Klaus Mitteldorf lança novo livro com exposição em São Paulo

Blue Power. Fotos: Klaus Mitteldorf

Fotógrafo conhecido por seus trabalhos com editoriais de moda, publicidade e pelos quase trinta anos acompanhando os Racionais MC’s, Klaus Mitteldorf lança nesta quarta-feira (25) o seu livro Next, feito a partir de fotografias reconstruídas em colagens no computador. Além do livro, Next ganha também uma exposição na no Anexo da Galeria Millan, na Vila Madalena, em cartaz até o dia 29 de julho.

O livro foi impresso em 5 cores, com capa dura, e editado pela Damiani Editore de Bolonha, na Itália. A Bravo! bateu um papo com Klaus, que falou sobre o processo de produção de Next, seu longa, que deve ser lançado em breve e uma atual dificuldade: as selfies. “Se eu vou fotografar alguém eu vou interpretar da minha maneira aquela pessoa. Só que isso está mais difícil hoje em dia, porque as pessoas não estão deixando.” Veja abaixo.

Red and Blue Army

Como fez as fotos de Next?

Esse projeto eu faço desde 2008. Na verdade desde essa época eu fotografo pessoas, geralmente anônimas. Eu faço muitas viagens. Nessas viagens, comecei a fotografar pessoas muito com celular, e também com outras máquinas fotográficas. Fotografo pessoas em público, em várias cidades do mundo. Comecei isso em Tóquio, porque fui pra lá em 2008, fiz uma série de fotos com os japoneses, e depois no computador eu comecei a desconstruí-las. Eu divido em vários layers e depois monto os layers de uma maneira que eu gosto e que transforma aquelas pessoas em outras pessoas.

Construo da forma que eu quero vê-las. Então o trabalho é feito assim: layers em cima de layers, camadas que formam novas pessoas. São basicamente desconhecidos, mas tem famosos também no meio. Tem umas pessoas que fotografei durante o trabalho, que nem a funkeira Tati Zaqui, por exemplo. E aí acabo fazendo pequenas montagens de detalhes — por exemplo: cabelo, rosto.

A capa do livro, por exemplo, foi feita em cima do rosto de uma menina em Berlim, na Berlinale (Festival de Cinema de Berlim). Eu gosto muito de ver as pessoas esperando os ídolos saírem do hotel. Muitas vezes na frente dos hotéis vejo as pessoas pelos vidros com papeis, livros, pôsteres para serem autografados. Várias fotos que fiz para o livro são feitas nessa fila de espera dos fãs. A Autogramm (autógrafo em alemão) é exatamente falando dessa história.

A grande maioria das fotos foi feita no Japão e em Berlim. São lugares onde fiquei bastante tempo a trabalho ou a lazer e tive muitas horas livres.

Autogramm

E quando você decidiu que deveria virar um livro?

No ano passado eu decidi fazer um livro disso, e ele foi feito na Itália. Eu já tinha feito o meu livro anterior com eles, a Damiani Editore de Bologna, uma editora muito boa de fotografia. Esse meu amigo não só é editor de fotografia mas também divulga, vai em todas as grandes feiras de fotografia, é uma garantia que o livro vai ser divulgado e distribuído no mundo inteiro. É um cara que faz com que o livro não fique parado na prateleira.

O livro já teve uma repercussão muito boa fora — eu tive que adiar um pouco o lançamento no Brasil por causa do meu filme, o Rio-Santos, um longa metragem de ficção filmado no ano passado que estou montando até agora.

O fotógrafo Klaus Mitteldorf por Renan Hackradt

Pra quando está previsto o filme?

O filme vai sair no começo do ano que vem, depende dos festivais que a gente vai entrar. Mas está basicamente pronto, é uma história de ficção de uma menina que vai procurar o pai dela a nado beirando a rodovia Rio-Santos. Com a Bruna Marquezine. Só falta finalizarmos.

Em Next seu trabalho vai mais para a ideia da fotografia como uma montagem, com uma ideia de movimento, do que como um registro do momento. Como vê isso no livro?

Obedeci a lógica de uma colagem. Já fiz isso inclusive há uns 20 anos atrás, quando eu colava a fotografia (cortava em pedaços e remontava). No fundo, é a mesma coisa que estou fazendo só que com layers. A foto final que você produz é resultado dessa desconstrução anterior e, depois, da reconstrução. A obra final acaba sendo composta em casa. Todo o livro é feito a partir desse processo.

Snow People

Um dos desafios da fotografia contemporânea talvez seja o de lidar com um mundo cheio de imagens e no qual todo mundo é fotógrafo. Como produzir uma obra relevante mesmo nesse contexto?

É, mas eu sou um dos culpados disso. Eu sou um dos primeiros fotógrafos que no Brasil usou celular. Fiz várias matérias na Folha, Estado, mostrando como se deve usar o celular para fazer fotografia. Desde 2004 já fazia isso. Eu não acho isso ruim, acho muito bom. Na verdade o celular nada mais é do que uma máquina fotográfica. Cada máquina fotográfica tem sua qualidade e sua característica. O fato de todo mundo fotografar é uma tendência que ia aparecer de qualquer maneira por causa da própria aproximação das coisas, por causa da internet, que trouxe todo mundo mais perto e tudo pra todo mundo.

Fotografia feita com o celular não é diferente de uma fotografia feita com outro tipo de câmera. Existem olhares bons e olhares ruins, assim como existem câmeras muito boas e outras muito ruins. O iPhone 7 por exemplo tem uma câmera muito boa. Fazer uma foto com celular não é pior do que fazer com uma câmera, obrigatoriamente.

Agora o fato de todo mundo estar fotografando isso sim mudou o panorama da fotografia. Todo mundo virou fotógrafo. Quem nasce para ser fotógrafo e quem quer, vai ser, vai investir nessa arte de uma maneira diferente, com valores diferentes. É mais difícil você se destacar, mas a fotografia continua tendo o seu espaço.

É diferentes, são outras concepções. A fotografia com celular criou maneiras de fotografar. O selfie por exemplo é uma coisa que praticamente não existia. 99% das pessoas que usam celular hoje em dia fazem selfies. Você entra na internet e basicamente é isso. As pessoas não fotografam paisagens, se fotografam. E ficou difícil você fotografar uma pessoa hoje em dia. A pessoa anda tão viciada em ela se auto-fotografar que ela fica sempre na dúvida se está ficando bem ou não. É uma relação complicada.

Man In The Crowd
Lonely People

Às vezes as pessoas até se recusam a tirar foto com alguém fotografando, só querem posar para selfies.

As pessoas se viciaram em se fotografar elas mesmas — com espelho, por exemplo. É muito engraçado isso. O que realmente foi revolucionário é esse selfie, que todo mundo faz.

Agora você vai tirar uma foto de uma mulher e ela quer se ver primeiro. Às vezes o que significa estar bom pra ela não obrigatoriamente significa estar bom para o fotógrafo, que vai ver com outros olhos. É bem diferente. Se eu vou fotografar alguém eu vou interpretar da minha maneira aquela pessoa. Só que isso está mais difícil hoje em dia, porque as pessoas não estão deixando. Elas têm uma noção tão forte do que elas devem ser — exatamente pelas selfies que elas fazem — que elas tornam a execução um pouco difícil. Estou tendo algumas dificuldades com isso.

Você também está trabalhando com a banda As Bahias e a Cozinha Mineira?

Estou fazendo a capa do CD das Bahias. Elas são muito legais, a gente está fazendo um projeto muito grande. Elas me chamaram pra fazer a capa do CD e ficou maravilhosa, vocês vão pirar. Tá tudo pronto, só que não pode mostrar nada. Segredo. Eu faço as coisas do Racionais faz muito tempo também, trabalho bastante com músicos. A gente está querendo fazer um livro também com eles, não sei se vai sair neste ano. Gosto muito de trabalhar com música, é uma troca de energias criativas muito legal. Acabo me envolvendo mais do que devo, e é um trabalho mais íntimo do que realmente uma coisa comercial. É muito legal.

The Kiss Duo
The Army
Long Woman

Lançamento – Next

Vernissage da exposição e o lançamento do livro Next
Quarta-feira, 26 de julho, às 19h. Anexo da Galeria Millan — R. Fradique Coutinho, 1360 — Vila Madalena, São Paulo.

Exposição Next, de 27 a 29 de julho, das 11h às 18h.
No Anexo da Galeria Millan — R. Fradique Coutinho, 1360 — Vila Madalena, São Paulo

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