Instantâneos de Santa Terezinha

Com arte e cultura, vila operária na Zona da Mata pernambucana se reinventa sem esquecer da história, moída em usina de açúcar desativada

A Usina Santa Terezinha e o jardim botânico (Foto: Rego Barros)

1.

Santa Terezinha é um lugar em transformação. A vila operária do município de Água Preta, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, tem como centro de gravidade social a usina de mesmo nome. Visto de longe, o que restou do complexo industrial de moagem e destilaria de cana-de-açúcar desativado há 20 anos permanece intocado, salvo pela ação do tempo, que desfez paredes, rompeu janelas e cobriu de ferrugem as máquinas.

Quem se aproxima, no entanto, nota um grafite desenhado sobre a estrutura cilíndrica à frente da casa de máquinas. À sua direita, as cores da fotografia de Luiz Braga — o retrato de uma mulher nua, iluminada por uma queima de cana — interrompe o cinza predominante. Dentro do prédio, frases e desenhos dão testemunho de uma nova apropriação do lugar, fazendo com que o visitante confunda, na disposição de coisas na imensa carcaça, o que teve ou não motivação estética.

Batizada de Usina de Arte, a iniciativa do empresário Ricardo Pessoa de Queiroz, herdeiro das propriedades e antigo administrador da fábrica, e da arquiteta Bruna Simões Pessoa de Queiroz tem por objetivo, como muito se repete ali, “fazer a usina moer arte”. Desde 2015, as safras já renderam um jardim botânico, festivais anuais de cultura e uma escola de música. Em 2019, uma biblioteca será inaugurada.

2.

Ainda não há separação entre o parque artístico-botânico e o seu entorno, mas a intervenção de artistas e pesquisadores nos 30 hectares que ocupa salta aos olhos. A inspiração para transformar aquelas terras surgiu após uma visita de Ricardo e Bruna ao Inhotim, em Minas Gerais, onde se encantaram com os bancos de madeira produzidos com resíduo florestal por Hugo França. O casal convidou o designer gaúcho para visitar o local, hoje habitado por móveis e esculturas feitos de madeiras encontradas ali, como a jaqueira.

Quase todas as obras em exposição no jardim foram concebidas no local, criando uma relação íntima entre os trabalhos e a natureza que as cerca. É o caso de Brasil 2017, criação de Paulo Bruscky que consiste de uma caçamba de lixo pintada de ouro cercada por cactos, plantados à sua volta como uma espécie de guarda do cofre entulhado. Ou do Tempo Templo, por meio do qual Bené Fonteles plantou baobás em torno de um círculo formado por totens de orixás.

Para quem não viu a enorme cabeça de bronze no estacionamento da Pinacoteca de São Paulo em 2017, é difícil acreditar que a escultura de Flávio Cerqueira batizada de Tinha que Acontecer (Cabeça de Bandeirante) é a única que não foi criada para o jardim. Deitado sobre um lago, o cocuruto decepado de quase uma tonelada ganha dimensão física e histórica: toma partido da herança indígena da região ao tombar um de seus principais algozes.

“Tinha que Acontecer (Cabeça de Bandeirante)”, de Flávio Cerqueira (Foto: Vitor Pessoa)

3.

Quando José Rufino entrou no antigo hangar da Usina Santa Terezinha pela primeira vez, ela tinha se convertido em uma oficina. Em pleno funcionamento, o galpão de paredes alongadas e pé direito alto tinha um cheiro de óleo que resiste até hoje. Aos poucos, o artista paraibano conheceu e se aproximou dos homens que trabalhavam ali. Em pouco tempo, estaria criando com eles.

O espaço é hoje ocupado por obras de Rufino produzidas com materiais e documentação relacionados ao trabalho da Usina. E também ao que o precedia: a parede à esquerda da porta de entrada está apinhada de facões e foices utilizados no corte de cana. Como explica o artista, essas armas foram posicionadas, a princípio, segundo os movimentos do maculelê, o bailado guerreiro de origem afro-brasileira. Os mecânicos convertidos em assistentes, no entanto, logo passaram a sugerir combinações entre as facas, logo soldadas e afixadas na parede com a anuência de Rufino.

A memória dos trabalhadores mais velhos também foi crucial para a elaboração da escultura Scopulus — rochedo, em latim. Sobre a cadeira sem assento que pertenceu a José Pessoa de Queiroz, avô de Ricardo, lascas retangulares de madeira encontrada na região estão empilhadas de modo a representar o corpo do patriarca, que fundou a Usina em 1929, após comprar 14 pequenos engenhos. A lembrança dos mecânicos, que conheciam bem aqueles traços, orientaram o artista a encontrar a forma final.

4.

Do encontro com o festival Arte Serrinha tomou corpo o projeto de levar artistas para realizar obras e se engajar em atividades com a comunidade local. Fábio Delduque — co-idealizador e diretor artístico da iniciativa que acontece anualmente em Bragança Paulista desde 2002 — chegou a Água Preta através da Expedição Brasil Profundo, iniciativa da Serrinha que viajou, além de Pernambuco, para a Serra da Moeda, em Minas Gerais, e para a Ilha do Marajó, no Pará.

Além de ser curador do festival ao lado de José Rufino, Delduque materializou a sua passagem com um mosaico construído a muitas mãos em uma praça da vila. A atividade foi concebida durante a oficina que ministrou aos moradores da região, que dedicaram mais tempo que o programado para a realização da obra. Ao final, bateram fotos diante da criação e, para o seu entorno, já planejavam um pequeno jardim para revitalizar o lugar onde antes só havia entulho.

Entre os dias 9 e 17 de novembro, o festival Arte na Usina realizou a sua quarta edição. A sequência ininterrupta já produziu mudanças na paisagem e nas pessoas (que visitam e que moram o lugar), embora enfrente alguma resistência das igrejas neopentecostais da região. A iniciativa combina ações educativas, oficinas artísticas, exposições temporárias, visita guiada ao jardim botânico e shows musicais ao ar livre.

“Scopulus”, de José Rufino (Foto: Divulgação)

5.

Poucas conversas com os moradores de Santa Terezinha bastam para perceber a curiosidade despertada pela Casa Grande, onde a família Pessoa de Queiroz mora desde os anos de ouro da Usina. Embora seja conhecida pelo nome de teor histórico incontornável, a edificação foi projetada no final da década de 1920 — após o fim da escravidão, portanto — pelo arquiteto grego Giácomo Palumbo. Ao notar que a imaginação dos moradores da vila passeava com frequência pela casa, o artista Marcelo Silveira instalou no jardim botânico uma reprodução do átrio da casa. Com teto e janelas vazadas, o pátio é aberto e já chegou a abrigar palestras e concertos.

Paulo Meira, por sua vez, quis criar meios para ouvir o que pensa e alcançar os residentes da vila operária. Para isso, instalou, também no céu aberto do jardim, uma estrutura de aço e alumínio espetada por uma antena de 30 metros e equipada com uma rampa de acesso que confere à escultura, em contraste com o verde que a cerca, o aspecto de uma espaçonave. A obra não é apenas simbólica.

“Rádio Catimbó, operando em modo espacial”, anuncia a vinheta a quem sintoniza na 93,5 fm. Após uma oficina ministrada pelo radialista Napoleão Assunção, três jovens — Vandinha Solano, Matheus Felipe e Breno Lins — tocam a emissora, que transmite de um pequeno estúdio localizado a alguns metros dali as músicas pedidas pelos moradores.

6.

Uma fileira de adolescentes e adultos se estendia do púlpito à entrada da igreja católica da vila para a entrega dos certificados das oficinas realizadas durante a semana, voltadas ao público local e cobrindo as mais variadas linguagens artísticas. O sermão do padre deu lugar às histórias e poemas que moradores da região escreveram durante as aulas de Adélia Oliveira sobre literatura e tradição oral. Formulado com simplicidade, o conteúdo exposto comovia em sua tentativa de elaborar o luto pela desativação da usina e apostar na renovação (das pessoas e do lugar) através da arte.

Era com orgulho que as pessoas olhavam os desenhos de coração pendurados na parede, resultado da oficina ministrada por Clara Moreira. A artista recifense propôs aos alunos que desenhassem o órgão (com átrios e artérias, não a sua versão gráfica) em etapas: a mais próxima à imagem que viam, analisada através de uma folha quadriculada; o decalque sobre folha vegetal; a observação livre; e, finalmente, o desenho de memória. Encadernados com trechos de Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector, as apostilas de desenhos ofereciam uma síntese dos termos com os quais Moreira nomeou a oficina: técnica e inspiração.

Do lado de fora da igreja, um grupo de adolescentes arriscava os seus primeiros passos na dança contemporânea. Em seguida, deram lugar aos professores, Everton Gomes e Rafaella Trindade. Apenas um pouco menos jovens que seus alunos, os bailarinos do Grupo Experimental do Recife apresentaram um pas de deux do espetáculo Pontilhados, o mesmo que, no dia anterior, ensaiaram em meios aos escombros da Usina ao som de Ronda, de Paulo Vanzolini.

“Rádio Catimbó”, de Paulo Meira (Foto: Rego Barros)

7.

Nos dias de festival, a praça de eventos é ocupada pela soma de turistas e moradores (da vila e de cidades vizinhas) que não estão nos cultos. A divisão é evidente: camisas coloridas, cabelos repicados e óculos de acetato balançam agitados na boca do palco. A uma distância segura, homens de braços cruzados contornam a coreografia. São sérios e observam a tudo com atenção, mas não respondem à música.

Entre um grupo e outro, há o mais animado: o das mulheres locais. Não importa qual o estilo musical, as senhoras na faixa dos 50 e 60 anos dançam com disposição. Entre elas está Rita de Cácia, professora que administra o aluguel de cômodos na vila para visitantes, o “Airbnb de Santa Terezinha”. O entusiasmo de Ritinha, como é conhecida, se explica: o festival trouxe independência e a possibilidade de uma vida nova, deixando para trás um casamento abusivo — momento que ela pretende eternizar com a tatuagem de uma fênix no tornozelo.

Apenas no encerramento do festival, fora do palco, a mistura aconteceu. Já avançava a madrugada, logo após o fim do set da DJ Lala K, quando os Carrapatos de Xexéu — conjunto de sopros da cidade vizinha — atraíram o público do palco para uma lanchonete, de onde partiram os resistentes ao sono, entre locais e forasteiros, em cortejo embalado por Vassourinhas e outros frevos.

8.

Em turnê após oito anos de hiato, o Cordel do Fogo Encantado era uma das principais atrações do festival, o que se via pelo número expressivo de pessoas que viajaram para vê-los. Em sua maioria universitários, ofereceram recepção calorosa ao messianismo eletrificado da banda formada em Arcoverde, no sertão pernambucano. O prazer em estar ali era recíproco. “Nascemos e crescemos no interior do Brasil e sabemos assim da grande importância desse projeto na construção de uma comunidade melhor, de um país que não abandona a liberdade e os seus sonhos originais”, disse Lirinha, vocalista do conjunto, na véspera do show.

Entre os jovens, um senhor de 79 anos imitava com os braços o movimento das projeções psicodélicas que ilustravam a música. Clemente Padín se divertia, mas não desligava o senso crítico. Sentia-se diante de uma catarse com consequências políticas duvidosas. O que o poeta visual uruguaio julgava consequente, por sua vez, pôde ser visto no antigo escritório da Usina, onde foram expostos seus pôsteres políticos. Neles, a forma das letras ganham importância equivalente às palavras que compõem. Em um deles, a palavra pan (pão) é posta na perpendicular de paz, de modo que as letras N e Z ocupam os mesmos espaço e função.

O interior da usina (Foto: Divulgação)

9.

Quem protagoniza o novo momento da Vila Santa Terezinha são as mulheres. Dos empreendimentos recém-criados, quase todos são tocados por elas. É o caso do bar e restaurante Mandacaru Abacate, administrado por Rosilda Vicente, que, para o festival deste ano, inaugurou uma pequena pousada na propriedade. É também o caso de Lucineia Maria, que se divide em uma infinidade de tarefas: além de ser diretora de uma escola municipal, abriu o restaurante Capim de Cheiro e o Gabinete de Arte, onde são vendidas obras de artistas locais.

Lançou também um selo de moda, com bênçãos e dicas do estilista Ronaldo Fraga, e se arrisca a produzir as próprias obras de arte. Na saída da loja, três televisores antigos, postos sobre peças de concreto em diferentes tamanhos, encaram a luz do sol. Com O Imaginário, Lucineia quer reviver a capacidade das tevês inutilizadas de projetar imagens e, para isso, as posicionou de modo que elas reflitam as transformações da luz ao longo do dia.

É da boca de mulheres que também se ouve o discurso político mais elaborado da região. Orgulhosa de seus discos de Maria Bethânia e Chico Buarque, a professora aposentada Maristela Solano adota o ponto de vista dos trabalhadores para narrar a história da Usina e acompanha como qualquer cosmopolita os acontecimentos nacionais, que articula com a realidade local. Ela enxerga um amplo movimento conservador que ameaça os mais pobres, as artes e o empoderamento das mulheres. E promete resistência. “Nós não vamos desistir agora.”

10.

Aquele que visitar a usina nos dias de semana pode topar com um pequeno grupo de homens reunidos na entrada da fábrica, onde levam cadeiras para ali passar a tarde, conversando ou em silêncio. Todos trabalharam na Santa Terezinha, alguns durante décadas. A aproximação de alguém de fora — além das roupas e adereços, o semblante fascinado distingue com nitidez os forasteiros — desperta indiferença, logo transformada em desconfiança quando se tenta puxar assunto.

Menciono a curiosidade de conhecer os andares superiores da usina e, vencida a hesitação, José me acompanha por um pequeno passeio na indústria. O olhar taciturno, emoldurado pelo cenho franzido, se modifica enquanto narra os dias de moagem. É com orgulho que ele enumera as toneladas de açúcar produzidas e os países a que se destinavam. Com gravidade, diz que os turnos da noite podiam chegar a 12 horas e que acidentes ocorriam aos montes. “Muito homem morreu aqui.”

De alguma maneira, a presença daqueles homens é a reivindicação de algo que é deles em mais de um sentido. Embora as terras sejam da família Pessoa de Queiroz, a usina constitui hoje uma massa falida cuja propriedade pertence a um condomínio de ex-funcionários. Por outro lado, a permanência sugere que a vida daqueles homens ainda não se separou da fábrica, que muitos desejariam ver reativada. Para eles, a passagem do fogo morto ao voo da fênix vai depender de outras queimas.


*O repórter viajou a convite do Festival Arte na Usina.