nele para fazer um filme que é também uma alegoria sobre a fundação do país.

Mas como dizia John Huston, se você quer fazer chover, basta ligar uma câmera de cinema. Enfrentamos a chuva verde, que modificou a paisagem do entorno dias antes de começarmos a filmar, o que nos obrigou a mudar locações em cima da hora, além de tempestades de areia, invasões de insetos, calor inclemente, doenças de pele, etc.

No final, o cumprimento clássico dos espectadores aos atores do teatro clássico japonês: “Obrigado por passar por isto por mim.” Esta é também a natureza do ofício do ator, encarnar o abjeto e as condições desfavoráveis para fazer crítica e construir beleza. São os guardiões da linguagem e é aos atores que o meu filme é dedicado.

"Deserto” é uma adaptação de um livro mexicano? Como você pensou em trazê-lo para o Brasil?

A leitura do livro Santa Maria do Circo [livro de David Toscana] foi uma febre primeira, um ponto de partida para criar uma obra com temas que me instigaram, a criação de identidades e o forjar de identidades, tema sempre presente quando se pensa no ofício dos atores. E também algumas questões filosóficas como “é o homem lobo do homem?” pergunta criada por Plauto e popularizada por Hobbes e que é fundante de um exercício de pensar a convivência e as sociedades organizadas.

Comecei então a escrever o roteiro a partir destas primeiras questões. Desloquei o universo do circo para o universo do teatro e a transição do deserto mexicano para o sertão brasileiro foi natural pensando que o sertão é o nosso complexo simbólico mais renitente. A escolha do sertão é também o diálogo com uma cinematografia brasileira que me inspira, o Bye Bye Brasil de Diegues, o realismo de Nelson Pereira dos Santos, as alegorias de Glauber a imensa liberdade que ele se concedia nas suas realizações. Quando encontrei a locação, o vilarejo de Picotes, no interior da Paraíba, me impressionou as formações rochosas do entorno. Uma delas era muito parecida com o pão de açúcar. Percebi, então, que eu estava preparando uma obra que era uma alegoria sobre a formação do Brasil.

Achei que o filme tem uma linguagem super próxima do teatro. Por que realizá-lo em cinema em vez de num palco? Como a linguagem do cinema te ajuda a contar essa história?

A linguagem do Deserto é absolutamente cinematográfica, dialoga diretamente com o cinema de Dreyer e seus rostos em primeiro plano, Sergio Leone e seus planos abertos e a tentativa de historicizar cicatrizes contemporâneas e também com o cinema de gênero como o western e seus arquetípicos vetores narrativos, a luta do bem e do mal, selvagem e civilizado, a chegada do forasteiro, etc.

A câmera fixa presta tributo também ao cinema clássico japonês e a movimentação feita pelos atores na cena além dos tableau vivant recorrentes no cinema mudo e depois alçados a outra categoria simbólica por Pasolini. Os personagens sim, estes tem forte linguagem teatral. Falam através de citações, dos gregos a Shakespeare, Brecht, Beckett. Rui Poças bem definiu o filme quando leu o roteiro: “Um western gótico beckettiano.”

Quando comecei a pensar a obra, inevitavelmente comecei a pensar como uma peça de teatro, caminho natural do meu ofício e do meio no qual trabalho constantemente. Mas percebi que a carga simbólica primeira de um palco, anularia parte da força da alegoria. Precisava do realismo geográfico para potencializar esta narrativa e então, com um sorriso de satisfação conclui, é um filme!

Como foi o trabalho com o Rui Poças? É a primeira vez que ele faz a fotografia de um filme brasileiro, certo?

Sim, Deserto é o primeiro trabalho do Rui, já mítico fotógrafo do cinema português contemporâneo, que vive uma de suas melhores fases, no Brasil.
De cara nos tornamos aliados no humor. Também nos identificamos como hedonistas, o que nos trouxe a busca pelo prazer absoluto no trabalho. Quando o prazer falhava, construíamos piadas sobre nossas pequenas desgraças e ele voltava a aparecer.

Depois a admiração pelos mesmo cinema e em especial pela multiplicidade destas admirações, da tragédia ao melodrama. E por fim o entusiasmo com que o Rui recebeu as narrativas que eu tinha pensado para a fotografia e a maneira brilhante como conseguiu traduzi-las na tela. Nos inspiramos nas gravuras de livros de contos de fadas, em que uma imagem carrega a síntese de um pedaço da história e também nos quadros dos grandes mestres como Velasquez, Veermer, Rembrandt e seus espetaculares usos da luz e também nos terríveis caprichos de Goya. E a divisão da fotografia em três atos, os grandes planos abertos e a formação dos tableau vivant, a fotografia horizontalizada em diálogo com a fotografia de arquitetura residencial quando os personagens começam a tomar as casas e o início da vida civil e por fim a câmera se aproximando cada vez mais dos corpos e rostos dos atores.

Deserto (1h46') 
Direção: Guilherme Weber 
Roteiro: Guilherme Weber e Ana Paula Maia 
Produtora: Vania Catani 
Produção executiva: Lili Nogueira 
Assistente de direção: Kity Féo 
Diretor de produção: Henrique Castelo Branco 
Fotografia: Rui Poças

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