“Me leva para o Brasil”

Considerado o Andy Warhol da Escandinávia, Pushwagner morreu na semana passada em Oslo depois de passar a maior parte da vida na obscuridade. Ele completaria 78 anos hoje

A Day in the Life of Family Man

Por Lígia Krás

Trabalhar arduamente a vida toda e só receber o reconhecimento — muita fama, dinheiro e sucesso — e respeito um pouco antes da morte é uma dádiva ou um castigo?

“ Eu nunca pensei que iria ficar com mais de 35 anos. Eu pensava que morreria jovem como Lord Byron e Dylan Thomas.”

Terje Brofos, nome verdadeiro de Hariton Pushwagner, nasceu em 1940 e cresceu durante a ocupação alemã na Noruega. Quando tinha 4 anos, foi atropelado, ficou meses em coma e, já desperto, seu seu pai incentivou-lhe a desenhar durante o período de convalescência. Os pais se divorciaram quando ele ainda era jovem, em boa parte por conta do alcoolismo do pai — com 13 anos, Brofos tomava gim das garrafas do pai e já havia sido expulso da escola por mau comportamento. Mas, como um típico norueguês, ia muito bem nos esportes, amava esquiar e ganhou campeonatos de tênis.

Esse era Terje, um menino franzino de Oslo que vivia em uma Noruega muito diferente da que hoje ilustra revistas de viagens e tem destaque em toda mídia pela qualidade de vida, riqueza e inovação. Foi nessa Noruega que morreu Pushwagner. Muitos dos que trabalharam e conviveram com ele o descrevem como uma pessoa complexa. “Ele tem 22 mil personalidades diferentes e sempre esteve à procura do papel que poderia ter. Ele encontrou em Pushwagner” afirmou ao jornal norueguês Aftenposten o jornalista e fotógrafo Petter Mejlænder que está escrevendo a biografia do artista, que deve publicada em 2019.

Vertigo

Em novembro de 2011 eu estava em uma exposição na Galeria Stolper+Friends, em Oslo, quando um dos sócios do lugar, Hugo Opdal, me apresentou para Simen Stalnaacke e Peder Børresen, os dois fundadores da marca de moda Moods Of Norway, então um sucesso na Escandinávia e Estados Unidos. Eles seriam meus entrevistados no dia seguinte para uma revista de moda do Brasil, e estavam ansiosos para me contar que haviam acabado de produzir uma coleção em parceria com o artista Hariton Pushwagner. Eu pesquisava cultura norueguesa havia um bom tempo e nunca tinha ouvido falar dele. “Mas ouvirá muito daqui para frente!”, disseram.

Estavam certos. Passei a pesquisar sobre Pushwagner e percebi que, quando perguntava para alguns noruegueses sobre ele, as pessoas riam. Os comentários sempre vinham carregados de alguma ironia. Até que alguém em um bar me definiu ele da seguinte maneira: “Ele era um alcoolatra junkie que morou na rua e dança de um jeito estranho”. Foi então que comecei a ler sobre sua vida, pesquisei suas obras e descobri que, nos anos 90, depois de se separar de sua segunda mulher, mergulhou no alcoolismo e nas drogas, vivia nas ruas e dependia da ajuda de amigos e algumas vendas de pequenas obras.

Era impossível para mim, uma fã do livro Fome, escrito também por um norueguês, Knut Hamsun, não me sensibilizar com a trajetória daquele homem tão criativo e de trajetória tão irregular. Pushwagner ilustrou obras de uma singularidade incrível como Soft City e A Day in the Life of Family Man.

Babytrip

Quando olhamos para suas obras estamos também olhando para William Burroughs, Lord Byron, Dylan Thomas, Knut Hamsun, Anthony Burgess, Keith Haring, Munch, George Orwell e Jack London. Ele era uma dessas pessoas cheias de referências interessantes. Um homem extremamente culto, que se permitia experimentar o novo, com um senso crítico muito apurado. Em suas obras, levantou questões como a interação entre arquitetura e estilo de vida frenético dos grandes centros urbanos; o controle exercido por um Big Boss em ambientes de trabalho através de telas gigantes de monitoramento como em um Reality Show: ou o alívio e a função de escudo que as pílulas modernas trazem para que as pessoas possam enfrentar os dias lá fora.

Todas essas questões tão atuais mostram o quanto Pushwagner sempre esteve à frente de seu tempo, pois suas obras mais conhecidas foram produzidas entre os anos 70 e 2000, período em que teve pouco destaque e reconhecimento. Este só veio quando o pequeno galerista Stefan Stray o procurou e se ofereceu para cuidar de sua vida e obra. A partir de dali, mais ou menos pelo ano de 2008, Pushwagner teve seus trabalhos incluídos na Bienal de Berlin e de Sidney, e começou a ter reconhecimento internacional, voltou a ter o direito sobre suas obras (que havia perdido na época em que vivia na rua) e passou a ter um tratamento de celebridade na Noruega.

Painéis gigantes em Oslo

Nos anos seguintes visitei Oslo em três outras ocasiões. Entrei em contato então com Hugo Opdal e pedi que me ajudasse a conhecer pessoalmente Pushwagner. Ele se prontificou a me ajudar, mas as aparições públicas de Push (como era carinhosamente chamado) eram cada vez mais raras. Quando isso acontecia era um espetáculo, centenas de pessoas se mobilizavam para ver ele, tirar fotos enquanto ele dançava, pedir autógrafo…

Então, em setembro de 2014, enquanto estava em Oslo cobrindo um evento de música como enviada da Embaixada da Noruega no Brasil, visitei uma mostra especial com toda a sua obra exposta na Galeria Fineart, em Tjuvholmen, o chamado bairro da inovação. Havia chovido e o sol começava a despontar em uma tarde de fim de verão. Em uma poça de chuva na rua, vi um colorido familiar refletindo. Virei e vi dois imensos galpões cobertos por litografias gigantes de Pushwagner. Uma emoção quase desesperada tomou conta de mim. Senti que nunca o veria, ele já tinha mais de 70 anos e uma aparência extremamente frágil. Por algum motivo eu sentia que aquela tarde era uma despedida.

Hariton Pushwagner

Minha amiga, que estava visitando a exposição comigo, me falou: “Vamos até a Galeria Pushwagner para você comprar o livro dele”. Fomos e, enquanto eu pagava o livro, se aproximou aquele senhor magro, parecido com Artaud, vestido elegantemente em um terno preto com belos sapatos e camisa branca. Havia uma multidão do lado de fora da galeria, que foi fechada tão logo ele entrou para gravar um programa para a TV norueguesa.

Dentro da pequena galeria só eu, minha amiga, os galeristas e a equipe da TV com ele. Eu sequer conseguia falar e disse apenas: “Vou escrever um artigo sobre você lá no Brasil, Push”. Ele riu feliz e tomou um gole de Coca-Cola com vodka e falou com olhos sonhadores: “Me leve para o Brasil, eu nunca estive lá”. De alguma forma hoje cumpro minha promessa. Bravo, Pushwagner. Obrigada pela dança!

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