Milo Rau articula com MST e dá início à série inspirada em Jesus Cristo

Diretor suíço, que se autodenomina um católico marxista, fala sobre sua metodologia e projetos atuais e futuros

Milo Rau durante encontro com público promovido pela MITsp e Sesc Vila Mariana em março. Foto: Guto Muniz

Parece um paradoxo. Quanto mais Milo Rau adentra o lado obscuro da humanidade, mais holofotes se acendem entorno dele. Não foi diferente em sua primeira visita ao Brasil realizada em março a convite da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp).

A atmosfera de mistério e admiração que o envolve provoca desdobramentos constantes. Foi o caso desta publicação. Que havia sido planejada como entrevista e se transformou em um diálogo expandido com inúmeras notas de rodapé.

Nossa conversa inicial foi por videochamada em uma tranquila tarde de sábado enquanto ele ainda se preparava para vir a São Paulo. Descartei quase a totalidade das perguntas que gostaria de fazer sobre sua produção. Intuitivamente, me debrucei em desvendar sua personalidade por trás da fama de controverso e polêmico.

Rau é um contêiner de surpresas.


Que coisas você tem em mente sobre o Brasil?
Tenho muitos amigos que já estiveram no país. Minha esposa é meio alemã meio brasileira. Eu não tenho ideia do porquê nunca estive antes. Conheço milhares de coisas relacionadas à política, à recente crise econômica, sobre alguns artistas e, claro, sobre o Carnaval também.

Ser o artista em foco da sexta edição da MITsp significa o quê?
Com exceção de alguns filmes, nenhuma de minhas peças havia sido apresentada no Brasil. Fiquei feliz com a possibilidade de mostrar mais trabalhos, no caso, A Repetição, Cinco Peças Fáceis e Compaixão, porque eles tratam de temas bem distintos entre si. E também por participar de conversas com o público e tratar do projeto que quero realizar no país. Esta é uma bela aterrissagem.


Cena de A Repetição encenada no Auditório Ibirapuera na abertura da MITsp. Foto: Nereu Jr

A Repetição. História(s) do Teatro (I) cumpriu bem a função de abrir a MITsp. Estreada ano passado, reconstitui o assassinato de um jovem homossexual. O crime gerou comoção nacional na Bélgica em 2012. Expoente do teatro documentário, Rau não economiza nos recursos de metalinguagem para teatro e cinema, seus principais eixos de produção.

Essa peça desembarcou por aqui seguindo o rastro da ótima repercussão no Festival de Avignon e no Kunsten Festival des Arts. Além da disputada presença na lista das melhores de 2018, segundo críticos europeus do The New York Times.

Considerando que o Brasil lidera o ranking de assassinatos de homossexuais e a discussão sobre a criminalização da violência contra identidade de gênero ainda segue no Supremo Tribunal Federal, a montagem ganha relevância ao evidenciar à plateia as banalidades que motivam este tipo de atrocidade.

Atores de 11 a 14 anos em Cinco Peças Fáceis no palco do Teatro Sérgio Cardoso. Foto: Guto Muniz

A expectativa para Cinco Peças Fáceis era enorme. Afinal, há um tabu consolidado pelo adultocentrismo que impede crianças e adolescentes de abordarem certos temas, como pedofilia, solidão, autoritarismo, política e saúde mental.

Traça ainda um paralelo entre a negligência da Bélgica perante incontáveis mortes no Congo durante o período da colonização e a escandalosa sequência de sequestros, violências sexuais e assassinatos de meninas por Marc Dutroux.

A execração pública de Dutroux levou mais de um terço das pessoas com o mesmo sobrenome a solicitar mudança de nome na carteira de identidade entre 1996 e 1998. Além disso, mais de vinte possíveis testemunhas do caso não tiveram explicações satisfatórias para suas mortes.

Rau, que sempre comanda direção e dramaturgia, coloca o público em uma encruzilhada. É possível se situar em qualquer ponto entre a beleza e a indignação. Entre a pureza e a perversidade.

Ursina Lardi caminha pelo cenário de Compaixão no Teatro do Sesc Vila Mariana. Foto: Nereu Jr

A terceira obra de Rau a entrar em cartaz na MITsp foi Compaixão. A História da Metralhadora. Nela, a atriz belga Consolate Sipérius, de origem burundesa, e a suíça Ursina Lardi reproduzem o secular silenciamento entre brancos e pretos.

Após sua fala inicial, Consolate permanece no palco emudecida enquanto Ursina percorre dois terços da duração da peça detalhando a face malévola de ONGs que atuam em território africano e que preservam a colonialidade.

Surge um inevitável desconforto com a verborragia da loira europeia diante da mudez africana. No encerramento, as duas fazem conclusões profundas e concisas a partir de seus lugares de fala.

Esta pequena amostra de três peças do repertório de Rau permitiu o reconhecimento de sua assinatura e das características principais como autor e diretor. E também sobre a temperatura, a textura e o ritmo que ele propõe para denunciar violência estrutural. Sem incentivar a plateia a sair de suas próprias zonas de conforto.


Como lida com a abordagem de problemáticas que são distantes de sua realidade como cidadão suíço? Artistas estão liberados para se meter nos problemas dos outros?
É possível levar tudo ao palco. De todo tipo de tema a todo tipo de solidariedade simbólica. E até todo tipo de elenco, como fiz em Cinco Peças Fáceis. O discurso artístico é universal.

Você está tentando dizer que o que acontece na Bélgica, por exemplo, importa ao mundo todo?
Sim. O mais interessante é que nas artes quanto mais específico se é, mais universal se torna. Se você conta sua história pessoal para mim, eu vou me achar dentro dela. Este é o poder transformador do entendimento do outro. Obviamente, é preciso fazer bem feito. Minha metodologia consiste em buscar um caso único, tirar dele uma pergunta básica e me aprofundar até que seja compreensível por qualquer pessoa.

Sua fama de diretor controverso e polêmico ecoa continuamente.
Há muitos debates sobre o meu trabalho. E eu fico muito contente com isto. Eu sou a pessoa mais pacífica possível [risos]. Não escandalizo. Minhas produções que são relacionadas a fatos escandalosos. Na guerra civil do Congo, houve dez milhões de mortos e nenhum julgamento sobre isto. Esta é a razão do meu filme Tribunal Congo escandalizar. O que se faz é levar o público de um ponto ao outro. Arte não muda nada. E isto me chateia.


O performer Wagner Schwartz e Milo Rau dialogam sobre estar na berlinda das artes. Foto: Guto Muniz

Confesso que a fala suave, a excessiva polidez e a sedutora simpatia de Rau me fizeram pensar que ele devia ser mesmo o avesso do artista obcecado por tragédias e violências. Ou seja, aquele que constrói sua carreira com as mazelas alheias.

Meu encantamento durou até o nosso primeiro encontro. Por acaso, me sentei na mesma fileira na noite de abertura da MITsp e fui cumprimentá-lo e dizer que eu era o jornalista que o havia entrevistado dias antes.

Ele abriu um largo sorriso e disse que tinha reconhecido meu rosto. Fez uma pausa e lançou um olhar como se fizesse um scanning. Achei estranho.

Nas noites seguintes da Mostra, tive oportunidade de conversar com algumas pessoas das equipes dele. Era, na verdade, uma pesquisa para descobrir qual seria o seu “lado sombrio”. Sem exceção, embora destacassem os benefícios de trabalhar com Rau, citavam quase que veladamente o rigor com que ele conduz suas produções.

Acidentalmente, esta faceta ficou evidente. Ao final do encontro público entre Rau e Wagner Schwartz — ambos alvos de fake news e muitas polêmicas — fui solicitado para auxiliar a gravação de depoimentos deles. Rau não se concentrava na sua condição de entrevistado e começou a “dirigir” a situação. Dei-lhe uma bronca no melhor estilo suíço. Disse que sabíamos que ele preferia estar detrás da câmera. Rimos. E finalizamos.

Rau se disciplina para manter o controle. Ao mesmo tempo, está ligado a dezenas de outras coisas.


Como artista multimídia, por onde começa seu processo de trabalho?
Normalmente começo pelo teatro. Pode ser uma peça ou uma encenação em um palco ou área aberta. Então, eu filmo e isto pode virar uma nova versão e ir para o cinema ou TV. Tem projeto que teve livro publicado. Às vezes, acho que tenho de lançar um manifesto. Ou montar uma exposição. Ou atuar como ativista. Porque o tema pode ser explorado de várias maneiras.

Por que decidiu criar o International Institute of Political Murder (IIPM) e não uma companhia artística?
Funciona como uma plataforma de produção. Precisávamos repensar o modelo como teatro é feito. E também como buscamos financiamento e agir com profissionalismo. Nossos projetos são acompanhados por estudantes e assim possibilitamos a troca de conhecimentos teórico e prático. Esta é a razão de se chamar instituto. Lá há muita movimentação e gente pensando enquanto um projeto está em desenvolvimento ou em turnê.

E por que “political murder”?
É sobre políticas que geram violência e que matam. Por exemplo, ninguém é homofóbico porque ouviu falar da homofobia. Uma sociedade homofóbica é que produz crimes homofóbicos. Especialmente, quando um governante faz declarações públicas legitimando a homofobia. É estúpido e perigoso. Esse pensamento pode atrair seguidores. O meu interesse é a perspectiva sociológica destes acontecimentos violentos.

Influência de seu convívio com Pierre Bourdieu (1930–2002)?
A metodologia do Bourdieu é extremamente importante para mim. Em resumo, ler sobre os fatos é interessante. Mas ele advertia que é indispensável a experiência do contato físico. Para mim, a pesquisa de campo é a parte pedagógica do teatro. É quando se aprende de fato sobre as coisas.


Jesus no Sul da Itália — e alguns de seus apóstolos. Foto e legenda: Milo Rau

Rau comenta que agora há dois projetos correndo paralelamente.

27 de março, em Mosul, no norte do Iraque, foi realizada a pré-estreia da sua versão para Oresteia, trilogia trágica do clássico grego de Ésquilo. Ele lembra que já faz mais de um ano que o ISIS “devolveu” a cidade completamente destruída. Na sequência, tem a première de Orestes in Mosul, no dia 17 de abril no NTGent.

O outro projeto é baseado na vida e morte de Jesus Cristo. As filmagens serão realizadas em Matera, cidade italiana com mais de dois mil anos e também cenário para O Evangelho segundo São Mateus (1964), de Pier Paolo Pasolini (1922–1975), e A Paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson.

Seu filme se chamará O Novo Evangelho.


Em seus trabalhos, você costuma reunir atores profissionais e amadores. Quem vai ficar com o papel de Jesus? Um refugiado?
Sim, Jesus será um refugiado. Após ser cooptado para trabalho escravo na plantação de tomates, ele se torna um ativista e organiza uma greve onde mobiliza imigrantes de diferentes nacionalidades. É comum que a máfia italiana os mantenha separados impedindo que se comuniquem. No filme, os líderes destes diferentes grupos serão os doze apóstolos.

Sou um católico fervoroso. Mas sou marxista também [risos]. Jesus foi um líder do movimento dos sem terra em sua época. Um revolucionário social. Quero que as personagens sejam interpretadas pelos oprimidos.

Em maio, vou para a Itália filmar. Em agosto, encenamos a greve. No início de setembro, apresentamos a peça completa da Paixão de Cristo. Depois, haverá uma marcha até Roma onde encontraremos o Papa. Este é o plano.

Fale da parceria com movimentos sociais brasileiros.
Este futuro projeto no Brasil é uma cooperação entre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a MITsp e outros parceiros. A ideia é encenar algum importante evento histórico, como o massacre de Canudos, em um lugar simbólico. Será filmado também. Para então se tornar uma nova peça originada de uma coprodução internacional.

Tudo está associado ao filme sobre Jesus em Matera, que dá início a uma série de trabalhos sobre eventos políticos que retornam como grandes movimentos sociais e utópicos.


Milo Rau integra o rol de diretores teatrais mais destacados mundialmente. Foto: Guto Muniz

Rau nasceu em Berna, na Suíça. Tem 42 anos. Estudou Sociologia, Letras e Literatura em Paris, Zurique e Berlim. Atuou como jornalista para o Neue Zürcher Zeitung. Em 2007, fundou o IIPM. Em 2018, assumiu a direção artística do NTGent.

Recentemente, manifestou-se contra o governo de extrema direita no Brasil, despertando a ira dos apoiadores do atual presidente Jair Bolsonaro. Foi impedido de entrar em território russo para receber um prêmio porque sua obra The Moscow Trials fez uma dura crítica à liberdade artística na Rússia.

Recebeu na Suécia o título de doutor honorário pela Universidade de Lund. E foi convidado a dar aulas na Universidade de Münster, que fica na Alemanha.

Enquanto isso, é contagem regressiva para a próxima MITsp que será realizada de 5 a 15 de março de 2020.


Milo Rau sendo Milo Rau e eu: encontro dos aquarianos. Foto: Rafael Steinhauser

Minha breve convivência com Rau e suas obras proporcionaram muitas reflexões. Compreendi, a partir da experiência do teatro documentário, a importância que as nossas histórias pessoais têm para um contexto mais amplo. #MexeuComUmaMexeuComTodas

A denúncia das opressões presente em tudo o que fazemos é um ato político. Porque as violências estruturais exigem vigília permanente da utopia de um mundo mais justo. E, somente lá, a equidade social é algo tangível.