Lima Barreto em dose tripla

Dois livros e uma biografia do escritor que também era um grande piadista

Por Carlos Castelo

A Flip homenagear Lima Barreto equivale ao Raul Gil convidar o Thomas Pynchon para ser jurado do seu programa. Quem conhece minimamente a obra do proprietário da famosa biblioteca Limana sabe — do contra do jeito que era — que o artista nunca participaria de um evento desse tipo. Talvez o alcunhasse de “uma Livraria Cultura do Shopping Iguatemi em 3D”.

Lima Barreto foi um dos maiores humoristas da América Latina. Resguardando as devidas proporções, o carioca sofria do mesmo mal de James Joyce: os críticos passaram a colocá-lo tão alto no pedestal que o transformaram num autor seríssimo, uma espécie de santo literário, que precisa ter uma data no calendário católico e ser homenageado em julho na igreja matriz de Parati.

Só que esqueceram o coeur do trabalho, tanto de um Joyce, quando de um Lima: a piada e a paródia. Refinada e para poucos, mas que nunca deixa de ser a irônica Anedota em cima da realidade.

Para quem duvidar do lado piadético de Lima Barreto, basta olhar para suas crônicas na “imprensa alternativa” dos anos 1910. Nelas, ele assumia heterônimos de um sarcasmo incalculável e rasgava o verbo, notadamente em cima dos desmandos políticos e dos costumes do Bananão.

Melhor ainda é passar os olhos pelo romance Os Bruzundungas, uma ode ao humor paródico nacional.

Sinta o trecho a seguir:

“Não há homem influente que não tenha, pelo menos, trinta parentes ocupando cargos do Estado; não há lá político influente que não se julgue com direito a deixar para seus filhos, netos, sobrinhos, primos, gordas pensões pagas pelo Tesouro da República.”

Quem quiser se aprofundar ainda mais na estética limense pode seguir por outras vertentes. Uma é a completíssima biografia Lima Barreto, Triste Visionário, que traz com escrupulosa minudência a trajetória do escriba. O catatau foi o grande destaque da Flip, logo obtendo a merecida atenção de toda grande mídia. Em assim sendo pararei de citá-lo aqui para mencionar uma segunda vereda menos incensada, porém não menos preciosa.

Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, esse caso raro na literatura brasileira. Organizado por Marcos Scheffel, professor da UFRJ, a edição traz texto introdutório com importantes informações ao leitor: histórico da publicação, um resumo sobre atuação de Lima Barreto como cronista, um estudo sobre os personagens, informações literárias e as razões sobre as quais esta é uma obra que quase caiu no esquecimento.

Lima Barreto é isso aí: quanto mais, melhor.

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Os Bruzundangas, Numa e a Ninfa, Editora Carambaia, 512 págs., R$ 129. Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, Ateliê Editorial, 264 págs, R$ 39,80. Lima Barreto, Triste Visionário, de Lilia Moritz Schwarcz, Companhia das Letras, 648 págs., R$69,90

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