Inutilidade essencial

Em sua crônica quinzenal, Carlos Castelo assume a voz daquele que na mão é vendaval

Por Carlos Castelo

Sou velho, muito velho. Já rodei bastante por aí.

Sabe os babilônios?

Pois é, nasci naquela época. Dali passei pela confusão toda de Judas com Jesus Cristo.

César também teve relação muito próxima comigo. Mas não sou muito de esquentar cadeira. Fluído feito água, me adapto às realidades conforme elas surgem. Posso permanecer com quem costuma andar na ponta do precipício ou viver um longo tempo com os prudentes. Foi assim com Gengis Khan, Hitler, Stálin, Kennedy. E, para não ficar só nos reis e estadistas, também foi desse jeito com Bonnie, Clyde, Pablo Escobar e Al Capone.

Meu nome é contradição. Às vezes gosto dos que sabem jogar. Às vezes dos que intuem que não devem lançar os dados.

No crack da Bolsa de 29, eu estava ao lado dos maiores players. Depois mudei de canoa e fiquei com os que não quiseram fazer fé na roleta. Como no caso do Eike Batista: ficamos juntos nos bons e maus momentos, mas chegou uma hora que eu precisei circular em outras companhias.

Ergo e destruo coisas belas. Construo um prédio art-decô e, décadas depois, o derrubo a picaretadas para erigir um shopping center. Lanço um transatlântico ao mar e, no momento seguinte, o afundo com um torpedo.

Muitos dizem que sou tudo, outros que nada sou. Desestabilizo governos, elejo políticos, nomeio embaixadores, influencio a nota das agências de risco, digo quem é e quem não é celebridade. Tudo vai depender de que lado estou. Quando sou o braço direito, a vida é dourada. Quando estou na direção oposta é a lama.

Elimino obstáculos até para o sexo não-consensual. Se eu não estivesse nem aí, talvez você não estivesse nem aqui. Porque é o meu fulgor que tira ou lança às sombras de mendigos a potestades, de necessitados a todo-poderosos.

Quantas revoluções já eclodiram mundo afora, para provar a minha inutilidade? Mas que, sem minha retaguarda, jamais teriam ido adiante? Quantos políticos viram o Nirvana para, mais adiante, presenciar o Holocausto de suas reputações só porque me conduziram em bolsas, malas e pacotes de papel pardo?

Tenho consciência de que não trago felicidade. Mas posso mandar buscar.

Sou luz, bago, trocado, tutu, erva, algum, bolada, papel, massa, milho, arame, grana, gaita, bagarote, capim, bufunfa.

E, apesar de tudo, não passo de uma inutilidade essencial. Só que, sem mim, até este texto seria mais uma crônica barata.