Mapeando a ‘música impopular brasileira’

Irineu Franco Perpetuo lança o livro “História Concisa da Música Clássica Brasileira”

Carlos Gomes, em ilustração de Haroldo Ceravolo

Quem começar a ler a História Concisa da Música Clássica Brasileira pelas últimas páginas pode ter uma surpresa. No livro, que será lançado hoje em São Paulo, o jornalista Irineu Franco Perpetuo reserva nada menos do que 25 páginas à lista de obras consultadas para a escrita.

“Creio que a musicologia brasileira avançou bastante nas últimas décadas, tanto quantitativa quanto qualitativamente”, diz o autor. “É claro que muito resta a ser feito, mas tem havido pesquisas sérias e aprofundadas sobre quase todos os períodos de nossa história musical, trazendo visões arejadas, que esclarecem e desfazem os mitos do passado.”

Parece pouco arriscado supor que a maior parte dos livros, partituras e artigos científicos da área musical levantados por Irineu seja estranha mesmo ao restrito público que frequenta salas de concerto no país. A literatura sobre música clássica padeceria, assim, do mesmo mal que o seu objeto: embora especialistas produzam sistematicamente, as suas criações não circulam.

Além dos livros sobre música, a bibliografia inclui autores de sociologia, história e teoria literária brasileiras — como Sérgio Buarque de Hollanda, Caio Prado Jr. e Alfredo Bosi. “Sendo cada partitura um dado cultural, e não uma mera coleção de folhas soltas no tempo e no espaço”, lê-se na introdução, “procurei relacionar nossa música ‘clássica’ com os fatos históricos e culturais de sua época (inclusive a música popular), e situar seus criadores no ambiente intelectual e social brasileiro”.

A articulação entre uma literatura especializada e dados sobre o ambiente histórico-cultural se resolve, no livro, em uma prosa jornalística fluida, que evita o jargão técnico, dispensa o uso de pentagramas e não analisa obras no detalhe. Irineu Franco Perpetuo está mais preocupado em percorrer desde a penetração da música ocidental no país — ocorrida já com a frota de Cabral, abarrotada de instrumentos — até os meandros da produção atual, oferecendo uma espécie de mapa para o tesouro da “música impopular brasileira”, como define.

“Quando se fala simplesmente de ‘música brasileira’, sem nenhum outro adjetivo, é a produção popular que imediatamente vem à cabeça da maioria, seja no Brasil, seja no exterior”, escreve. “Assim como não quero brigar com a música popular, tampouco tenho a intenção de enganar o leitor incauto. Esse livro aqui fala de música brasileira, sim. Mas é a ‘outra’. A ‘clássica’. A impopular (sem aspas)”.

Segundo Irineu, a razão para a persistência dessa impopularidade é o descaso que nossas elites e orquestras dispensam à música feita aqui. “O problema específico da música erudita brasileira é não ser devidamente conhecida ou tocada nem em nosso próprio país”, diz. “Nossas orquestras sinfônicas e teatros de ópera parecem padecer de um bovarismo (ou vira-latismo, de acordo com o gosto do freguês) crônico, e se veem como instituições estrangeiras que, como que por acaso, estão radicadas no Brasil”.

“Talvez”, argumenta, “essa atitude reflita algo da mentalidade perversa da elite brasileira, que parece se ver como uma população estrangeira, proveniente do primeiro mundo, forçada a padecer das mazelas de um país que lhe é inferior — e, portanto, sentindo-se autorizada a pilhá-lo (e subjugar os nativos) a seu bel prazer”.

Heitor Villa-Lobos, em ilustração de Haroldo Ceravolo

Séculos perdidos

Esse descaso tem raiz histórica e alcança os primeiros séculos da colônia — então um mero entreposto comercial à serviço da coroa, pobre de atividades intelectuais ou culturais. Mas escassez não significa vazio e, embora saiba-se o nomes de alguns músicos do período, pouca documentação sobreviveu.

“Há um dado especialmente frustrante sobre a música brasileira desse tempo”, escreve Irineu. “Existem hoje gravações das grandes obras polifônicas que se executavam nas luxuosas catedrais mexicanas dos séculos XVI e XVII, bem como das peças que se faziam nas missões jesuíticas da América do Sul. Não sobrou, porém, partitura alguma da América portuguesa anterior ao século XVIII”.

É na comparação entre o Brasil e a América espanhola feita por Sérgio Buarque de Hollanda que Irineu busca respostas para discrepância. “De um lado, universidades, em Lima, México e São Domingos; do outro, os colonos tinham que viajar para Coimbra em busca de estudo superior.”

“Não deixa de ser frustrante conhecer o nome dos compositores dessa época, mas não ter acesso a um compasso sequer de sua música”, comenta Irineu, que buscou “apontar o que há de informações sobre nossa vida musical do período” até onde foi possível no livro.

Indígenas e negros

Outra lacuna a ser preenchida pela historiografia é a contribuição indígena na formação da cultura musical brasileira. No período colonial, a música cumpriu papel decisivo no processo de catequização dos índios, aos quais os portugueses tentaram seduzir à religião católica, além da violência, pela musicalização. O raciocínio era de que seria mais fácil “converter recreando”, na expressão de Alfredo Bosi.

“Os indígenas foram massacrados, e não consegui encontrar, em minhas pesquisas, estudos satisfatórios a esse respeito”, admite Irineu. Não à toa, um dos poucos estudos citados no livro tem por título “O Índio na Música Brasileira: Recordando Quinhentos Anos de Esquecimento”.

Já a participação dos negros está melhor documentada, devido à possibilidade de ascensão social que alguns homens negros livres — a maioria com origem racial mista, tidos como “mulatos” — encontraram na música. “Do período colonial até o final do império — ou seja, dos mineiros a Carlos Gomes, passando por José Maurício Nunes Garcia — , os principais compositores abordados no livro têm sangue negro, e são os protagonistas da linha evolutiva que o livro traça”, diz Irineu.

Um capítulo à parte

O único compositor a nomear uma seção do livro, aliás, utilizou com frequência temas atribuídos (às vezes por ele mesmo) aos indígenas e aos negros em suas obras — sem falar no trânsito livre de que gozou nas manifestações populares do seu tempo.

“Se Villa-Lobos é o único nome a merecer um capítulo só para si neste livro, isso se deve a sua incontestável condição de primus inter pares”, escreve o Irineu. “Não apenas no exterior, mas mesmo por aqui, Villa-Lobos é o único compositor clássico brasileiro que tem merecido performances e gravações regulares de suas obras”.

Irineu pontua, no entanto, que a parada é dura para quem não carrega a alcunha de “compositor nacional” — para os outros, o reconhecimento, se vier, pode chegar apenas após a morte. “Nossos compositores que não se chamam Villa-Lobos vivem eternamente tendo que ser ‘resgatados’ por musicólogos e intérpretes abnegados, que teimam em não deixar apagar a memória de uma produção contínua e de qualidade, que começou na época colonial, chegando até os nossos tempos”.

Chiquinha Gonzaga, em ilustração de Haroldo Ceravolo

Domínio popular

Ao longo do século XX, a música popular alcança cada vez mais protagonismo em relação à sua prima impopular e no cenário cultural brasileiro como um todo. Muitos compositores de formação erudita do período, por interesse pessoal ou comercial, frequentaram gravações populares — de Radamés Gnattali a Arrigo Barnabé, passando por Rogério Duprat.

A hegemonia da música popular alcançaria, por fim, a elite cultural brasileira, que passa a adotar grandes compositores da MPB como trilha sonora preferencial. Pelo menos esta é a visão de Gilberto Mendes, cuja frase célebre Irineu utiliza para abrir o último capítulo: “A nova classe social dominante de nosso tempo, rica, universitária, seus escritores, professores, enfim, seus intelectuais, preferem Caetano e Chico Buarque, desconhecem totalmente a possível música erudita que esteja sendo escrita por novos compositores de nosso tempo”.

Irineu não endossa a polarização entre populares e impopulares, dedicando-se aos últimos sem desmerecer aos primeiros. “Eu acho que isso mostra não só o valor intrínseco da música popular brasileira, como a ascensão de seu status dentro da nossa cultura”, pondera. “Se, no começo do século XX, Nepomuceno causava escândalo ao promover concerto de Catulo da Paixão Cearense no Instituto Nacional de Música, e a polícia era chamada para garantir apresentação de Ernesto Nazareth na mesma instituição, na segunda metade do mesmo século nossa música popular já é percebida e aceita não apenas como ‘respeitável’, mas também como sofisticada.”

Tempos difusos

No decorrer do capítulo voltado ao novo milênio, o jornalista costura uma infinidade de nomes e grupos atuais, retrato de uma produção difusa, dispersa e, não é preciso dizer, desconhecida do grande público.

“Acho difícil identificar traços em comum em produções tão heterogêneas, que vão da exploração mais radical dos recursos eletroacústicos e das técnicas expandidas para os instrumentos a um crossover que pouco parece se diferenciar da música popular, passando por neoclassicismos, neorromantismos, neonacionalismos e apropriações mais ou menos ecléticas de tudo que foi feito ao longo do século XX”, afirma Irineu. “A heterogeneidade parece ser a marca”.

Embora reconheça não ser possível reconhecer movimentos na música clássica hoje — ao menos nos moldes do nacionalismo, por exemplo — Irineu diz que “os compositores esporadicamente podem se agrupar em coletivos, motivados por afinidades estéticas ou proximidade geográfica”, citando o Prelúdio XXI, o Nova Musica Eletroacústica (NME) e a Orquestra Castro Alves (OCA), entre outros exemplos.

A dispersão não é estranha às outras formas da arte brasileira hoje — não há movimentos como o Cinema Novo, o modernismo literário ou o neoconcretismo — mas prejudica um tipo de música pouco incentivada pelo poder público, virtualmente ignorada pelo mercado e vista por parte do público apenas como distinção social. Que as linhas nítidas do mapa forjado por Irineu Franco Perpetuo ajudem a encontrar um outro caminho.


História Concisa da Música Clássica Brasileira, de Irineu Franco Perpetuo. Alameda Editorial, 336 págs, R$ 54.

Lançamento: hoje (10/5), na sede da editora, a partir das 18h30. Alameda Editorial: Rua Treze de Maio, 353 — Bixiga — São Paulo.

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