Kendrick Lamar, finalmente no Brasil

De contradições vivem o rapper de Compton e o Lollapalooza, que acerta ao trazer o mais importante artista de suas edições

Kendrick Lamar e a cantora Iza (Instagram/@Iza)

Depois da decisão de escalar Kendrick Lamar como a principal atração de 2019 do Lollapalooza, pairavam dúvidas sobre como o público receberia o rapper — que é uma das estrelas de mensagem mais contundente no hip hop americano. A sua vinda pela primeira vez ao país poderia ser entendida como uma forma de o festival buscar uma certa renovação do público — em sua maioria, branco e de classe média — e da forma como o festival é percebido (basta, afinal, ouvir o que Kendrick canta). Mas as contradições começaram a chegar, e a rodo: no sábado, a Folha de S. Paulo revelou que, mais uma vez, moradores de rua foram contratados por preços abaixo do mercado para montarem as estruturas dos palcos. Receberam R$ 50 por 12 horas de trabalho, quando o piso deveria ser de cerca de R$ 70 (e o que é pago por esse tipo de trabalho, normalmente, R$ 100). O músico e produtor Fióti disse, também no sábado, que foi chamado de "macaco" por um segurança da banda Kings of Leon. E, claro, os valores dos ingressos nesta edição chegaram a custar R$ 800 por um dia de shows. Foi sob esse ambiente — que tampouco é estranho à obra de Kendrick — que o rapper de Compton subiu ao palco na última noite do festival.

O formato do show foi o mesmo das outras três apresentações na América Latina nas últimas semanas (na Argentina, Chile e Colômbia). São 19 músicas, a maioria do último álbum, DAMN. — aclamado, inclusive com o Prêmio Pulitzer. Entram também as parcerias com Travis Scott (Goosebumps), Schoolboy Q (Collard Greens) e SZA — All the Stars, que fechou a noite, além de clássicos como Alright, Money Trees, Swimming Pools, m.A.A.d city e Bitch, Don’t Kill My Vibe. Programada para depois da banda Greta Van Fleet, a apresentação parecia ter menos público que o show anterior e o acesso à área próxima do palco era tranquilo. Do meio para o final, boa parte das pessoas — foram 76 mil no domingo, o menor da edição — já havia deixado o Autódromo de Interlagos. Mas isso não significa que Kendrick não tenha sido ouvido atentamente: muitos dos próximos ao palco estavam ali apenas para o seu show, e foi com eles que o rapper mais trocou. Chegou a dizer que demorou muito para vir ao Brasil, e que sentia uma conexão, quando pediu a todos que levantassem as luzes dos celulares em PRIDE..

O que impressiona em Kendrick é a sua capacidade de levar ao extremo a contradição — essa mesma que o escala como atração principal de um festival que paga valores ínfimos aos prestadores serviço que são moradores de rua e fazem trabalhos braçais. Em Wesley's Theory, música que abre o seu disco anterior, To Pimp a Butterfly, ele se debate com o “Uncle Sam” que o agencia e lhe promete o mundo a partir dos contratos e do que ele oferece para o rap. É essa a mesma matéria que bota lenha nas discussões sobre a sua primeira vinda para o Brasil acontecer num festival cujo público é majoritariamente de pessoas brancas e pouco ligadas ao rap (e, por outro lado, ganhar o dinheiro dessas pessoas e ainda falar sobre as condições de vida da população negra).

Mas o que faz isso ser ainda mais particular é que ele problematiza a sua própria posição e daí exprime arte — enquanto uma pessoa que leva para o mundo os problemas de Compton e não tem mais como estar com a sua comunidade; enquanto o poeta que cria a partir de situações reais e vive uma vida de fantasia no topo do mainstream; enquanto o artista que está respirando música a todo tempo e o luxo que isso é, comparado aos problemas muito mais terrestres vividos pelas pessoas da sua comunidade.

Agora, em DAMN., a crise está, em parte, superada, e o que faz é reafirmar sua posição no topo (ELEMENT. é a segunda do show) sem deixar de reverenciar com quem aprendeu. O "Kung Fu Kenny", persona adotada neste disco, é um atleta muito bem preparado, pronto para assumir as responsabilidades de um mestre, mas que não deixa de lembrar quem ensinou suas habilidades. Assim, a reverência a ídolos como Dr. Dre e Tupac e aos outros sons negros — como o funk — são peça fundamental da obra, além da descoberta do brilho que vem da vagina de uma mulher (parte de um dos filmes, abaixo, exibidos na apresentação). Na própria DNA., música que abre a apresentação, ele é "Paula's oldest son".

É compreensível que Kendrick brilhe sozinho no palco, mas estranho que haja pouca conexão entre ele e a sua banda (pouco iluminada, posicionada ao lado e no canto direito do palco). Diferentemente de apresentações anteriores como a do Firefly Music Festival, que está no Youtube, o rapper adapta menos as músicas para uma roupagem mais orgânica. Aqui, por sua vez, o foco é maior no flow, na velocidade com que diz os versos e na dicção, perfeita. As luzes fazem um papel mais importante, assim como o seu figurino — Kendrick vem vestido com roupas do seu patrocinador, e usa um casaco com capuz durante toda a apresentação. O saldo, sem deixar de ser contraditório, é positivo para o festival, que traz, possivelmente, o artista mais importante de todas as edições, e no auge, como lembrou Ronald Rios.