Love, Love, Love ou Mais Amor, por favor.

O texto de humor cáustico do britânico Mike Bartlet, mais do que uma narrativa dramática de uma família de classe média em três momentos históricos, é um convite para olhar para o outro com olhos mais generosos

Foto: Leekyung Kim (Divulgação)

No dia 25 de junho de 1967 acontecia a primeira transmissão televisiva via satélite com os Beatles cantando All You Need Is Love e, foi nessa noite, que os protagonistas da peça Love, Love, Love, Kenneth e Sandra, se conheceram.

Os dois , estudantes de Oxford no Reino Unido, modernos, autocentrados, libertários, como eram a maioria dos baby boomers signatários do Paz&Amor. Nessa cena do encontro, o autor britânico, Mike Bartlett, mostra as primeiras garras, ao juntar o novo casal a partir do abatimento do irmão de Kenneth – que não era descolado, nem antenado, nem estudante universitário. Na mesa, o primeiro movimento narcísico.

Kenneth e Sandra serão acompanhados a partir daí até a primeira década dos anos 2000. Apesar da linearidade cronológica, o texto vai nos arrastando furiosamente pelo tempo, tornando-o menos importante do que as questões suscitadas.

O casal, na segunda onda do espetáculo, década de 1990, já ganhou o mundo capitalista com carreiras bem sucedidas, trocou a maconha pelo vinho, já tem o casamento em destroços e dois filhos adolescentes – uma jovem violinista sempre pouco à vontade e um jovem totalmente perdido na sua inteligência ou na incapacidade de enfrentar aquele mundo em que os pais não têm alteridade nem desejam desenvolvê-la.

Aqui é um soco no estômago, temos que revisitar a gana da juventude idealista que quis com todas as forças construir um novo mundo e que terminou vencida pela sedução dos prazeres do capital; e, pior que isso, vencida pelo ideal antigo do self-made-man: com uma boa educação você terá um emprego bem remunerado, depois é só encontrar um parceiro estável, comprar uma casa e um carro. A solidariedade, o amor e o outro, que se explodam.

A montagem de Love, Love, Love pelo Grupo 3, dirigida por Eric Lenate, não poupa o espectador da aspereza de Bartlett. Muito pelo contrário, já começa com tudo às claras: trocas de figurinos, de adereços, mudanças de cenário, tudo é feito no palco, assim como o convite ao espectador para entrar em cena desde o primeiro momento, quando atores sentados no proscênio acompanham dali os outros que já estão em cena.

A direção tira partido do humor suscitado pelo texto, do cenário realista de André Cortez , dos figurinos precisos de Fábio Namatame, dos gestos rigorosamente bem compostos, e vai construindo um ciclo de dor, que minuto a minuto vai nos levantando do chão.

Love, Love, Love apresenta um conjunto de atores quase perfeito de tão bom, sem exageros, sem autocomiseração, na medida necessária para nos arrastar sem trégua, pela história.

Foto: Leekyung Kim (Divulgação)

Aqui, é obrigatório abrir um parênteses para falar das atrizes Débora Falabella e Yara de Novaes, que agarram a dádiva do texto e mostram o que é um trabalho de atuação construído com esmero. As atrizes vão desenhando as passagens de tempo nos seus corpos, nas expressões, na causticidade dos olhares, nos silêncios.

Débora Falabella constrói uma jovem universitária, uma adolescente sem muita graça e uma mulher passando dos trinta, com tamanha sensibilidade que o espectador fica sem saber como conter tanta desolação. A naturalidade com que Yara de Novaes dá voz ao cinismo e ao egoísmo de sua Sandra é tão provocativo que a gente passa a achar que a humanidade não tem mesmo saída.

A beleza do teatro bem feito é que ele te arrebata ali, enquanto os olhos testemunham, enquanto o corpo treme.

A paulada final de Love, Love, Love instala-se na terceira e última parte. O casal já está divorciado há tempos, aposentados, com a vida ganha, os filhos com mais de trinta e entorpecidos por descuido e desamor.

A ex-família encontra-se a pedido da filha que vem buscar ajuda para a sobrevivência, mas continua dando com os burros n’água: “Tenho quase 40 anos e não tenho nada”, diz ela. "Vocês me fizeram acreditar que eu era boa violinista, quando eu era medíocre, vocês votaram em Thatcher, destruíram os sindicatos, envenenaram o meio ambiente enquanto vivem de suas confortáveis ​​pensões. E para nós? O que restou? Vocês não mudaram o mundo, vocês o compraram”. E, com isso Mike Bartlet deixa claro a que veio.

Mais do que gerações que se acusam por seu desafinamento, ou visões de mundo, mais do que uma narrativa dramática de uma família de classe média circunscrita no seu mundinho rigorosamente construído, Love, Love, Love é uma acusação mordaz da nossa incapacidade de sair do nosso umbigo e olhar para o outro como outro e manter os olhos generosos, principalmente se o outro for seu filho.

Para além da arrogância implícita numa geração que abraçou o hedonismo, o mais pungente é constatar que a busca pelo prazer como causa primeira em detrimento de todos é tão devastador quanto o abandono.

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Love, Love, Love — Teatro Vivo (Av. Dr. Chucri Zaidan, 2460 - (11) 3279–1520) Sexta-feira às 20h, Sábado às 21h, Domingo às 18h. Até 27 de maio. De R$ 50 a R$ 60.