"Me preparo pro pior terror"

Crítica: LP "PEDRA PRETA", do coletivo Teto Preto, amarra os pontos políticos de 2013, 2016 e 2018

Das manifestações de junho de 2013 às eleições de 2018, passando pelo golpe parlamentar de 2016, algo ruiu no Brasil. No meio do caminho da democracia e da tentativa de construção de uma civilização, havia uma pedra - ou várias delas. Narrativas míticas de brasilidade, expressões de cordialidade e ideias de apaziguamento e harmonia de classes sociais foram rachadas pela brutal realidade que desvelou as verdadeiras estruturas de poder que sempre a sustentaram. Como um documento de época, o coletivo Teto Preto, ao lançar PEDRA PRETA, seu primeiro LP, revela as fraturas expostas de um Brasil calcado na violência, na indiferença e no sadismo.

Junho de 2013

Em São Paulo e Rio de Janeiro, um novo ator político surge no horizonte: as manifestações de ruas. Semana após semana, o gigante acordado se agiganta. Na linha de frente, os black blocs pregam a desobediência civil e a estética do confronto. No lado oposto, com suas bombas de efeito moral, a desmedida repressão policial relembra que a violência é monopólio do Estado. Acendendo o rojão, não há uma só liderança. São várias, vários, várixs, que não estavam ali somente "pelos vinte centavos", mas, sim, por muitas outras coisas: ativismo, coletividade e pautas identitárias passam a mobilizar corpos, mentes e corações e apontam para novas ações políticas e sociais.

Um mês antes, como resultado da efervescência da cena eletrônica no centro de São Paulo, foi fundado o coletivo Mamba Negra, cuja proposta horizontal de colaboração e ampliação de linguagens artísticas a princípio buscava organizar festas. Trabalhando de forma totalmente independente e paralela à grande mídia, pouco a pouco caminhou para o fomento de novos artistas e grupos com a criação do selo MAMBA REC. Nesse selo, Teto Preto, grupo atualmente composto por Laura Diaz (também atua no projeto Carneosso), Loic Koutana, Pedro Zopelar, Savio de Queiroz e William Bica, surgiria no cenário em 2016, com o single de Gasolina, canção autoral do grupo, cujo lado B trazia a regravação de Já Deu pra Sentir (Itamar Assumpção), gravada anteriormente por Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, pioneiros artistas independentes da Vanguarda Paulistana da década de 1980.

Entre o passado da música popular e o que se insinua na contemporaneidade, o coletivo Teto Preto opera em uma lógica pós-moderna: as grandes narrativas, assim como os vidros de bancos e prédios públicos depois da passagem dos black blocs, estão estilhaçadas. A nós só restou colar fragmentos, cacos, pedaços. A brasilidade forjada pelo idioma da bossa-nova e do samba jazz é mesclado com as texturas eletrônicas e digitais comandadas por Pedro Zopelar e Savio Queiroz. Como uma grande metáfora do diálogo e do embate que Teto Preto realiza frente a trajetória da música popular brasileira está o mar do imaginário das canções praieiras de Dorival Caymmi, rememorado na repetição incansável do verso “é o mar”, que, em Ita, quebra e é rachado violentamente.

Em um procedimento ready-made, também empregado em Safo, faixa baseada em um poema de Safo de Lesbos que abre o disco, Gasolina aditivada trabalha a partir dos fragmentos de três discursos em um procedimento: uma fala retirada do filme Terra em transe; uma referência ao Novo Testamento; e um trecho de Poemas Vertigem, de Roberto Piva. Da constatação do fracasso de um sonho de país, na fala do filme de Glauber Rocha, passa-se pela comunhão sangrenta dos corpos para chegar à incorporação da “metralhadora em estado de Graça” pronta para a ação.

Dando liga aos pedaços, o mote “Gasolina neles!”, ao mimetizar uma sirene, aponta para o estado de emergência. Sendo um imperativo, convoca à ação ao mesmo tempo em que evoca a gasolina, substância fundamental do coquetel Molotov, signo das manifestações de 2013. Ao manter indefinido o objeto de tal ação, deixa em aberto a quem se destina a ameaça. Por “eles” devemos entender os políticos, os bancos, os canalhas, os policiais ou todos eles? “Não passarão”, diz o cartaz: relembrando o histórico brasileiro de abusos e impunidades, vinga e revida a morte do indígena pataxó Galdino Jesus dos Santos, covardemente assassinado por quatro jovens de classe alta de Brasília que atearam fogo a seu corpo enquanto dormia em 1997.

A aditivação de Gasolina, canção lançada anteriormente como single que no LP PEDRA PRETA se apresenta como Gasolina Aditivada, reforça o apelo à dança e ao ritmo que reiteram o aspecto política das dimensões da performance e do corpo em Teto Preto. Nascido do contexto de live performance, o coletivo leva a estética de sets e de improviso vocal ao produto fonográfico. Sendo parte central das apresentações do grupo, o performer Loic Koutana, que figura nos clipes de Gasolina, Bate Mais e Pedra Preta, também assina o material sonoro, apontando para a diluição das fronteiras entre linguagens artísticas.

Agosto de 2016

61 senadores, em sua maioria homens brancos de meia idade, cassam o mandato da primeira presidente mulher a ser eleita no Brasil. O processo de impeachment, iniciado no final de 2015, está baseado em uma acusação de crime de responsabilidade fiscal mas, em plenário, poucas são as análises que se detêm a esse aspecto do relatório. Na votação anterior à decisão final, na Câmara dos Deputados, 367 "homens e mulheres de bem", cheios de boas intenções, justificaram seu voto “em favor da família e de Deus”. Na ocasião, o atual eleito à Presidência dedicou seu voto à memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos militares que, durante a ditadura de 1964, havia torturado a ré do processo, Dilma Rousseff, conforme o Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, divulgado em 2014. O retorno do recalcado.

Dando respaldo à massiva votação pelo impeachment, as manifestações de 2015 e 2016 foram protagonizadas por uma grande maioria branca oriunda das classes média e alta. “Quero a minha bolsa Channel”, satirizava o cartaz de uma de suas participantes, em alusão aos programas sociais do governo Lula, como o Bolsa Família, constantemente questionados pelo movimento pró-impeachment. Enquanto emergem autoras e autores que trazem consigo debates até então silenciados no Brasil como racismo estrutural, feminismo, representatividade LGBTQI+ e lugar de fala, o discurso que reage a essas discussões é de isenção total: “Eu não tenho culpa”.

Na canção Em Dívidas, Laura Diaz satiriza tal elite "de bem" que, frente às demandas sociais por reconhecimento, igualdade e reparação, afirma não possuir dívidas históricas, como aquela com os 300 anos de escravidão no país. Primeiramente, em tom de ameaça, Laura é enfática: “Vocês estão perdidos, corroídos, sufocados em dívidas divididas”. Como resposta, sua performance vocal ecoa a debochada interpretação de Elis Regina em Alô Alô Marciano (Rita Lee/Roberto de Carvalho) e encarna a assustada, atordoada e isenta classe: “Silêncio, já basta, chega! Eu preciso de um minuto de paz pra poder pensar”.

Dando nome aos bois, 2016 deixou às claras quem é quem no jogo político brasileiro. Nessa direção, os feitiços da canção Pedra Preta buscam pelo o que sempre esteve oculto: “Cavalo de Troia, rastro de tigresa/ Quem tem põe na mesa.” Após a destruição à qual caminha o país, Raio, canção cujo arranjo eletrônico cria um tortuoso e distópico cenário, fala da amarga sensação de se reconhecer as perdas e as faltas: “A gente assim se parece, se parece, se parece tão pouco”.

Outubro de 2018

As eleições presidenciais são marcadas por dois símbolos aparentemente similares porém bem distintos. Feitos com o indicador e o polegar levantados na mão, dependendo da posição, cada um leva para um sentido diferente. Formando um L, denunciava a prisão política de Lula, efetuada no início do ano. Formando uma arma, apontava o apoio a Jair Bolsonaro, atual presidente eleito que defende a liberação do porte de armas para civis. A prisão e a arma, lado a lado, representam a privação, a punição e o cerceamento da liberdade individual ironicamente tão defendida pelo discurso neo-liberal.

Nas ruas, a escalada das mortes de minorias trazem consigo um grande peso simbólico. Bate Mais, canção que encerra PEDRA PRETA, chega à conclusão de que, no Brasil, “a violência é cerne e signo” ao invocar os nomes de Marielle Franco, mulher, negra, vereadora e ativista lésbica, assassinada em março, e Matheusa, ativista não-binária também executada no Rio de Janeiro pouco meses depois.

Em Bate Mais, expõe-se que a violência real também está implantada, como uma bomba, no campo simbólico e semântico: "São tantas as palavras que eles inventaram pra classificar (…) os fluídos, a renda, nosso útero, a necessidade de abortar". Respondendo à pergunta de Gayatri Spivak, autora de Pode um subalterno falar?, a canção matiza o lugar do oprimido: "São tantos os assédios que o primeiro ato não é poder falar, porque não se pode, ainda que se diga".

Como contraponto à rotineira expressão “chora mais” que inunda as caixas de comentários em notícias e postagens sobre minorias, Teto Preto sintetiza o prazer sádico compartilhado em massa no país: “Querem me ver no chão, mas não sem dor, com a manta ensanguentada do perdão” (Bate Mais). Embora, na sua origem, o termo sadismo tenha surgido como o oposto complementar de masoquismo, não é possível pensar que a posição sádica só existe porque há, em contrapartida, a posição masoquista. Um sujeito covardemente agredido na rua por sua expressão homossexual não pode ser chamado de masoquista. Porém, a estrutura sádica de prazer — isto é, ter satisfação ao ver a dor alheia — é mais um traço sociocultural que se desvela no Brasil de origem escravocrata, outrora exposto por Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala.

Diferentemente do caminho de lamento e penúria diante do horror da diluição e do enfraquecimento das instituições democráticas nos últimos anos, presente na mais recente canção de Gilberto Gil (Ok Ok Ok, lançada neste ano), Teto Preto assume uma postura de combate e enfrentamento (“Fujo da pele de presa, de podre coitada que perde a razão”). No país das tragédias anunciadas, PEDRA PRETA resiste como o negro meteorito Bendegó que sobreviveu ao recente e irresponsável incêndio do Museu de História Nacional do Rio de Janeiro: “Me preparo pro pior terror”.

PEDRA PRETA está disponível em todas as plataformas digitais