Música estranha comestível

Estreia de Ana Frango Elétrico, cantora carioca de 20 anos, reúne cena que vai do experimental ao pop no Rio de Janeiro

Foto & Montagem por Barbara Tavares e Joana Tavares

Por Pérola Mathias

O Rio de Janeiro pode ser, atualmente, um termômetro do caos social, político e econômico do país, mas é também onde a música alternativa independente tem fervilhado, com uma produção artística intensa que vai de encontro às barreiras e censuras que têm cerceado a arte na cidade. Depois de lançamentos que tiveram sucesso de crítica no ano passado, como Letrux em noite de climão, de Letícia Novaes, e Action Lekking, de Negro Leo — guardadas as devidas diferenças entre ambas as propostas — , a cidade parece organizar uma cena que vai do experimental ao cancioneiro mais pop, permitindo que haja um diálogo entre as diferentes vertentes.

Dentre estes lançamentos em 2018, estão tanto nomes estreantes como outros mais conhecidos e cheios de estrada — Os Dentes, Antônio Neves, Lukash, Marcos Campello, Kassin, Jonas Sá — só para citar alguns dos que circulam em apresentações pelas casas de shows que vão da zona sul ao centro da cidade. Além da já clássica Audio Rebel, em Botafogo, que é estúdio e base do selo QTV, fazem parte do circuito a Comuna, a Etnohaus, o Escritório, de Lê Almeida, o Aaparelho e a B.O.C.A — estas três últimas nos arredores da Praça Tiradentes, no centro da cidade.

Reunindo boa parte desta cena, Mormaço Queima, de Ana Frango Elétrico é um dos que mais chama a atenção desta safra. Disco de estreia da cantora de 20 anos, o álbum foi lançado em fevereiro. São 8 músicas, uma compilação de composições da própria Ana que evocam imagens do cotidiano ao surreal — “mas um surreal que faz sentido”, como ela mesma explica. Suas canções delineiam poesias não narrativas sobre melodias de tempos quebrados.

Da concepção à mixagem, Mormaço Queima demorou mais ou menos um ano e meio para ficar pronto. Para Thiago Nassif, guitarrista e co-produtor do disco, um passo fundamental foi ter usado como base as gravações da própria Ana com sua guitarra. Em cima do que ela tinha feito, começaram a pensar os arranjos, preservando a forma particular de Ana tocar: variando os ritmos dentro de uma mesma música. É isto que imprime particularidade à sua composição, que nunca é apenas uma levada só do começo ao fim. No entanto, tal característica deu trabalho dobrado aos músicos para manter a originalidade dos takes sem colocá-los numa “régua”.

Fizeram parte também das gravações Antônio Neves, Raquel Dimantas, Antônio Secchin, João Caetano e Thomas Duarte. Tocando e também produzindo, além de Nassif, Ana juntou Guilherme Lírio, Marcelo Callado e Gustavo Benjão — estes dois últimos, sócios do estúdio Do Amor, onde o disco foi gravado. Para ela, o fato de o disco ter sido pensado por ela e mais quatro produtores foi fundamental, porque entrou no estúdio sem saber exatamente o que queria e a criação coletiva fez com que seu ouvido, em um ano, se expandisse muito a partir das referências que cada um levava. Conta, por exemplo, que Callado e Benjão foram fundamentais pela experiência que traziam de suas trajetórias na música. Já Guilherme Lírio tem um trabalho mais apurado quanto ao desenho das harmonias e melodias. E Nassif veio com a expertise da formação em engenharia sonora e de sua pesquisa com timbres, texturas e cores na música — que é algo que Ana diz se interessar muito. Ambos possuem em comum a ideia de pensar a música junto a outras linguagens artísticas, sobretudo as artes plásticas e a poesia de livre associação.

Os elementos do experimentalismo talvez estejam mais evidentes em No bico do mamilo. Primeiro, por ser uma das letras mais despachadas de Ana, que diz “No metrô eu penso que passo/ num subterrâneo perto da tua casa/ como dói no bico do mamilo peteleco gelado”. Além de violão, a gravação tem baixo, sax soprano, trombone, metalofone, bateria tocada por Marcelo Callado e quatro guitarras: as de Ana, Benjão, Callado, Lírio e Nassif, que solta as duas mesmas notas tocadas no anúncio do Metrô Rio depois que Ana canta a palavra “metrô” na segunda parte da música. A brincadeira ilustra o jogo de som e palavras que permeia o disco, num misto de piada, sarcasmo e procedimento sonoro ao mesmo tempo inventivo, despojado e intuitivo — lembrando o trabalho de bandas pioneiras como Os Mutantes.

Em Trago é possível ouvir objetos caindo — que é o som, literalmente, dos músicos jogando coisas no chão do estúdio para criar camadas sonoras e intensificar o efeito de quebra do andamento.

Trajetória

Apesar de ter estudado música desde pequena, Ana diz que sua forma de compor é meio “crua e descompensada”. Começou ainda na escola, quando criou a banda Almoço Nu, com a qual ainda toca e lançará um disco em breve pelo selo independente Reurbana, de Ivo Fabiano e Luigi Tedesco. A música e a pintura foram as formas encontradas de tentar diminuir a ansiedade: “Sempre fui meio hipocondríaca, achava que ia morrer logo, aí comecei a fazer uns quadros e compor umas músicas porque fiquei angustiada de morrer e não deixar nada”.

Fora da Almoço Nu, Ana também fez apresentações sozinha, com sua guitarra, por saraus de colégios e na rua por mais de um ano. Dentre estes shows, os das escolas públicas ocupadas em março de 2016 foram muito marcantes. Num deles, que era organizado pelo CEP 20.000 — sarau fundado pelo poeta Chacal em 1990 e à época curado por Santiago Perlingeiro — Ana chamou tanta atenção que Perlingeiro a convidou para participar de uma mesa na Flip de 2017, dentro da série “Páginas anônimas: a literatura que o Brasil faz e você desconhece”, junto com os músicos Matheus Torreão e Blackyva.

O nome artístico de Ana é outra coisa que chama atenção e tem várias explicações. “Frango Elétrico” deriva do seu sobrenome Fainguelernt e, segundo ela própria, foi uma forma de subverter a imposição da descendência do sobrenome masculino. Não ter um sobrenome “verdadeiro” seria também uma maneira de romper com uma dinastia que impera na música popular brasileira, dos compositores contemporâneos estarem sempre atrelados à uma descendência musical que vem da linhagem da MPB/Tropicália, que ela diz que a irritava muito quando tinha por volta de 16 ou 17 anos. “Muita gente foi contra eu adotar esse nome. Talvez eu me arrependa dele quando eu ficar velha, se eu ficar levando ele adiante. Mas ele também me permite que eu possa adotar outros personagens no futuro, posso matar a Frango Elétrico e adotar outros nomes que não vão mais ser essa Ana”.

Mesmo com idades, bagagens e maneiras de trabalhar distintas, fica nítida a integração entre os músicos do projeto de Ana. Ela atualmente toca baixo na banda de Marcelo Callado junto com Guilherme Lírio e Caio Paiva. Lírio, além de integrar o Exército de Bebês, também toca com alguns outros projetos, como o de Vovô Bebê (Pedro Carneiro). Já Paiva, que tem a mesma idade de Ana, tem um projeto com Gael Sonkin e sempre se interessou pela interseção entre a canção e o noise — tanto que fez um show recentemente com Bruno Schiavo, em São Paulo, onde reside desde o ano passado.

O trânsito dos músicos entre Rio de São Paulo tem sido cada vez mais intenso, até porque muitos deles têm vindo morar em São Paulo. E cada cidade se configura de uma maneira específica com relação ao cenário musical: se no Rio as apresentações parecem circular sempre nas mesmas casas que resistem, agregando os músicos no eixo Zona Sul–Centro; em São Paulo, o formato parece mais especializado, constituindo-se em nichos. Onde se toca música experimental, só se toca experimental; os espaços de música eletrônica ficam restritos ao eletrônico; o de canção à canção e assim vai. Para Ana Frango Elétrico, essas divisões, ao mesmo tempo que criam uma integração entre um grupo de músicos, acabam por restringir quem pode ver e ter acesso aos shows: “Tem gente da zona norte, de Bangu, de vários lugares, que fala comigo e pede para ter show por lá. Pro segundo semestre vou me apresentar em São Gonçalo. Mas bom mesmo é a internet, né?”, diz ela, que no segundo semestre vem a São Paulo.