Invertendo a chave Ocidente-Oriente

Crítica: Sintoma, de Castello Branco, coloca em xeque a unidade do sujeito ocidental.

Castello Branco

É sempre bom nos lembrarmos que somos ocidentais e que, às vezes, somos ocidentais até demais. O que nos traz uma certa dificuldade em compreender tudo aquilo que porventura possa escapar à nossa vã filosofia. Castello Branco, em seu segundo disco, Sintoma, explora visões não-ocidentais e coloca em xeque a unidade do sujeito contemporâneo.

São poucos os artistas ocidentais que se embrenham pelos caminhos de compreensão e sensibilidade artística das culturas orientais. Muitos, quando seguem essas direções, são considerados hippies ou as tomam como gestos de contracultura. Porém o trabalho de Castello Branco não é político e tampouco diz respeito à uma apropriação estilística de uma cultura não-ocidental. Para compreender sua posição no mundo, é preciso evidenciar parte de sua trajetória pessoal: nascido no Rio de Janeiro, o artista viveu, até os seus 16 anos, em um monastério ecumênico na Serra do Capim — o que, definitivamente, não é pouca coisa.

Talvez resida em “Providência” o maior exemplo de como a formação não-ocidental de Castello Branco se reflete na sua produção artística. Os versos que estruturam a canção, como uma espécie de Ouroborus, a mítica e milenar figura da serpente que come seu próprio rabo e que representa o ciclo de nascimento-morte-renascimento, estão encadeados de forma a nunca chegar a um fim: “vai tu, se não a vida é quem vai… tu, se não a vida é quem vai…” (“Providência”). Circular e em suspensão, tais versos vão na direção contrária da linearidade ocidental.

A repetição e a construção sintética dos versos, enquanto recursos estilísticos, nos levam invariavelmente aos mantras e aos haikais, gêneros milenares encontrados em diferentes épocas em partes da Ásia oriental. Por um lado, a repetição não leva à exaustão, mas, sim, à iluminação, isto é, ao esclarecimento e à elevação da alma daquele que reproduz ou ouve o mantra. Por outro, a aparente simplicidade é milimetricamente arquitetada para tentar emular a natureza que para os orientais é soberana e harmônica. Exemplificando o que dizemos, é quase insustentável o sentido de leveza produzido pelos versos da faixa que abre o disco, “O peso do meu coração”. Como gotas, os versos são radicalmente sintéticos: são somente sílabas, que, quando encadeadas, parecem livrar o sujeito do peso de sua existência: “vo / cê / não / é / quem / vo / cê / pensa que é”.

A produção musical que nós, ocidentais, chamariam de minimalista, tem a justa medida para que o ouvinte foque apenas no essencial. Até mesmo naquelas faixas que trazem elementos musicais que convidam à dança, como “Cara a cara” e “Evidente”, o apelo rítmico entra em sintonia ao discurso oriental de movimento e comunhão. Dança-se para celebrar a energia do comum, a força que nos une.

O que poderia ser um percurso solitário, em Sintoma, ganha outros contornos. Em seu novo disco, Castello Branco se alinha a outros artistas de sua geração que igualmente têm caminhado por veredas não-ocidentais. Verônica Bonfim, com quem divide a canção “Do interior”, tem desenvolvido um olhar afetivo sobre a África. Mãeana, que figura em “Providência”, explorou em seus mais recentes trabalhos as representações do sagrado feminino.

No curso experimental “Oriente e Ocidente”, ministrado no início da década de 1990 pelas pesquisadoras Camille Paglia e Lily Yeh e documentado no livro “Sexo, arte e cultura americana” (1993), de Paglia, ambas concordam quando dizem que as diferentes maneiras com as quais cada cultura encontrou para representar a condição humana têm formado distintos sujeitos e que a arte é um dos principais registros disso. Talvez seja o momento de, mais uma vez, encararmos nossas limitações ocidentais, contrastarmos-nos e, sobretudo, reconhecermos as outras possibilidades de existência e representação do sujeito. Para ouvir Castello Branco, é preciso inverter a chave Ocidente-Oriente.

Castello Branco se apresenta no dia 2 de novembro na Casa Natura, em São Paulo. No dia 7 de novembro, estará no Rio de Janeiro, no Festival A.Nota.

O disco Sintoma está disponível na íntegra no YouTube, além das plataformas pagas Spotify e Deezer.

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