Laços de Tinta

Exposição em São Paulo reúne obras de Cristiano Rennó e Patrícia Leite

Tramas e obras diversas dos artistas mineiros serão reunidas na exposição Parques e Outros Pretextos, que abre no próximo dia 25, na Galeria Mendes Wood DM, em São Paulo. A mostra apresenta cada um separadamente e também uma sala comum com pinturas em bandejas e gamelas. Nesse dia, haverá ainda o lançamento do livro escrito por Rodrigo Moura, Olha Pro Céu, Meu Amor sobre a obra de Patrícia Leite.

foto: Beatriz Goulart

Diante das obras, há muito o que se considerar. A ausência de cor nos bolos de fitas apresentados por Cristiano Rennó, por exemplo, poderia apontar para uma falta de perspectiva, sublinhando as perdas monumentais, a beira do abismo onde a cultura, os museus, a educação estão se (des)equilibrando. Existe sim uma iminência, um langor, uma bile frente ao obscurantismo. No entanto, há luz — a que não é de todo absorvida e reflete seu branco no preto pigmentando curvas e volumes do trabalho sinuoso e macio.

Também o contraste das paredes brancas e o tanto de vazio que o trabalho produz incitam ao contato, pois as fitas estão soltas e se dispõem a percorrer as salas da galeria. Daí a noção de pintura expandida, daí o convite ao mergulho, à cama de gato, ao desembaraço. Assim como no Museu da Pampulha, onde há anos Cristiano lançou sua Teia, e o espaço foi tomado pelas cores dos barbantes, talvez haja, hoje, o mesmo convite de desenrolar o novelo, essa prática de vida, algo oposto ao luto.

Na realização do trabalho o artista manipulou um fardo de tecido e foi se libertando do peso, da mortalha, cortando-o em tiras, dobrando suas pontas entrando e saindo da Fita de Moebius que a matemática inventou, e a arte e a psicanálise recriaram.

Além da questão gráfica — preto e branco no espaço — é no volume de preto que o trabalho se torna pictórico e adverso. Como no enigma da reviravolta, da fronteira, Cristiano brinca com a (des)orientação da luz: como o preto é ausência de luz, e nesse sentido ausência de cor, no fundo branco não se pode dizer que ele não seja cor, linha e massa perfazendo desenho e pintura na instalação.

Foto: Alexandre Pimenta

As fitas no chão e as içadas na parede seguem a linha de outros trabalhos que o artista chama de Polimorfos — conjunto matérico instável. Há anos Cristiano vem tecendo essa teia seja com objetos, pilhas de tecidos, cordões, plásticos, sacos, fitas verticais, vestimentas indígenas, repetindo um fazer e desfazer, vestir e desordenar as formas sugeridas, convidando o público a entrar no trabalho geralmente realizado com cores. Até agora. Dessa vez o preto é a ousadia de se retirar quase tudo da cor, que é seu alfabeto. Subversões e sutilezas fazem do seu trabalho algo a ser seguido, como o fio que esconde o minotauro.

“A exposição é um pouco melancólica, o Brasil está melancólico.”

Cortesia Mendes Wood DM São Paulo, Brussels, New York / Copyright da Artista / Foto por Bruno Leão e Kristien Daem

Após fotografar e absorver a paisagem, Patrícia Leite leva sua pintura tanto para o entorno quanto para a profundidade das coisas um tanto “fora da ordem” – nas palavras da artista –, deixando vazar seus humores pelas flores pretas-flores murchas, naturezas mortas, super lua com cactus — em que uma “transversal sem sentido” corta o quadro, ceifando pela raiz o que é genuinamente brasileiro. Pode-se sentir a presença de Tarsila e dos pintores naifes, sobretudo diante da bandeira da Escola de Samba da Mangueira: “O desfile foi um momento de glória, disse tudo o que queríamos falar. Não conseguiram constranger o Carnaval do Rio, que desde o Joãozinho Beija Flor dá o recado. E neste ano a Estação Primeira falou rasgado de Marielle, das nascentes mineiras, da lama, de tudo o que é preciso ouvir”.

Patrícia descreve o seu trabalho como uma salvaguarda, algo onde imergir e retornar alterada, ao longo dos anos. E, na contramão das seriações anteriores, a curadora Camila Bechelany, a desafiou a sair dos temas: “A busca pela representação daquilo que ‘acende’ encontra agora outras paisagens quase sempre urbanas,” observa Camila. E a artista sentiu-se livre para flanar, por exemplo, na Catedral da Sé, em São Paulo, focando o lustre flutuando à frente de uma nesga de vitral, visitou os filmes da infância, circos, parques, como o da Pampulha em Belo Horizonte, catando pretextos para pintar.

Entre seus professores — e também de Cristiano Rennó — Patrícia cita Amilcar de Castro, que nos anos 80 formou uma geração de artistas que passaram pelo Núcleo Experimental de Arte, ora apostando no rigor (“arte não é inspiração é transpiração”) ora apresentando, por exemplo, a liberdade de Paul Klee e suas composições nada acadêmicas. Ela, que havia se formado em desenho e gravura, foi desenvolver a pintura, conhecer a cor, e acabou se orientando pela escola Abstracionista. Nos últimos anos, tem voltado para a figuração, agora com o olhar que a abstração ensinou, sem explicações, deixando em aberto.

Sé, 2019, óleo sobre madeira — Cortesia Mendes Wood DM São Paulo, Brussels, New York

Em 2016, a convite da Galeria Mendes Wood que abria uma filial na Bélgica, Patrícia aceitou participar de uma residência artística em Bruxelas. “Foi uma grande experiência, eu nunca havia trabalhado em outro ateliê, em outro país. Foi difícil intenso e transformador. Talvez a liberdade que sinto hoje seja uma resultante da solidão enfrentada”.

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Parques e Outros Pretextos. Galeria Mendes Wood DM (rua da Consolação, 3358 , Jardins, SP). www.mendeswooddm.com. De 25/5 a 14/8. Seg. a sáb, das 10h às 19h. Grátis.