Mappa: uma plataforma humanista que propõe caminhos para aprofundar o conhecimento

A equipe do Mappa. Débora Emm está à esquerda, com uma prancheta na mão.

Num mundo de fontes cada vez mais plurais, como se dá a busca de conhecimento aprofundado? Quem são seus guias neste caminho? Como a cultura pode influenciar sua vida para além dos likes na bolha da sua timeline? Neste mês, foi lançado o Mappa, uma plataforma digital brasileira que serve como um guia para navegar por conteúdos que podem mudar a sua vida.

Mais do que recomendar conteúdos interessantes para assistir, ouvir e ler, o Mappa permite que os usuários tracem percursos individualizados nessa busca de conhecimento. Para chegar nessa atomização, quem se propõe a navegar pelo Mappa primeiro terá de responder algumas perguntas sobre si mesmo e escolher que caminho percorrer. Dessas escolhas e de rodadas de perguntas que vão sendo feitas ao longo da jornada, a plataforma vai sugerindo mais conteúdos.

Muitos dos conteúdos ofertados são gratuitos, mas alguns são pagos — filmes que estão no acervo da Netflix ou que podem ser alugados no iTunes ou na Amazon, por exemplo. O acesso à plataforma custa R$ 10 por mês.

Pude testar o Mappa ao longo deste ano. O que fica claro no processo é que justamente por oferecer uma experiência bastante pessoal, lida mais com a sedimentação do conhecimento e do auto-conhecimento do que com simplesmente a oferta de conteúdos culturais. Dentro da plataforma, além de seguir o seu roteiro, você pode trocar experiências com outros usuários, escrever e ler insights importantes sobre o conteúdo consumido e interagir com os curadores.

O segredo de aproveitar o Mappa é tentar freiar a glutonice. Por mais tentador que seja ver três curtas na sequência, parar para pensar sobre o que assistiu é tão importante quanto o ato de ver. Tirar um tempo para isso é fundamental para que o que foi visto produza um efeito mais duradouro.

O Mappa foi criado pela Inesplorato, que já fazia curadoria do conhecimento na vida real. Com a plataforma, hoje disponível em inglês e português, a ideia é expandir para além das fronteiras lusofalantes. Para contar um pouco sobre essa história a Bravo! entrevistou uma de suas idealizadoras, Débora Emm.

Como a experiência de curar conteúdos na vida real definiu o projeto digital do Mappa?

Como curadoria de conhecimento foi uma invenção nossa de sete anos atrás, o processo da vida real foi fundamental para que pudéssemos experimentar um método idealizado de forma apenas teórica. Hoje se fala muito em curadoria de conteúdo, e quando este termo surge ele normalmente está associado a uma lista de “dicas” e “recomendações” de alguém que manja muito de um tema. No entanto, curadoria de conhecimento, da forma como nós concebemos é outra atividade que envolve um processo de identificação de necessidades humanas atreladas ao conhecimento. Nosso trabalho é construir pontes entre as pessoas e os conteúdos que podem transformá-las. Desta forma, precisamos conhecer as pessoas para quem trabalhamos. O processo de filtro e escolha aplicado em nosso método de trabalho envolve variáveis mais sofisticadas. Assim, prototipar este processo da forma mais artesanal possível nos ajudou a descobrir caminhos para conhecer de fato as necessidades humanas que podem ser pressupostos para nossa curadoria e ainda analisar conteúdos sob esta perspectiva.

A produção de conteúdos em larga escala não é uma novidade deste século. Este é um problema contemporâneo que veio sendo desenhado ao longo da segunda metade do século XX. Veja os primeiros minutos deste doc do Orson Welles: .

A esperança de uma solução é comumente colocada no universo da tecnologia e dos dados. No entanto, nós apostamos lá atrás que antes de tentar criar uma solução tecnológica que dá sentido ao processo de filtro nós deveríamos aprender humanamente a fazer este processo. Nestes sete anos, por exemplo, pudemos aprender a importância de um senso “social”, e não apenas individual, em qualquer algoritmo que pretenda limitar o universo de opções de conteúdos.

Mais do que uma curadoria cultural, o Mappa se propõe a ser uma curadoria de conhecimento. Quais são as diferenças?

É importante salientar que o Mappa utiliza o método de curadoria de conhecimento para moldar o seu algoritmo, mas não é apenas uma curadoria. Ele é essencialmente uma ferramenta de desenvolvimento pessoal. Assim, não só temas dentro do que é normalmente chamado de “cultura” que entram em jogo. Negócios, tecnologia, política, psicologia, produtividade, teatro, fotografia, esporte, todos esses temas e muitos outros fazem parte do leque de recomendações do Mappa. Toda forma de conhecimento é importante para o processo. Além disso, enquanto a curadoria cultural parte da perspectiva objetivista de recomendar “melhores” filmes, por exemplo, nós sempre partimos das necessidades de um sujeito concreto. Um filme não é, para nós, bom em si. Ele sempre pode ser bom para algum objetivo e para alguém.

Como a curadoria do Mappa se diferencia da curadoria automática de serviços de música e filmes, como Spotify e Netflix por exemplo?

O Spotify e a Netflix são especialistas em coletar dados sobre uma grande massa de usuários e fazer inferências sobre o que cada um curtiria a partir disso. Comportamento de manada. Então se fulano gostou de um filme determinado do Tom Hanks e cem mil pessoas gostaram do filme do Tom Hanks e do novo da Julia Roberts, então fulano provavelmente gostará do filme da Julia Roberts. Nós não partimos desse pressuposto. O Mappa busca compreender as reais necessidades de conhecimento do usuário. A plataforma faz uma série de perguntas para identificar não só interesses, mas também traços da personalidade. Então procuramos curar conteúdos fora do circuito mainstream e que não sejam atrelados unicamente ao interesse do usuário, àquilo que ele gostaria, mas sim àquilo que ele precisa em matéria de conhecimento.

Durante os testes beta, o usuário tinha acesso aos curadores, esse acesso é mantido para quem assinar o Mappa?

Sim, por enquanto vamos manter o mesmo esquema. O Mappa aberto continua sendo beta. Isto quer dizer que as mudanças prosseguem a partir dos apontamentos dos usuários e de desenvolvimentos da própria plataforma. Mas não podemos garantir que esse acesso aos curadores continue indefinidamente. Com o crescimento da plataforma, teremos de automatizar boa parte do processo de resposta.

Tela da minha viagem pessoal no Mappa

A experiência no Mappa é bastante individualizada. Quantos são e como são montados os caminhos?

Ao longo desses anos com a Inesplorato, entendemos quais questões humanas tinham um caráter mais amplo. A partir das problematizações do olho no olho, das mais de 500 caixas de curadoria de conhecimento direcionada, fomos traçando os caminhos que temos hoje no Mappa. O que posso dizer é que as missões disponíveis são muitas e que continuarão crescendo. Além disso, as recomendações de conteúdos estão ligadas não só a essas missões, mas também às diretrizes de desenvolvimento humano da Unesco, que se distribuem em três pilares. Aprender a aprender, aprender a fazer e aprender a conviver. Esses três pontos potencializam o desenvolvimento do ser. Em breve, o usuário do Mappa terá uma área única na plataforma que analisará seu desenvolvimento em relação a cada um desses pilares.

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