Manu Maltez lança livro-disco entre o sertão e o largo da Batata

Com "pé na subversão e outro na tradição", álbum explora timbres do forró com foco na zabumba e no contrabaixo

Foto: José de Holanda

Disco de "transforró". Livro que conta a história de um rabequeiro que se apaixona por uma cantora trans no largo da Batata e vai atrás dela no sertão da Bahia, perdendo o braço no caminho. Enredo contado por desenhos em traços à caneta e nanquim e expressividade no uso do claro-escuro. O multi-artista Manu Maltez lança nesta sexta-feira (4) o disco-livro O Rabequeiro Maneta e a Fúria da Natureza, trabalho que envolve todas essas vertentes expressivas e ainda dois compactos, com quatro músicas em cada um.

"Transforró", como conta, "passa pela idéia de dividir a sanfona em diversos instrumentos (violão/guitarra/clarinete), por aprofundar o uso dos timbres, efeitos, ruídos, inclusive na voz, por uma via de duas mãos entre São Paulo e sertão e por uma provocação: um baile onde também dançam homem com homem, mulher com mulher, bicho com gente e o que mais vier."

Para compor o disco, Maltez chamou Zé Pitoco, zambumbeiro de Antonio Nóbrega que já tocou na banda de Camarão. É a "fogueira rítmica" do trabalho, ligando a percussão ao violão. Aprofundando a desconstrução, os graves são feitos pelo contrabaixo tocado por Maltez "pensando nele como se fosse uma rabeca, fazendo aquele resfolego guinchante". Sem falar no clarone (quem toca é Maria Beraldo), presente em algumas canções, que faz as vezes de baixo. Completam o time Rafa Barreto na guitarra e Alessandra Leão, com percussão e vozes.

Nesta sexta, Maltez e banda apresentam o disco no Itaú Cultural, com participações (também presentes no disco) de Siba, Assucena Assucena, Lulinha Alencar e Vicente Barreto. Ele respondeu a perguntas sobre o trabalho por e-mail para a Bravo! — leia abaixo.

O que vem primeiro na história do Rabequeiro Maneta — música, livro ou ilustrações? Como surgiu a história?

Na verdade, meu processo é bem intrincado, confuso, misterioso eu diria. Não sei bem o que veio antes. As coisas vão aparecendo e se encaixando. Por certo, havia uma música, uma espécie de xote que compus que apresentava uma tal de Jezebel, cantora trans de risca-faca recém operada. Havia também uma série de desenhos eróticos entre bichos e homens. Havia uma voz ancestral, de minha mãe, meu avô, minha bisavó, de Patos, sertão da Paraíba. E uma vida que tenho levado nos últimos 15 anos entre Sampa e sertão da Bahia. Havia uma obsessão por histórias de onças, que sempre escuto quando estou por lá, apesar de nunca vê-las. Havia uma história de amor, talvez. Inacabada. Havia esse pensamento de que o amor é um membro fantasma.

Um dos pontos de contar essa história agora, imagino, é falar das transformações do largo da Batata. Crê que o largo esteja se descaracterizando? Quais os efeitos da revitalização para o tradicional encontro de imigrantes nordestinos na região?

Pois é. De certa forma, o largo é como se fosse o sertão. E como já disse outro escritor, “O sertão é o mundo”. Uso o largo pra falar de uma coisa muito minha e de uma coisa geral também. O largo de minha infância com lojas de umbanda, dezenas de barracas de ervas e risca-facas, o largo de minha juventude com suas casas de forró universitário e onde eu vi Chico Science tocar pela primeira vez em São Paulo, para um público de 20 pessoas no extinto Aeroanta, e o largo de agora, nesse processo de gentrificação, que parece chegar a um ponto cataclismático com a eleição desse que atende por João Doria Jr. Esses largos de certa forma se batem, e acabam se misturando. Da mesma forma como o sertão. O sertão mítico das histórias da minha família, recheadas de cangaceiros, o sertão de Guimarães Rosa, de Glauber Rocha, de Luiz Gonzaga, com os quais me embebedei na juventude, se batendo com esse sertão de agora por onde passo, tomado por motocicletas no lugar dos burricos, por biqueiras de crack e moinhos de energia eólica rasgando o horizonte. É um eterno conflito, onde estão sempre se criando novos retirantes. No caso do largo, o destino que se desenha é o da expulsão dos nordestinos. O que não é muito diferente do que se passa no mundo. Quem não tiver capital acumulado, quem não tiver propriedades, planos de saúde, seguidores nas redes sociais, é retirante.

Qual a importância do Zé Pitoco no trabalho? Como foi gravar com ele?

Pitoco para mim é uma lenda já. Assistia a ele tocar quando ainda era menor de idade e ir ao forró era algo subversivo. Continuei indo aos seus forrós ao longo desse tempo e, de repente, tê-lo tocando nesse trabalho tem uma carga emocional muito forte. Meu pensamento inicial para esse disco está focando em um jeito de tocar violão muito ligado à zabumba, um violão zabumbado. E desde o começo conversando com o Rafa Barreto, que produziu o disco comigo (depois entrou o Gilberto Monte junto), havia essa vontade de que a zabumba livre de Pitoco fosse a fogueira rítmica do trabalho.

Como o trabalho se relaciona com as suas pesquisas no contrabaixo (que também foi um dos motes de O Diabo Era Mais Embaixo)?

No Diabo fiz uma fábula sobre as origem dos graves na história da música, o contrabaixo era usado como o mártir dessa trama. Já nesse trabalho pensei muito em seu parentesco com a rabeca (o contrabaixo também é apelidado de rabecão). No disco eu também toco contrabaixo, e pensando nele muito como se fosse uma rabeca, um rabecão, fazendo aquele resfolego guinchante, aquele acompanhamento melódico distorcido, “desafinado” que só um rabequeiro sabe fazer. Ainda mais porque me parece que foi ali que começou o forró, antes mesmo da sanfona, a rabeca já estava lá.

Como será o show na sexta-feira, fará com a banda Fúria da Natureza?

Olhe: juntar num mesmo palco Siba, Vicente Barreto, Alessandra Leão, Zé Pitoco, Assucena Assucena, Rafa Barreto, Lulinha Alencar e Maria Beraldo já é um motivo pra soltar fogos. Muitos fogos. (Ainda mais em uma terra onde se soltam fogos por motivos razoavelmente inexplicáveis.)

A “subversão do forró” tem relação com maior destaque para a percussão do que para a sanfona? Como o forró pode (ainda) ser reinventado, contemporaneamente?

O “transforró”, a que me refiro, tem a ver com muitas coisas. Passa por essa idéia de dividir a sanfona em diversos instrumentos (violão/guitarra/clarinete), passa por aprofundar o uso dos timbres, efeitos, ruídos, inclusive na voz, passar por mexer na parte formal das composições (embora isso pra mim seja um processo espontâneo, quase inconsciente), passa por uma via de duas mãos entre São Paulo e sertão, passa por uma provocação: um baile onde também dançam homem com homem, mulher com mulher, bicho com gente e o que mais vier. Mas isso é só meu jeito de repensá-lo, cada um encontra sua maneira. Existe um pé na subversão mas existe também um pé na tradição, nesse sertão fundo, naquela paisagem árida por onde ainda hoje caminho e me perco e me encontro, nessa “educação pela pedra”, dos parentes e amigos que tenho por lá, daquela afetividade; desse baile imemorial forjado por Gonzaga, Jackson, Camarão, Marinês, Dominguinhos e tantos outros. Um universo altamente sofisticado e ao mesmo tempo simples, uma coisa que busco cada vez mais. Dessa parte não se pode abrir mão, nunca.

Assista também, com exclusividade, ao clipe de Vuco Vuco, feito com as ilustrações animadas de Manu Maltez.

Lançamento de O Rabequeiro Maneta e a Fúria da Natureza de Manu Maltez (Itaú Cultural/Goma Gringa/YB Music)
Convidados: Assucena Assucena, Siba, Lulinha Alencar e Vicente Barreto
Dia 4 de maio (sexta-feira), 20h
Classificação indicativa: 12 anos
Grátis; retirada de ingressos 2h antes do espetáculo

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