Jihad e espetáculo

Novo livro do historiador Gabriel Ferreira Zacarias afirma que o terrorismo é fruto da sociedade do capitalismo avançado

Há quem diga que os atos de terror praticados pelo Estado Islâmico nos últimos anos são frutos de fanatismo, ou uma suposta “Guerra Santa”, ou ainda um choque de civilizações. Por outro lado, o historiador Gabriel Ferreira Zacarias propõe, em seu novo livro, um olhar mais exclusivo sobre o tema. No Espelho do Terror explora os estudos acadêmicos, levando em conta o impacto dos atentados ao jornal Charlie Hebdo, em Paris, e posteriormente, na casa de shows Bataclan, também na capital francesa.

Do ponto de vista do autor, o capitalismo tem muito mais a ver com os recentes ataques jihadistas do que sugere o histórico intervencionismo político, econômico e militar ocidental no Oriente Médio. Zacarias reconhece nestes episódios traços característicos não de uma sociedade perdida nos confins da Ásia ou da África, mas sim daquela em que vivemos: a sociedade do capitalismo avançado, batizada por Guy Debord (cuja obra é a especialidade do historiador) como “sociedade do espetáculo”. Por meio disso, ele afirma ser possível compreendermos o que nos tornamos, tendo como ponto de partida o terrorismo.

O destaque do livro é justamente esse: ele não foca na compreensão do terrorismo enquanto fenômeno à parte, mas a compreensão de nossa sociedade através do terrorismo. Como ele mesmo diz, “trata-se de um esforço de reflexão embasado na tradição da teoria crítica, que busca apreender, através de um fenômeno particular e extremo, características da totalidade social. Um uso livre de categorias psicanalíticas servirá ademais a articular esses fenômenos, que podem ser compreendidos como sintomas de tendências patológicas gerais, oriundas da socialização do valor e da subjetivação espetacular”.

A fim de se aprofundar no estudo proposto pelo livro, é preciso entender que, com a ascensão do capitalismo, surgiu uma forma de dominação sem sujeito. Tudo passou a ser dominado pela economia — produto alienado da modernização capitalista — e muitos dos alicerces dos problemas foram abstratificados. Isso se estende também aos casos contemporâneos de terrorismo, incluindo o que diz respeito aos usos de violência cega como os school shootings [tiroteios em escolas]. Zacarias questiona: como revoltar-se contra uma abstração? A quem culpar quando a causa de minha impotência remete a uma dominação sem sujeito?

O estudioso afirma que tanto o fenômeno atual do terrorismo, quanto esses outros casos de violência cega, “são sintomas do mal-estar da sociedade atual, e não como resultantes de incompatibilidades religiosas ou culturais entre Oriente e Ocidente, como se tais distinções essencialistas ainda fossem possíveis em um mundo amplamente unificado sob a égide do capitalismo espetacular”.

Quase invisível

Entre os exemplos citados está o sequestro do ônibus 174, no Rio de Janeiro, em junho de 2000. Sandro Barbosa do Nascimento, sobrevivente da chacina da Candelária quando criança, aos 40 anos orquestrou a tragédia sem nenhuma causa maior, com o provável único intuito de comandar um evento midiático que o permitisse existir como imagem. “Crescido como ser invisível aos olhos da sociedade, seu objetivo era o de se fazer ver. Para tanto, montou uma verdadeira encenação, um sequestro sem propósitos e com falsas ameaças. Alguma barreira parece ainda ter-lhe impedido de apertar o gatilho, o que não ocorre nos casos de atiradores loucos que, motivados por delírios de grandeza, tentam fazer-se notar ao preço da morte de transeuntes”.

Para Zacarias, os casos atuais de terrorismo encontram-se no esteio de eventos como esses, ou dos já mencionados school shootings, frequentes desde os anos 1990. A violência cega aparece como meio para a fama. A particularidade do terrorismo atual é que existe já um conjunto simbólico que dá sentido ao ato — e que oferece a certeza de seu sucesso espetacular. A jihad oferece o contexto cultural para uma forma de loucura que encontra sua partilha social no âmbito pseudocomunitário do espetáculo. Aqui, a própria pulsão de morte é socialmente integrada. As propensões à destruição do outro e à destruição de si não são vistas como indícios patológicos, mas como qualidades que moldam o guerreiro e o mártir.

Trata-se de um sinal dos tempos, uma característica da sociedade contemporânea, da busca implacável pela fama, arriscando a própria vida. No caso da jihad, o autossacrifício toma ares espetaculares, quando se abre mão do próprio futuro, em nome de morrer como um guerreiro para o seu povo — ou como vilão para quem sofre as consequências, não importa. Tampouco a religião é o peso maior. Ao sacrificar a própria existência, essas pessoas entram para um seleto “clube exclusivo dos heróis suicidas”.

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No Espelho do Terror: Jihad e Espetáculo, de Gabriel Ferreira Zacarias. Editora Elefante, 64 págs., R$ 30.