Liquefeito em modo avião

Lucas Santtana e Tibério Azul abrem novas possibilidades para o álbum conceitual

Lucas Santtana com o livro Modo Avião Fotos: Divulgação

O álbum conceitual fez 50 anos em 2017. Ele nasce com Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, e tem seu apogeu durante os anos 70. A turma do rock progressivo era particularmente chegada num álbum-conceito. Mas a verdade é que, nesses 50 anos, o disco que traz uma narrativa fechada, em que as músicas estão todas concatenadas nunca saiu de moda.

Dois discos brasileiros deste ano levam o álbum conceitual a novos lugares, num diálogo com outras mídias, com resultados muito interessantes. Modo Avião, de Lucas Santtana e Líquido, de Tibério Azul trazem propostas bastante diversas, e usam o livro como um elemento que estende a narrativa musical contida no álbum. Ambos trabalhos falam muito de hoje. Modo Avião com seus olhos embebidos de futuro, e Líquido evocando de diferentes maneiras o passado.

Tibério Azul

Essa dança entre o que passou e o que virá, que poderia se passar no Bang Bang Bar de David Lynch, no caso de Modo Avião, ou no Beco das Garrafas, no caso de Líquido, é que reflete um pouco desse nosso tempo em que tudo se recicla, remodela, repensa. Em que é possível ser original tanto a partir de uma releitura da nossa acumulação cultural quanto ao tatear territórios mais inexplorados.

Lucas Santtana fez um filme em forma de disco e levou a essência dessa história escrita em parceria com J. P. Cuenca para um livro que é em si um objeto de arte, ilustrado de maneira deslumbrante pelas pinturas de Rafael Coutinho. Tibério Azul criou todo um campo poético em torno de uma metáfora com a água, que deságua tanto em Líquido como no livro de poesia Líquido ou o Homem que Nasceu Amanhã. As duas propostas trabalham com possibilidades distintas de registro, o superficial e o profundo. Uma vez que se alcança a parte mais funda, é difícil voltar para o raso.

Ar

Modo Avião demanda mais. Para fazer sentido, o disco tem de ser ouvido mesmo em modo avião, de uma vez, longe das distrações do dia-a-dia digital. O que não é fácil hoje. Fiz três tentativas mal-sucedidas antes de perceber que devia mesmo desconectar para me conectar. Quando isso acontece, é possível entrar nessa dimensão suspensa e mergulhar numa narrativa envolta em uma trilha sonora climática.

foto: Ceciila Schiavo/Lote 42

A primazia não é da canção, mas da trajetória. Tanto que, sem os diálogos interpretados por atrizes como Georgette Fadel, Patrícia Pillar, Mariana Lima e Maria Manoella — só pra citar algumas das mulheres que contracenam com o cantor — , as canções de Modo Avião perdem muito de seu impacto.

Pode parecer algo ruim, mas no fundo é uma virtude, porque a força está no conjunto, em como você é levado por essa fábula de encontros e desencontros, com reflexões sobre quem somos nesse mundo em que nos relacionamos mediados por telas, como avatares, ligados aos nossos celulares, esses aparelhos feitos “a partir do mundo mineral e que eles tinham dentro deles o resto de tempos passados, fósseis que já estavam debaixo da terra adormecidos e que agora trouxemos à tona, como uma mistrura de Poltergeist com Tamagotchi que a gente carrega no bolso”, como diz o texto de Celulares e Fósseis.

Essa condução, próxima do universo de sonho, é amplificada pela produção brilhante do disco, assinada pelo cantor e por Fabio Pinczowski, com a mescla dos sintetizadores com instrumentos acústicos, com destaque para as cordas ao longo do disco e para a sanfona de Mestrinho em Nome de Maria.

Água

Líquido, por outro lado, é um disco refinado de música popular, feito de canções fortes, interligadas, mas que funcionam bem isoladamente. Um encontro do som de banda brasileira com o folk e o jazz, com arranjos superbacanas, mas superclássicos de Nilsinho Amarante.

Musicalmente, não é um disco que aponta caminhos ou traz grandes novidades. Seria até um pouco submisso demais às convenções não fossem o lirísmo e a forma peculiar do cantar de Tibério Azul. As mesmas canções, na voz de um grande cantor, seriam apenas corretas, mas na voz pequena e levemente destemperada de Tibério elas ganham uma expressão que faz toda a diferença. Sai do óbvio.

E é, essencialmente, um disco que fala sobre o nosso tempo, sobre o amor que transforma, sobre a construção de uma visão romântica de mundo, mais abraço do que beijo, lisérgico no que há de comunhão com a natureza, sem ser estereotipado.

A música que melhor exemplifica esse jogo psicodélico é Nem a Pedra É Dura, com sua intercalação de palavras e jogos sinestésicos.

O mais interessante é como o disco traduz para uma veia popular o excelente poema autobiográfico Líquido ou o Homem que Nasceu Amanhã.

Trabalhando fora da esfera musical, Tibério Azul se desnuda em versos que exploram suas raízes, conexão com o mundo, amores, sempre brincando com a metáfora da água como chuva, rio, mar, corrente.

Sua poética é mais complexa, instigante, sem perder a musicalidade. Quando se entra nesse universo, fica difícil parar de ouvir, de passear pelas metáforas e pelos símbolos.

Seja com Lucas ou com Tibério, é nesse balanço entre passado e futuro chegamos ao agora.