Liberdade post mortem

“Cloro”, de Alexandre Vidal Porto, é narrado por um “defunto-autor”, espécie de Brás Cubas moderno que decide escancarar o que reprimiu durante toda a vida

Alexandre Vidal Porto. Foto: Alexia Fidalgo

Começo esta coluna — a penúltima do ano — afirmando que não tinha mais esperança de ler um livro que me fisgasse a essa altura do campeonato, antes das férias de dezembro. Li vários títulos bons em 2018 para este espaço de resenhas, mas também me deparei com muitos que não valeram a pena nem sequer continuar a leitura e foram abandonados no meio do caminho.

No entanto, não poderia resistir à curiosidade quando soube do novo livro de Alexandre Vidal Porto. Conheci a obra do escritor após ler Sergio Y. vai à América e, desde então, esperava outra de suas preciosidades literárias. Dessa forma, resolvi ceder à leitura de Cloro, recém-lançado pela Companhia das Letras.

Ao estilo das Memórias Póstumas de Brás Cubas — o clássico de Machado de Assis — , o novo protagonista de Alexandre é um autor que já morreu, e passa a narrar sua vida, cuja jornada foi de uma guerra travada contra si mesmo, contra os desejos e impulsos da homossexualidade reprimida. Constantino, advogado brilhante, abriu mão de ser quem realmente era, em nome da família que construiu, da moral, dos bons costumes impostos pela sociedade onde cresceu.

Suas maiores “travessuras” sexuais eram em sites pornô ou aplicativos de pegação. O livro, praticamente um diário que seria um prato cheio pra qualquer psicanalista, deixa claro tudo o que Constantino não tinha coragem de fazer ou de contar para sua esposa, Débora, nem para os filhos, Léa e André. Uma morte na família, entretanto, chacoalha ainda mais a relação familiar, faz com que o advogado entre num processo de catarse, permitindo-se, com total discrição e cautela, descobrir aquilo que havia sido motivo de curiosidade desde jovem.

Após dois encontros casuais com homens diferentes, Constantino se envolve com seu terceiro pretendente, Emílio, em Brasília. Nesse ponto, quando o desejo e os sentimentos se misturam, é interessante perceber como ele faz o caminho inverso: geralmente as pessoas de outras partes do país se libertam ao chegar em São Paulo. Com ele era diferente. “São Paulo sempre me deixou tenso no que diz respeito a essa minha aventura com homens. Tinha horror à ideia de que alguém pudesse me reconhecer ou imaginar coisas. O fato de ele morar em Brasília foi fundamental. Claro que isso tudo era paranoia, mas à época a ameaça parecia muito convincente.

Em Brasília eu me sentia mais seguro. Não esperava topar com nenhum conhecido. Isso me tranquilizava muito, no começo. Sair de São Paulo para buscar anonimato em Brasília é contraintuitivo, mas foi assim. Sou grato a Brasília por isso. Não conhecia ninguém lá. E a gente circulava pouco. O tempo que a gente tinha para ficar junto era gasto no apartamento dele na Asa Sul, transando, comendo e conversando.”

Como é de costume na escrita de Alexandre Vidal Porto, em Cloro, apesar da linguagem objetiva do protagonista (que, vale lembrar, está morto e perde parte dos seus pudores), a temática sexual ganha uma delicadeza e elegância quase poéticas. A exemplo da parte em que Constantino relata: “Veja bem: eu só buscava sexo, e foi essa a piscina em que eu mergulhei. Apenas isso. Nada mais. Eu não havia pensado em me apaixonar. A gente nunca pensa nisso. Contudo, muitas grandes histórias de amor começam com uma trepada casual, que não deveria significar nada além de alguns minutos de liberação e bem-estar, mas que sai do controle.

Você só sabe que uma relação é duradoura se ela já durou. Quem foi que disse isso, mesmo? (…) A gente se dá conta, com surpresa, de que aquela sessão de sexo — puro divertimento — se tornou mais significativa do que deveria. Não era para você acordar pensando nela, nem dormir pensando nela, nem tomar banho pensando nela. É um pouco como entender um poema, só que, dessa vez, a poesia acontece com você”.

Mesmo em nível e proporções menores, Constantino passa por muito do que todos nós passamos. Em determinado momento, ele fala sobre como seu derramamento de emoções após se apaixonar por Emílio e enfrentar a separação, pode parecer insólito. Mas, na morte, ele assumiu o compromisso de ser honesto com seus sentimentos, já que não o foi em vida.

Quando o leitor descobre as condições em torno do falecimento do personagem, o livro toma um rumo diferente. Quem ganha voz, a partir daí, são os outros envolvidos na história de Constantino. As primeiras pessoas que souberam do cadáver. O cunhado — que jura não ser homofóbico. Débora, a esposa, autora de um relato belíssimo, que lembrou O Brilho do Bronze, diário do luto que o acadêmico Boris Fausto escreveu quando sua mulher morreu. Aliás, quando Débora fala, a gente descobre que Cloro não é apenas sobre a vida LGBT do marido dela. É também sobre ela. Sobre sua sexualidade reprimida desde sempre, e como isso conduziu a vida conjugal.

O bloco de reações à morte de Constantino tem também o desabafo de Emílio, parceiro da “relação” homossexual mais duradoura que ele teve. É de apertar o coração quando descobre-se que, ao contrário do que o advogado pensava, seu ex-amante não ficou tão indiferente à separação. Eles poderiam ter sido felizes juntos. Poderiam ter vivido muito mais, se tantos pormenores e obstáculos não tivessem prevalecido. E se (sempre tem tantos “e se”) tivessem sido mais abertos com seus sentimentos. Emílio e Constantino são a prova de que, por causa do nosso orgulho, as pessoas morrem sem saber de tanta coisa que deveriam saber.

Não entro aqui no espaço de especulações em torno da criação do enredo. A história se passa entre embaixadas, viagens diplomáticas, ambientes abastados. Ponte aérea que envolve Brasília e o Japão. Lugares que o próprio Alexandre Vidal Porto, diplomata de carreira, frequentou a trabalho. Ainda se referem a ele como “um dos poucos membros do Itamaraty assumidamente homossexuais”.

Não acho necessário entrar nesse quesito, visto que, em Cloro, o escritor deixa uma mensagem fundamental sobre o assunto: se cada um de nós cuidar da própria sexualidade, ninguém precisa se esconder ou se preocupar com a reação de todas as outras pessoas. Ou agimos assim, ou estamos fadados ao mesmo futuro que Constantino: um cadáver sem direito à privacidade, cuja única coisa que sobrou foi a memória de certos momentos de sua inexistência acabada.

______

Cloro, de Alexandre Vidal Porto. Companhia das Letras, 152 págs., R$ 49,90.